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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Da pataca ao cruzeiro, o único que não perdeu seu valor foi um certo tostão

Carlos Felipe

O dinheiro sempre fez parte do folclore brasileiro, em versinhos, perguntas, frases e provérbios. Assim é que no norte de Minas é costumeiro dizer:

O papudo e a papuda
estão presos na cadeia
Batendo papo com papo
pra ganhar pataca e meia.

Os tempos eram ainda da pataca, por sinal, era dinheiro e tanto. Aliás, o folclore brasileiro só fala em dinheiro, antes do cruzeiro. Parece que esse nome — cruzeiro — não conseguiu se identificar bem com a alma do povo que preferiu conservar fatos, versinhos e provébios "do tempo do onça", quando era outra a moeda nacional.

Uma das raras exceções é de uma pergunta também mineira: "A gente jogando um cruzeiro pra riba não cai mais. Por que será?

A resposta é: só pode cair um cruzeiro, uai. Se a gente joga um cruzeiro, não pode cair mesmo mais. Só o mesmo cruzeiro".

O tostão

Uma das moedas que mais cairam ao gosto do povo foi o tostão. Deve-se isso ao fato de que naquele tempo a inflação era pouca e o valor do dinheiro permanecia inalterado. O tostão, que valia cem réis, chegou mesmo a identificar alguns objetos e "formas de dizer". O pão francês era chamado de pão de tostão e assim é chamado ainda em muitas cidades do interior. É costume também se pedir: "um tostão de limpeza", quando quer uma limpeza em regra. Fala-se também: "é muita banana para um tostão só", quando se quer dizer que é uma mentira muito grande ou uma coisa é muito barata.

Um dos ditados mais comuns em todo o Brasil é o afamado: "Quem nasceu pra tostão, nunca chega a dez réis", que se apresenta também com as variantes, entre ela; "quem nasceu pra vintém, nunca chega a tostão".

Os nomes

As antigas moedas brasileiras sempre tinham bom conceito popular. A cada uma que aparecia, o povo dava um nome característico. A nota de cinco mil réis era o cincão, enquanto amélia ou japonesa era qualquer nota já muito usada.

As moedas de quinhentos réis eram o quinhentão e a tradição conservou a expressão: "jogar quinhentão no veado", ou seja sair correndo logo.

Mil mil réis era o conto de réis e foi esse o preço que deram à cidade de Pirapora numa quadrinha popular do vale do São Francisco:

Pirapora vale um conto
São Francisco um conto e cem.
Januária não tem preço
Pelas morenas que tem.

Na terminologia popular era costume também chamar as moedas metálicas de que eram feitas. Assim é que generalizando, ao se falar em dinheiro, o povo só dizia níquel, cobre ou prata. Os mendigos de antigamente nunca pediram esmola, mas sempre "me dá uns cobres". O fato já era conseqüência de uma tradição antiga, segundo a qual "nunca se devia dar esmola em notas, mas só em níquel. Para não chamar a miséria pra gente".

Mesmo quando apareceu o cruzeiro, o povo continuou chamando as moedas metálicas de níquel, prata, cobre, embora nelas não houvesse nenhum desses metais e fossem, às vezes, feitas só de alumínio.

Outros, porém, acham que dinheiro resolve tudo, contanto que seja no tutu, nunca no fiado:

Caldo de galinha é canja
Conversa não é valentia
Com dinheiro tudo se arranja
Nesta casa não se fia.

Algumas vezes, usam-se as quadrinhas para se fazerem perguntas como essa:

Quatrocentos guardanapos
com um vintém em cada ponta
você diz que sabe tudo
venha somar esta conta:

A resposta é 1.600 vinténs ou 32 mil réis.

Vintém

O vintém foi outra moeda que caiu no gosto do povo. Dela surgiram vários ditados como: "mais vale um gosto do que um vintém", ou "vintém poupado, vintém ganho".

Aliás, o vintém foi motivo até de uma revolta no Brasil. Em 1879, sendo ministro da Fazenda o dr. Afonso Celso Assis Figueredo, e havendo necessidade de equilibrar o orçamento do Império, o governo criou um imposto de trânsito sobre passageiros nas vias férreas.

O imposto era de vinte réis, um vintém — e apesar de o Jornal do Commercio ter combatido a idéia, ela entrou em execução, embora fosse injusta, pois os passageiros tanto da primeira, segunda ou terceira classe pagavam a mesma quantia, prejudicando assim os mais pobres.

Crenças

Com respeito a dinheiro, o povo brasileiro tem uma série de crenças e costumes. Sonhar com dinheiro em níquel, por exemplo é miséria que se aproxima.

Também ganhar na loteria e com o dinheiro comprar sapatos não presta, pois é dar chute na fortuna.

Quando se der um lenço de presente a uma pessoa amiga, deve esta dar de volta um níquel, preferivelmente de tostão, pois assim a amizade nunca se acaba.

Colocar dinheiro sobre a toalha da mesa traz miséria.

O costume de tirar a sorte com moedas, na base da "cara e coroa", vem do tempo em que as moedas sempre apresentavam, de um lado, o rosto do rei e de outro as armas e a coroa.

Em alguns lugares, as mãos costumavam dar uma moeda de beijar aos filhos quando ainda pequenos. Se assim fizessem, eles teriam facilidade pra ficar ricos.

As quadrinhas

É nas quadrinhas, porém, que o povo brasileiro usa e abusa da palavra dinheiro ou das moedas. Às vezes, a pessoa usa o dinheiro como forma de grandeza:

Menina, me queira bem,
menina do meu dinheiro.
Ou aqui, ou na Bahia
ou no Rio de Janeiro

Mas também os conselhos; em que se diz que dinheiro nem sempre resolve questões:

Quando tiveres amigo
por causa do teu dinheiro
Olha que é teu inimigo
e nunca teu companheiro.

Para as moças que preferem se casar com gente rica, o povo também diz:

Menina que quer casar
Pensa bastante primeiro
Mais vale um moço sem nada
do que velho com dinheiro.

A 1º de janeiro de 1880, houve um comício de protesto e vários oradores se fizeram ouvir, entre eles, o tribuno popular Lopes Trovão, que ameaçou mandar arrancar os trilhos dos bondes existentes na praça do comício. Alguns populares ouviram as palavras de Lopes Trovão e começaram a arrancar trilhos. O governo mandou o primeiro batalhão de infantaria do exército manter a ordem. Houve resistência, tendo o povo construindo barricadas. No tiroteio que se armou, quatro pessoas morreram e outras ficaram feridas.

Foi como jogar pólvora no fogo. A agitação tomou conta do Rio e o governo foi obrigado a reforçar o policiamento da cidade com marinheiros e fuzileiros navais, enquanto a companhia de bondes que fazia a ligação com o Jardim Botânico se dispusesse a pagar ela mesma os impostos de todos os passageiros, a fim de evitar complicação.

Mesmo assim a confusão continuou até que o Ministério não conseguisse resistir à onda popular, sendo obrigado a pedir demissão, no dia 20 de março. O novo Primeiro Ministro, conselheiro José Antônio Saraiva, logo ao tomar posse, se pôs contra o imposto do vintém que acabou sendo revogado. À época da revogação, porém, ninguém mais o pagava. Havia sido revogado pelo povo.

O povo conservou no folclore a lembrança do acontecimento:

Se o povo se levantou
fez o povo muito bem.
Se depois se acovardou
foi por causa do vintém.

Se nos bondes a passagem
pagar mais caro o povo tem
Se brigarem na viagem
foi por causa do vintém.

O Brasil adiantado
caminhava muito além
Se hoje vê-se atrasado
foi por causa do vintém.

Foi tudo de cabo a rabo
por um dinheiro xenxém
Se o povo fez o diabo
foi por causa do vintém.

Adeus, amigo xingu
Requiescat in pace amém...
Se escrevi este lundu
foi por causa do vintém.

 

(Carlos Felipe. "Da pataca ao cruzeiro, o único que não perdeu seu valor foi um certo tostão". Estado de Minas)

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