Pouca gente tem salientado a alta importância do quintal na vida doméstica do nosso povo — do quintal que, infelizmente, vai desaparecendo nas bases dos arranha-céus de cimento e de ferro.
Nesse quintal — maior ou menor segundo as posses de seu dono — cresciam árvores de arbustos, floriam flores, ciscava a criação; nessa área de terra, viviam e brincavam as crianças à sombra e ao sol, crescendo sadias e coradas.
Era assim desde o começo da nossa colonização: Anchieta fala da terra capixaba, dos seus primeiros engenhos, da igrejinha nova e — o que era comum, então nas casas dos colonos — da "cerquilha com algumas árvores de fruto, como laranjas, limas doces, limões e outros frutos". ("Informação da província do Brasil". In Cartas (...) de Anchieta 1551-1591. Rio de Janeiro, 1933, p.419).
Nesses quintais estava a botica doméstica. "Os quintais das casas" — escreve o médico e folclorista catarinense, Osvaldo Cabral — "por mais pobre que o sejam conservam sempre as plantas mais conhecidas como curativas — são a primeira "botica" do povo. Quando a algum falta um planta indicada, corre-se a vizinhança, a fim de obtê-la, em caso de necessidade. Não se nega, jamais, um auxílio desta natureza". (A medicina caseira. Separata da revista Douro-Litoral, nº 7-8, 4ª série. Porto).
Assim era, assim é, assim talvez o será por mais algum tempo, aqui nesta cidade de Nossa Senhora da Vitória. Laranjeiras, limoeiros, goiabeiras, sabugueiros, pés de romã, de abacate, de eucalipto, e arruda, malva, hortelã, "baga", dálias, espirradeira etc. etc. — de tudo isso se servia (e ainda se serve) a farmácia popular, secular e prestante.
O nosso padre Antunes de Siqueira, em seu Esboço histórico dos costumes do povo espírito-santense (1ª ed. Rio de Janeiro, 1893, p.70), escrevia, com relação à medicina popular da época: "Remédios grosseiros, colhidos de cascas, frutos, raízes e sementes agrestes, pela maior parte compostos com aguardente, eram os específicos para quaisquer enfermidades". E cita alguns: "A raiz do fel-de-goso, amargo único, substitui o quinino. Purgantes de azeite da mamona, clisteres de maririssa, vomitórios de buxa, eis a farmácia natural, a que se recorria! Os banhos se compunham de milhares de ingredientes! O pico-preto, a brocaúna, as folhas de pinhão, de cipó-escada, a folha dura e outros muitos entravam nas operações medicinais".
Tudo isso prossegue até hoje. São mezinhas que a tradição oral do nosso povo continua a difundir, preservando-a do esquecimento ou da morte. Remédios "grosseiros" — dizia o velho padre Antunes — mas remédios curativos, base — muitos deles — da variada e vistosa indústria farmacêutica de hoje.
Em 1954, recolhemos entre as nossas alunas do Colégio do Carmo, um punhado de informações (que elas, diligentemente, obtiveram em suas casas) referentes ao uso ou emprego de vegetais em nosso folclore. Vão aqui alguns exemplos, tirados da interessante colheita:
Folha de baga: fervida, a água serve para colocar nas feridas.
Broto de bananeira: espremido, é bom para queimaduras.
Erva santa: soca-se e se põe ou se amarra no pé destroncado.
Erva-de-santa-maria: é bom para expelir lombrigas.
Folhas de dálias: põe-se azeite na folha, aquece-se e se bota no tumor ou "cabeça de prego".
Canela com cachaça queimada: ótimo remédio contra tosse.
Mastruço ou casca de cerejeira: também.
Rosa branca: bom remédio para banhar os olhos.
Bicuíba, poejo, folha de laranja cravo ou da terra: para gripe.
Chapéu de couro: para o fígado.
Paribaroba: para rins e fígado.
Quebra-pedra: para rins.
Aroeira ou folha de guandu: para banhar os dentes (dor de dente).
Capim santo e negramina: para dores reumáticas.
Folha de baga ou de pimenta, bem novinhas: para colocar em cima de tumores, para amolecer (passar, antes, azeite nas folhas).
Muitas dessas mezinhas são dadas em forma de chás que — como ninguém o ignora — são o mais santos, o mais simples e comum dos remédios caseiros. "O primeiro de que se vale o homem do povo no tratamento dos doentes que se tem em casa." (Osvaldo Cabral, idem). Toma-se chá de tudo quanto é folha ou raiz. Da relação coletada pelas alunas do Carmo, cito mais estas:
Chá de arruda: para cólera.
Chá de folha de laranja da terra ou de limão: para a gripe.
Chá de folha de abacate ou casca de lima: para o fígado.
Chá de hortelã miúda: para os intestinos.
Chá de sabugueiro: para "chamar" o sarampo.
Chá de canela: para vômitos.
Chá de "milome": para cair "berruga".
Chá de broto de goiabeira: para disenteria.
Chá de raiz de jurubeba: para coqueluche.
Chá de pariparoba: para baço inflamado.
Chá de arnica: para "machucados".
Chá de erva-cidreira, camomila, macaé, losna, erva-doce: para dor de barriga etc. etc. etc...
Nossa farmácia popular é do mais alto valor. Não o fosse é duvido que se mantivesse, até hoje, com a mesma fé (dos doentes), a mesma eficácia (nas curas) e a mesma constância entre o povo simples, incapaz de maiores gastos nas boticas de alta propaganda e de altos preços...