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Ano IX - Edição 95
Outubro de 2006
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Mitos astronômicos

Charles Frederik Hartt

Felizmente, não faltam provas históricas da existência de mitos celestes entre os antigos índios brasileiros. Claude d'Abbeville [1] refere que os índios tupis do Maranhão deram nomes a muitas estrelas e constelações. À estrela d'Alva chamaram Pira-panem, o piloto da manhã. Entre as constelações estavam Ouegnonmion,o caranguejo; Yassatin, nome de um pássaro; Tuyaué, homem velho; Conomy manipoére ouaré, o rapaz que come manipoi; Yandoutin, o avestruz branco que come ouyraoupia ou ovos de pássaro, representados por duas estrelas da vizinhança; Tapity, a lebre; Gnopouêon, o forno de mandioca etc. etc.

O mais interessante, porém, asseverarem que o nome Iaouáre, cachorro ou mais propriamente onça, foi dado a uma grande estrela que segue logo atrás da lua e que, conforme supunham os índios, persegue a lua a fim de devorá-la. Depois das chuvas, quando a lua aparece rubra como sangue, os índios saíam de casa e, olhando para a lua, batiam no chão com varas, dizendo: Eycobé chera moin goé goé; Eycobé chera moin goé hau'hau; o meu avô esteja sempre com boa saúde.

Nos mitos que tenho apresentado interpretei a moça como figurando a lua, sendo guiado nesta opinião pela analogia. Poder-se-á, porém, perguntar se ela não significa em alguns casos pelo menos a estrela que acabo de mencionar.

Esta questão não pode ser resolvida com os dados que atualmente disponho.

Depois de publicado o que fica exposto acima, o dr. Silva Coutinho informou-me que os índios do Amazonas não só dão nomes a muitos corpos celestes, como também contam estórias a seu respeito. Dizem que as duas estrelas que formam o ombro de Órion são um velho e um rapaz numa canoa perseguindo um peixe-boi, nome pelo qual é designado uma mancha escura do céu, perto da mesma constelação. Os índios dizem que primitivamente o velho, estrela grande, estava na proa, e que o rapaz, a estrela menor, estava na popa governando. Quando o homem avistou o peixe-boi ficou excitado demais para atirar, e assim trocou de lugar com o rapaz. Há uma constelação chamada pelos índios Palmeira, e perto existe uma linha de estrelas a que eles denominam Macacos, que vêm comer fruta. Uma outra constelação é chamada o Jaburu, grou (Cicomia) e uma outra o grou branco.

O dr. Coutinho achou no Rio Branco um mito em que a lua, representada por uma onça, ficou enamorada de um seu irmão e o visitou de noite, sendo traída afinal, por ele ter passado no seu rosto a mão untada com uma substância preta. O mesmo mito foi encontrado no rio Janundá pelo sr. Barbosa Rodrigues.

 

Notas

1. Histoire de la mission de PP. Capuchins en L'Isle de Maragnan, p.317-319

 

(Hartt, Charles Frederik. Mitos amazônicos da tartaruga. 2ª ed. revista e aumentada. São Paulo, Editora Perspectiva, 1988, p.49-50)
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