Este é um conceito dado pelos orientais, ou melhor, uma linguagem instintiva, um sistema primitivo e sofisticado de se fazer entender. Seu único mal está na dependência da interpretação, porque como tudo tem mais de um sentido e pode levar a várias conclusões.
Por exemplo: se no Brasil um cavalheiro une o polegar ao indicador erguendo os dedos restantes para deixar livre a perfeição e circunferência, o interlocutor tem todo direito de voar-lhe às ventas, e mandar-lhe a mão na cara ou responder de modo igualmente violento. Já se o mesmo gesto for realizado nos Estados Unidos, a resposta será prazeirosa e jovial, possivelmente uma troca de circunferências e de sorrisos demonstrando que tudo está OK.
Os europeus dão importância à gesticulação das mãos e à movimentação dos ombros. Nos Estados Unidos, entretanto, o que conta são os movimentos dos olhos, sendo que arregala-los tem um significado diferente para pretos e para brancos. Esfregar os narizes são para os esquimós uma demonstração de afeto, enquanto que para os ingleses apenas uma demonstração de falta higiene.
Dizem que os italianos falam com as mãos. É uma calúnia. Quem fala com as mãos são os surdos-mudos. O italiano fala com o corpo todo ajudando-se apenas com as palavras. É isso, as palavras na Itália servem sobretudo para colorir a fartura de gestos. Gesticuladores por excelência, os italianos conseguiram até um gesto fácil e imediato para ilustrar o insulto nacional, sobrepondo-se a distâncias, a ruídos urbanos. Basta erguer o indicador e o mindinho da mão fechada para que o interlocutor entenda logo: "Cornuto" e retribua.
Isso convenhamos é uma falha da florida cultura itálica. No Brasil temos a famosa "banana", gesto que ao contrário da fruta floresce em qualquer parte do mundo. E temos "aqui, ó!" Temos mais o " top, top", e vários outros.
Como lançar o epíteto ao vizinho da frente que se entretém ao saxofone altas horas da madrugada? Como xingar o volante que buzina atrás da gente? Ou um encontrão que levamos na rua? Como transmitir o glorioso impropério com a divindade pungente e agressiva do silêncio? Vulta-nos um gesto.
Os animais sempre se comunicaram através dos gestos, e ao que tudo indica esse foi também o primeiro sistema de comunicação humana. Quando o carnícula baixava o tacape na cabeça do seu interlocutor, esse compreendia imediatamente quais as suas intenções. Do mesmo modo, foi através do gesto que surgiram os primeiros relacionamentos amorosos, tendo-se iniciado o romantismo através do clássico gesto de agarrar a mulher pelos cabelos.
Calcula o soviético Marr, que a linguagem falada tinha sobreposto a linguagem gestual. Um erro do qual a humanidade não mais se refaria. Continuamos até hoje falando sem nos entender, e os gestos, desvirtuada a sua pureza, só fazem aumentar a confusão.
Sabemos que a palavra deu naquela confusão de Babel, que não teria existido se todos se entendessem através da mímica. E sabemos de outras confusões tantas, originadas pela palavra através da história. Agora de gestos não temos má memória.
Parece, pelas pinturas legadas, que os egípcios só gesticulavam em ângulo reto. E parece também, pelos baixos-relevos dos antigos mexicanos, que a turma desmunhecava um bocado, apesar da tese de J. Barr, publicada em 1850, segundo o qual não se tratava de bichice, mas de linguagem dactíloga, ou seja, expressa através da posição das mãos e dos dedos.
Mas não se sabe dos gestos através dos tempos, pois de tão instintivo passou desapercebido. Resta-nos apenas alguns gestos históricos de feito definitivo. Não tivesse Moisés lançado ao chão as tábuas da Lei (gesto que Sérgio Ricardo repetiria tempo mais tarde ao varejar o famoso violão na platéia) e o bezerro de ouro seria talvez nosso deus até hoje. O famoso "V" da vitória fabricado pelos dois dedos de Churchill, foi talvez um dos mais importantes elementos na manutenção do civismo e da resistência britânica sem os quais a Segunda Guerra poderia ter tomado outros rumos.
E nós mesmo no Brasil, devemos a independência em grande parte ao famoso arrancar de fitas de dom Pedro I. O gesto é, enfim, a componente teatral sem a qual os atos históricos encontrariam dificuldades em se fixar na memória da humanidade.
Dois cientistas ingleses, Christopher Branningan e David Humpries, calculava que o corpo possui um sistema de comunicação por gestos e expressões. Deste catalogaram-se 135 gestos da face, cabeça e corpo, graça aos quais pretende interpretar o significado de qualquer atitude humana, seja ela ou não acompanhada da frase.
Segundo Branningan, o aprendizado consciente levaria a maior comunicação e entendimento entre as pessoas, não só na transmissão de mensagens que poderiam ser mais claras e concisas, mas sobretudo porque o gesto conduz as formas de relacionamento muito mais diretas e íntimas.
Os gestos, operando num nível de consciência diferente do discurso normal, facilitam o aflorar de idéias e sentimentos que o indivíduo não se permite conscientemente. Mas igualmente verdade que a posição moderna de fechamento, o interlocutor raramente os percebe.
Paz e amor pra você se gostou. Se não gostou leve uma banana para casa.