O sertanejo depois da mulher, ama desesperadamente o seu cavalo e as suas armas. Rodrigues de Carvalho, Cancioneiro do norte (Paraíba, 1928, p.267), recolheu um verso expressivo sobre este elemento etnográfico:
Há quatro coisas no mundo
Que alegra um cabra macho:
Dinheiro e moça bonita,
Cavalo estradeiro-baixo,
Clavinote e cartucheira.
Pra quem anda no cangaço.
No famoso desafio entre Inácio da Catingueira e Francisco Romano, o primeiro resumiu os dez desejos naturais de toda a gente (Leonardo Mota, Cantadores, Rio de Janeiro, 1921, p.175):
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá, sem sê agregado,
Comê carne com gordura.
O cantador Joaquim Venceslau Jaqueira (op.cit., p.18) tinha apenas três predileções:
Eu andei de déo em déo
E desci de gáio em gáio
Jota a-já, queira ou não queira.
Eu não gosto é de trabaio,
Por três coisa eu sou perdido:
Muiê, cavalo e baraio!...
Uma popularíssima quadrinha registrada por Rodrigues de Carvalho, tantas vezes ouvidas por mim no sertão, confessa:
Já sou velho e tive gosto,
Morro quando Deus quiser,
Duas coisa me acompanha
Cavalo bom e mulher.
Uma sextilha conhecida e que meu pai recitava tê-la ouvido ainda menino decide entre a mulher e o cavalo:
Minha mulher e meu cavalo
Morreram no mesmo dia;
Antes morresse a mulher.
O cavalo é qu'eu queria;
Cavalo custa dinheiro,
A mulher não faltaria...
Duas variantes alagoanas ouvi-as recitadas por José Aloísio Vilela em Maceió:
A mulher e o cavalo
Morreram de madrugada
Tive pena do cavalo
Que a mulher não era nada.
A mulher e o cavalo
Morreram no mesmo dia;
Tive pena do cavalo
Que a mulher nada valia.
Não deparei exemplo português na espécie.
Valorizando o cavalo podia ser do ciclo castelhano e fatalmente haveria repercussão sul-americana. É a presença indisfarçável do árabe, apaixonado pelo seu cavalo nobilíssimo. Maomé amava no mundo, acima de tudo, as mulheres e os cavalos. Westermarch (Survances Paíennes dans la civillisation mahométane, 128), informa: "Le plus noble de tous les animaux est le cheval. Il est d´un sang auguste, il parell à un chérif. Il est en bênediction à son maitre. Les espirits malins, fuient le lieu ou se trouve un cheval; quand il hennit il les met en fuite ou casse les têtes de quarante d´entre eux. Le respect superstitieux qui entoure le cheval dans I´Afique du Nord date d´une époque probablement fort ancienne".
Por todo o ciclo do gado o cavalo é naturalmente o rei (Luís da Câmara Cascudo, Leges et consuetudines medievais nos costumes do Brasil) e os versos em seu louvor aparecem constantemente.
Uma réplica à sextilha brasileira encontrei na Colômbia. Ciro Mendia, Estorno a la poesia popular, (Medelín, 1927, p.94), registra os cantos entoados pelos trabalhadores colombianos nos engenhos de cana-de-açúcar, seguidos pelo ritorneio melancólico:
Molé, molé,
Molé, trapiche, molé
Molé la caña pasada.
Molela a la media noche,
Molela a la madrugada...
Trapiche é o pequeno engenho de moer cana. No século XVI denominava-se no Brasil, o engenho movido por bois. Há um versinho irmão do nosso:
Mi mujer y mi mulita
Se me murieron a un tiempo,
que mujer ni qué demonios;
mi mulita es la que siento.
Idêntico é o verso de Guatemala, colhido por Adrian Recinos, "Algunas consideraciones sobre el folklore de Guatemala" (Journal of American Folk-Lore, v.29, 1916, p.565):
Mi mujer y mi caballu
Se me murierou a un tiempo
Qué mujer ni qué demonio!
Mi caballo es el que siento!
É justamente na Espanha que encontro o mais antigo modelo. Divulga-o dom Francisco Rodriguez Marin, Cantos populares españoles, v.4, Sevilha, 1883, p.407:
Mi mujer y mi caballo
Se me murieron a un tiempo:
Que mujer, ni qué demonio!
Mi caballo es lo que siento!
Mi caballo me costó
Ciento cinquente doblones
Y mi mujer solamente
Dichos e amonestaciones.