A noite toda, era só ser noite de lua cheia, ela se precipitava a correr, a correr sem parar, sem cessar, sem cansar, e se emaranhava entre as árvores, metia medo aos pássaros, acordava as feras, espantava os ecos, assombrava a mata iluminada. Era só ser noite de lua cheia, e era assim a noite toda.
A lua cheia, para os manaus, é um índio belo e forte, de uma tribo extinta há uma porção de anos, que combateu contra mil arcos, uma noite subiu para o céu, lá se encantou, mas volta todos os meses, com seu fascínio e sua audácia de guerreiro, para escolher, nas tribos, mais uma cunhã para ser sua esposa.
Cada estrela é uma cunhã que o fogoso guerreiro encantado em lua cheia levou da terra para se casar no céu.
O céu é bonito cheio de estrelas porque o guerreiro vai de nação a nação é só escolhe, entre as belas, as mais belas.
Olha, vê as estrelas, uma delas é Janã, outra é Nacaíra, ainda outra é Oribici, tem uma que é Tarumã, todas elas assim de nomes sonoros, que o guerreiro arrebatou das selvas para os encantos do céu, e eram virgens das tribos dos manaus, dos maués, dos aruaques, todas elas bonitas como os amores.
Só Naiá corria e gritava e clamava e implorava, e tropeçava nas grossas raízes, rasgava as carnes do corpo tapuio no gume das folhas navalhantes, nos espinhos afiados, intrincava-se nos longos cipós, mas resistia à dura provação — resistia também o guerreiro da lua cheia aos seus gritos, aos seus clamores de amor demais, ao seu desesperado apelo de ser uma estrela no céu.
De braços abertos, para alcançar o guerreiro e abracá-lo, mas só lhe restando as sombras, a feia Naiá, como assombração, acordando as feras, espantando os pássaros, assustando as árvores, estremecendo os ecos, de tanto correr, foi dar uma noite à beira de um grande rio, e lá estava ele nas águas, refletindo, tão belo quanto o céu.
Como para tão grande amor era fácil o gesto, a feia Naiá mergulhou no rio ao encontro do bem-amado, mas ele, tranqüilamente se afastou, subiu pela outra margen e foi embora.
Passaram sete luas desde essa noite até a noite em que o corpo da feia Naiá apareceu boiando à superfície do Amazonas feita uma flor imensa — majestosa e bela estrela das águas.
Era a vitória-régia.
Assim diz a lenda.
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