Habituamo-nos a considerar as favelas como o refúgio da escória social, dos delinqüentes e desocupados, isso é verdade, apenas até certo ponto, em virtude de constituírem tais favelas, na maioria dos casos, como que zonas independentes dentro de cada cidade. Geralmente o habitante daquele lugar possui também uma profissão. Interrogado, quando não declina a ser carroceiro, cozinheiro ou outra coisa qualquer, declara que vive de biscates.
O elemento feminino também se "defende" no seu próprio dizer. A mulher trabalha como doméstica ou se dedica a uma profissão especial, lavagem de roupas e se constituem no rol das chamadas lavadeiras, emprego que, em geral, também foi seguido pela mãe visto que se transforma quase sempre numa tradição familiar.
Vestida geralmente de chita, lenço amarrado à cabeça, e calçada de tamancos, a lavadeira traz, uma ou duas vezes por semana, da casa da freguesa, sua trouxa de roupa, que é lavada em tina, com o recurso das mãos, colocada do lado de fora da casa para secar em grandes varais.
A água utilizada, às vezes vem da própria casa, ou é apanhada nas bicas, quando existem, ou mesmo a roupa é lavada ainda à beira de rios. Quando há minas nos morros, o proprietário aumenta uma certa quantia no aluguel dos barracos, levando em conta a qualidade média da água que se gasta. Em latas sobre a cabeça a água é transportada pela lavadeira ou por meninos seus filhos ou biscateiros mirins para facilitar o seu trabalho.
O coradouro é constituído de quatros ripas de madeira ou bambu sobre os quais são colocadas roupas obedecendo às vezes a uma simetria e se constituindo num trabalho que poderíamos falar de arte, visto a perfeita combinação de cores e de ocupação do espaço. Em algumas cidades, é comum utilizar o plástico para substituir o coradouro improvisado, sendo ainda utilizados os chamados "capins".
Longos varais são armados em torno das casas, de plásticos, de cordas, de arame farpado ou liso. Há períodos em que as lavadeiras precisam demais do sol para melhor produção, e seu labor aumenta quando se dá uma semana de chuva, pois as roupas são penduradas para secar em varais internos dentro das próprias casas. A lavadeira utiliza-se em sua tarefas de materiais como anil, sabão de diversas marcas, de preferência com menos soda, goma, alvejante, água sanitária. Se o barraco tem luz há os ferros elétricos, senão serão utilizados os tradicionais "ferros de engomar" ou ainda conhecido nomeio de "machabombas". Normalmente estas despesas feitas são deduzidas no ordenado da lavadeira profissional, ou a própria freguesa os poderá fornecer.
Pronta e engomada a roupa, é ela arrumada em pilhas para ser entregue, porém se obedecendo a uma disposição nas montagens: primeiro as roupas de cama e banho, depois as de mesa, ficando por último as camisas, ou as peças engomadas. Casos há de que a lavadeira não pode dobrar determinadas peças de vestuários para não marcar, e estas são carregadas em cabides, ou ainda os chamados tabuleiros.
Um outro cuidado especial se observa ainda. Normalmente ao embalar as roupas pode a lavadeira utilizar sacos de trigo alvejado, mas hoje, devido a evolução, facilidade de transportes, as roupas são embrulhadas em plásticos resistentes ou ainda em embrulhos de papel kraft que é bastante resistente, para suportarem as batidas dentro de um ônibus, ou trens.
O trabalho da lavadeira, é, algumas vezes, realizado nas casas de freguesas onde lucra a possibilidade de melhor alimentação, costume que está sendo feito em alta escala atualmente. Uma lavadeira atualmente só leva roupas para casa para lavagem se necessitarem de mais freguesas e mais dinheiro conseqüentemente.
Premiado pelas dificuldades da vida a auxiliar o marido, a lavadeira tem outras vezes, a seu cargo, a direção da família da qual se torna o verdadeiro chefe e que essa musa heroína das favelas ou de pequenos bairros consegue manter com seu esforço humilde e inglório os meios para proporcionar um melhor futuro para os seus filhos.