Há muito andava eu à cata de velho clássico Chernoviz, livro, outrora, de consulta obrigatória, espécie de vademecum medicinal e farmacéutico, tira dúvidas de todas as horas; solução prática para tratamentos de qualquer doença, usado e abusado principalmente no interior do Brasil onde e quando era difícil e escassa a presença de médicos formados.
Hoje, graças ao interesse e gentileza de um jovem e inteligente aluno da Faculdade de Filosofia de Colatina, Antônio Tavares de Paula, estou de posse de um exemplar muito bem conservado do precioso livro que se intitula: Formulário e guia médico contendo a descrição dos medicamentos, as doses, as doenças em que são empregados, as plantas medicinais indígenas do Brazil, um compêndio alphabetico das água mineraes, a escolha das melhores fórmulas, e muitissimas indicações úteis por Pedro Luiz Napoleão Chernoviz. Doutor em Medicina, Cavalleiro da Ordem de Christo e Official da Ordem da Rosa.
Como se não bastasse essa apresentação, o Formulário ainda acrescenta ao mesmo frontispício dessa décima oitava edição: "Revista, completamente refundida, muito aumentada e posta a par dos mais recentes progressos da ciência com um 'Memorial Therapeutico', remodelado em harmonia com as modernas ideas cientificas, explanando os tratamentos mais recentes de todas as doenças em especial das dos paizes quentes, a prophilaxia das doenças contagiosas, o diagnóstico e o tratamento das doenças de ordem médica e de ordem cirurgica: e com um 'Suplemento' indicando profusamente os novos medicamentos e dando interessantes artigos sobre a amammentação dos recem-nascidos, o cytodiagnostico, a puncção lombar, a anesthesia rachidiana, os soros therapeuticos, a bacteriologia, a photographia atravez dos corpos opacos, etc.: acompanhada de 693 figuras intercaladas no texto, de 6 mappas balnearios e de numerosas gravuras coloridas"...
Antônio Tavares de Paula conseguiu esse Chernoviz em Aimorés, onde reside, ou em lugar próximo a essa cidade mineira, obtendo-o na Fármacia São Geraldo, do farmacêutico Cleone Coelho Boy (se é que li bem o nome à tinta que no livro se vê). Pena é que não possa dizer aqui a data da edição, pois, infelizmente a parte inferior do frontispício, que a devia trazer juntamente, com o local da edição, está rasgada. A única data que se lê no Formulário é 1908, que consta nos mapas balneários (do Brasil, da província de Minas Gerais, de Portugal e Espanha, da França meridional e setentrional e da Alemanha).
Para que o leitor que nunca viu um Chernoviz, possa ter uma idéia (apagada embora) do tamanho do livro, basta que se diga que ele tem vinte centímetros de altura, treze de largura e... nove de... grossura, com as suas duas mil trezentos e sete páginas. É como se imagina, um "tijolo" de regular proporção.
Essa "bíblia da saúde" foi, durante muito tempo, o livro mais lido e consultado, resolvendo situações prementes, suavizando dores, desfazendo aflições domésticas, curando, de fato, males de toda sorte. Daí a sucessão de suas edições. Eduardo Campos, folclorista cearense, dedica-lhe todo um capítulo de seu livro Folclore do Nordeste (Rio de Janeiro, 1959), comentando a edição que possui a 13ª, de 1888, lançada pela Livraria A. Roger & Chernoviz, de Paris. Edição que contém mil oitocentas páginas... apenas.
O Formulário Chernoviz, além da parte propriamente científica sobre medicina e fármacia, contém outra, interessante e curiosa, sobre medicina popular e doméstica, dispersa, aqui e ali, pelas páginas do livro.
Vamos aqui registrar apenas alguns exemplos.
À página 211, no verberte Açafrão, lê-se esta receita: "Electuario d'açafrão composto ou Confeição de jacintho: Mel de abelhas 240 gram. Xarope de cravos 480 gram. Açafrão em pó 10 gram. Terra sigiliada preparada 30 gram. Olhos de caranguejo porphyrizados 80 gram. Canella de Ceylão 30 gram. Dictamo de Creta 10 gram. Sandalo citrino 10 gram. Sandalo vermelho 10 gram. Myrrha 10 gram. "Derreta o mel no xarope a fogo brando, côe: incorpore o açafrão na mistura meio-arrefecida. Deixe macerar durante doze horas, e ajunte depois as sete ultimas substancias, reduzidas previamentes a pó fino. Estomachico e absorvente. De 4 a 16 gramas. Supprimiram deste electuario a pedra preciosa inerte, o jacintho, a que devia o nome".
À página 446, no verbete Caracol há referência a um "Xarope e pasta de caracóes", preparado "com os caracóes das vinhas, que é o mais estimado de todos, muito uteis nas moléstias do peito, na rouquidão, nos catarrhos agudos ou chronicos", bem como "na asthma, na coqueluche, nas constipações e em todas as irritações do peito"...
À página 935, se indica o uso da Ponta (chifre) de veado, cujas raspas (10 g) associadas a miolo de pão (20 g), a goma arábica pulverizada (10 g), a açúcar refinado (60 g), e a água (suficiente) compõem uma "meizinha" válida contra desarranjos intestinais...
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É possível que eu ainda volte a falar nesse valioso Formulário de Pedro Luís Napoleão Chernoviz. Por hoje vai apenas este breve registro mais para formular, de público, os meus melhores agradecimentos ao prezado amigo Antônio Tavares de Paula, pela generosidade de seu régio presente.
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