Já na frota descobridora de 1500, um de seus capitães, Pero de Ataíde, da nau São Pedro, tinha a pouco adequada alcunha de Inferno. Outro navegador de nossos primeiros tempos, João Dias de Solis, talvez por seus hábitos de intemperança era chamado Bojes de Bagaço.
Dos donatários destituídos por dom João III, o da Bahia de Todos os Santos, Francisco Pereira Coutinho, trouxe da Índia onde valorosamente serviu, o apelido de Rusticão. A mais divulgada alcunha da época seria porém, a do antigo morador da capitania, o náufrago Diogo Álvares, o Caramuru, cognome que sofreu especiosas interpretações, mas que realmente se deve à enguia da região, como depois adotaram seus descendentes, inclusive o falso descobridor de prata Belchior Dias Moréia.
Outro notável vulto do século XVI, Jerônimo de Albuquerque, povoador de Pernambuco, tendo em luta contra os indígenas perdido um olho, atingido por flecha, daí teve o apelido de Torto, embora o chamasse "branco cisne venerando" o poeta Bento Teixeira, e por sua grande descendência fosse considerada, pelos genealogistas, o Adão Pernambucano. Seu filho de igual nome, por ter eficazmente contribuído para a conquista das terras maranhenses, ao já valioso "Albuquerque terríbil" acrescentou o sobrenome Maranhão, ainda hoje existente.
Não escaparam aos cognomes vários governadores-gerais do Brasil, a começar por dom Francisco de Sousa, por sua prudência chamado Das Manhas. Outro, Pedro da Silva, que a tenaz resistência à malograda tentativa de assalto do conde João Maurício de Nassau-Siegen à cidade do Salvador, em 1638, foi apelidado o Duro, antes de premiado com o título de conde de São Lourenço, e Antônio de Sousa de Meneses, o Braço de Prata, assim se apelidou por ter pedido o direito, em luta contra os holandeses substituindo-o por outro desse metal, como permitia a ortopedia da época.
De Pernambuco foi governador, deposto em 1666. Jerônimo de Mendonça, por seus bigodes enfunados, à maneira do general alemão Armand Friederich von Schomberg, apelidado Xumbergas, como apurou Rodolfo Garcia.
No Maranhão, sendo vários governadores de nomes repetidos, por pertencerem à mesma família, houve a necessidade de diferenciá-los. assim, tendo sido dirigente deste primeiro denominado estado Francisco Coelho de Carvalho, outro do mesmo nome, seus sobrinho, passou a ser o Sardo.
E havendo, como maior de todos, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, um dos grandes administradores do Brasil Colonial, seu pai e antecessor de menor importância mas, do mesmo nome, teve de ser o Velho. Motivo muito diverso teria o cognome de outro governador maranhense, dom Francisco de Melo Manuel da Câmara, o Cabrinha.
A mesma preferência pela denominação zoológica registrou-se no Rio de Janeiro: Francisco de Castro Moraes, duas vezes governador, da segunda conseguiu vencer o ataque do francês Du Clerc, mas não pôde ou não soube resistir ao mais forte, de Duguay-Trouin, razão pela qual foi apelidado o Vaca e privado de posse, degredado para Índia, sobre prisão perpétua, depois perdoada. Luís Vaia Monteiro, que enlouqueceu no cargo, sendo deposto pela câmara, chamou-se o Onça, daí se originando a expressão No tempo do Onça. Note-se que nos dois casos, apesar de serem femininos os animais preferidos, estão precedidos de artigos masculinos.
Em Minas Gerais registrou-se o apelido literário de Fanfarrão Minésio, dado ao mau governador Luís da Cunha e Menezes no poema satírico Cartas chilenas, de autoria justamente atribuída a Tomas Antônio Gonzaga.
Deixando o período colonial e passando à nossa monarquia, longo seria o levantamento de apelidos políticos. E começaria pelos próprios imperadores, pois para José Bonifácio, quando no exílio, dom Pedro I adequadamente era Pedro Malasartes; e para os republicanos mais desrespeitosos, dom Pedro II era apenas Pedro Banana.
Fértil em alcunhas foi o período das regências, conforme registramos em nossa Contribuição à história da imprensa brasileira. Evaristo da Veiga, por exemplo, geralmente chamado de Ripanço, chegou acumular vários apelidos como Dom Bertoldinho Marreco Ripanço Capadócio de La Viga.
Nos excessos das lutas políticas do segundo reinado muitos foram os apodos com que se mimosearam grandes vultos da época. Assim, para o severo conselheiro Zacarias de Góis e Vasconcelos, era o franzino José de Alencar o Fanadinho. Este, literariamente combatido por Joaquim Nabuco, revidou-o chamando-o de Apolo de Gesso. Poderíamos multiplicar os exemplos do gênero.
A República não ficou atrás em epítetos destinados aos seus presidentes. A maioria docemente familiares ou diminutivos como Maneco, Dudu, Lalau, Tio Pita, Gegê e Nonô. Louvaminheiro será o florianesco Marechal de Ferro. Designativo de paulistano será o Biriba de Prudente de Morais. Mas também se recorreram às aves. Como Pavão, Peru, Tico-tico e Rolinha, para dois paulistas e dois mineiros. Ou a simples atributos pessoais, como Barbado, para Washington Luís. Não foram poucos os excessos registrados, bastando lembrar que um deles, em pretensamente ditirâmbica poesia foi chamado de Cheirosa Criatura.