Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Outubro 2006 - Ano IX - nº 95


Sumário

Festança
Cururu e ciriri
João Ribeiro

Festa de São Benedito no Espírito Santo
Auguste François Biard

Círio de Nazaré: O arraial
Ribamar Fonseca

Cancioneiro
A menina dos meus olhos
Guilherme Santos Neves

Outra vez a menina dos meus olhos
Guilherme Santos Neves

Moda da viúva

Imaginário
O lobisomem
Carmen Dolores

O macaco e sua cauda
Carmen Dolores

Mitos astronômicos
Charles Frederik Hartt

Colher de Pau
Cochos usados nos engenhos de farinha
Franklin Cascaes

Engenho de farinha tipo cangalha
Franklin Cascaes

Os campos de Barbacena
Richard Burton

Oficina
Padeiro flutuante

Lavadeiras

Presença mascate nas praias pernambucanas
Thelma Regina Siqueira Linhares

Palhoça
Nem sempre os vocábulos indígenas têm o sentido bonitos que aceitamos
Armando Gimenez

A linguagem da mímica

Apelidos na história do Brasil
Hélio Viana

Panacéia
Botica popular e doméstica
Guilherme Santos Neves

Benzeções e medicina folclórica em Juiz de Fora
Wilson de Lima Bastos

Círio de Nazaré: As promessas
Ribamar Fonseca

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Mitos astronômicos

Charles Frederik Hartt

Felizmente, não faltam provas históricas da existência de mitos celestes entre os antigos índios brasileiros. Claude d'Abbeville [1] refere que os índios tupis do Maranhão deram nomes a muitas estrelas e constelações. À estrela d'Alva chamaram Pira-panem, o piloto da manhã. Entre as constelações estavam Ouegnonmion,o caranguejo; Yassatin, nome de um pássaro; Tuyaué, homem velho; Conomy manipoére ouaré, o rapaz que come manipoi; Yandoutin, o avestruz branco que come ouyraoupia ou ovos de pássaro, representados por duas estrelas da vizinhança; Tapity, a lebre; Gnopouêon, o forno de mandioca etc. etc.

O mais interessante, porém, asseverarem que o nome Iaouáre, cachorro ou mais propriamente onça, foi dado a uma grande estrela que segue logo atrás da lua e que, conforme supunham os índios, persegue a lua a fim de devorá-la. Depois das chuvas, quando a lua aparece rubra como sangue, os índios saíam de casa e, olhando para a lua, batiam no chão com varas, dizendo: Eycobé chera moin goé goé; Eycobé chera moin goé hau'hau; o meu avô esteja sempre com boa saúde.

Nos mitos que tenho apresentado interpretei a moça como figurando a lua, sendo guiado nesta opinião pela analogia. Poder-se-á, porém, perguntar se ela não significa em alguns casos pelo menos a estrela que acabo de mencionar.

Esta questão não pode ser resolvida com os dados que atualmente disponho.

Depois de publicado o que fica exposto acima, o dr. Silva Coutinho informou-me que os índios do Amazonas não só dão nomes a muitos corpos celestes, como também contam estórias a seu respeito. Dizem que as duas estrelas que formam o ombro de Órion são um velho e um rapaz numa canoa perseguindo um peixe-boi, nome pelo qual é designado uma mancha escura do céu, perto da mesma constelação. Os índios dizem que primitivamente o velho, estrela grande, estava na proa, e que o rapaz, a estrela menor, estava na popa governando. Quando o homem avistou o peixe-boi ficou excitado demais para atirar, e assim trocou de lugar com o rapaz. Há uma constelação chamada pelos índios Palmeira, e perto existe uma linha de estrelas a que eles denominam Macacos, que vêm comer fruta. Uma outra constelação é chamada o Jaburu, grou (Cicomia) e uma outra o grou branco.

O dr. Coutinho achou no Rio Branco um mito em que a lua, representada por uma onça, ficou enamorada de um seu irmão e o visitou de noite, sendo traída afinal, por ele ter passado no seu rosto a mão untada com uma substância preta. O mesmo mito foi encontrado no rio Janundá pelo sr. Barbosa Rodrigues.

 

Notas

1. Histoire de la mission de PP. Capuchins en L'Isle de Maragnan, p.317-319

(Hartt, Charles Frederik. Mitos amazônicos da tartaruga. 2ª ed. revista e aumentada. São Paulo, Editora Perspectiva, 1988, p.49-50)

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