As cidades brasileiras e, em número considerável, os acidentes geográficos, têm em geral nomes indígenas, muitos já com pronúncia bem diferente daquela que o homem branco ouviu, ao chegar às plagas brasílicas.
A toponímia brasílica é rica em termos tupis e guaranis e o seu significado é desconhecido pela maioria da nossa gente. Pouco paulistanos sabem o sentido da palavra Piratininga. Muita gente não sabe porque a sua cidade tem este ou aquele nome.
O professor João Carlos de Almeida possui, no entanto, um interessante trabalho sobre os nomes de cidades e vilas paulistas, publicado pelo Departamento de Estatística do Estado de São Paulo, no qual ocupa o cargo de diretor da Divisão de Estatísticas Físicas, Sociais e Culturais.
O trabalho do senhor João Carlos de Almeida não tem o propósito de trazer a público o significado dos topônimos. Atendendo a uma necessidade, publicou ele, com observações e pesquisas de sua autoria a parte final de uma obra do professor Sá Nunes, sob o título Toponímia brasílica, onde é fixada a forma ortográfica dos nomes indígenas usados para a denominação de cidades e acidentes geográficos.
"Peixe seco"
Há muito nome que, apesar de ter grafia semelhante às palavras indígenas, nada significa nos dialetos e idiomas dos silvícolas. Um exemplo serve para esclarecer: Batatuba. O sufixo tuba ou tyba é guarani, mas Bata é o nome de um industrial tcheco que denominou assim a vila onde montou sua indústria, no caminho de Piracaia, que, por sua vez significa "peixe gordo".
Nós paulistanos, que nos orgulhamos da nossa Piratininga, ficamos chocados quando sabemos o que quer dizer esta palavra, e não conseguimos ligar o seu sentido com o local onde foi fundada a cidade. "Peixe seco". Porque o planalto de Tibiriçá e Caiubi teria esse nome? A resposta cabe aos historiadores. O peixe seco ou secando intriga as gerações do presente. Talvez o planalto tenha esse nome porque os nossos antepassados guaianases pescavam no Tamanduateí, rio dos tamanduás, o peixe cascudo, e deixassem o produto do seu trabalho secando ao sol, nos contrafortes da Tabatinguera.
Nomes interessantes
Segundo alguns tupinólogos, muitos dos nomes das cidades e vilas do Brasil têm significados obscenos. Os índios, deixando as terras que os brancos invadiam, quando a elas se referiam faziam-no com ódio ou ironia. Era um palavrão — ingênuo perto dos que hoje são comumente empregados — que servia para indicar uma vila ou acidente geográfico. O vocábulo indígena poti, por exemplo, traduzido como camarão não tinha esse significado. O "y" da grafia adotada pelos jesuítas nos seus tratados sobre a língua dos índios era atribuído ao "i" com som nasal, ou então semelhante à pronuncia do som de "u" em francês, isto é um "i" pronunciado de boca fechada, com o tradicional "biquinho" dos lábios. Nesse caso, a palavra poti deixava de significar camarão para passar a ter o sentido de poty. isto é, excremento. Assim os aimorés se referiam aos índios que tinham aceitado a dominação branca, portuguesa ou holandesa, nas capitanias de Pernambuco e Itamaracá. O potiguara, nome que ainda designa os brasileiros nascidos no Rio Grande do Norte e alusivo em geral aos habitantes das praias do Nordeste, na região sociológica do "sururu", hoje tido como "comedor de camarão", era um termo depreciativo, ofensivo até, pois não era "poti" que os índios pronunciavam assim "potin".
Taubaté quer dizer cidade. Itararé, por exemplo, é um nome que expressa muito bem o fenômeno geológico que ocorre com esse rio. O curso d'água, no lugar onde está situada a cidade do mesmo nome, é subterrâneo, e Itararé tem, em tupi, esse sentido. Sorocaba quer dizer lugar onde há escavações ou erosões. Tabatinga é aldeia branca, Ypiranga, rio vermelho de águas barrentas. Itaquera é pedra velha. Apiaí é rio dos homens, dos guerreiros, dando-lhe alguns estudiosos o sentido de água dos cativos.
O vocábulo pira
O número de cidades que tem o seu nome formado pela palavra pirá = peixe é grande. Temos, para citar alguns topônimos: Piracaia (peixe gordo); Piracicaba (queda d'água que não permite a passagem do peixe), Pirassununga (peixe roncando), Pirajaí (rio onde o peixe cresce); Piraju (peixe amarelo ou dourado); Pirajuí (rio onde há peixe amarelo ou dourado); Pirapitingui (ação de pescar o peixe utilizando de veneno); Pirapora (lugar onde os peixes pulam ou saltam) etc.
As palavras com o vocábulo pará referem-se sempre a rios e mar. E uma deve merecer nossa atenção pela exatidão do seu significado: Paranapiacaba. Paraná — rio grande ou mar; e apiacaba — lugar de onde se vê. Era o miramar dos nossos guainases, de onde o seu chefe Tibiriçá (olhos envocados, torvos) contemplava lá embaixo o parati-oca ou barti-oga, hoje a Bertioga, o famoso "refúgio das tainhas".
E temos casos interessantes nos nomes próprios e outras expressões indígenas que empregamos. O nome feminino Jurema nada mais significa que um espinho mal-cheiroso. Marabá, nome muito usado ultimamente, tem um sentido fortemente pejorativo, deixando muito paraguaio que visita São Paulo confuso quando o convidam para ir ao cinema do mesmo nome. Marabá quer dizer filho espúrio, bastardo, e não como querem alguns, "índia de cabelos loiros". A lenda que dá às palavras este último significado, deve ter uma origem verdadeira. A índia loira devia ser filha de algum português aloirado, e o termo marabá foi utilizado pelos silvícolas, com o seu significado verdadeiro, isto é, ofensivo.