Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 95
Outubro de 2006
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O macaco e sua cauda

Carmen Dolores

Imaginou uma vez um macaco fazer fortuna e foi colocar-se em certo caminho, por onde tinha um carreiro de passar com seu carro.

Vendo-o assim atravessado na estrada, com a cauda estendida no ponto em que as rodas do veículo haviam por força de passar, o carroceiro gritou:

— Macaco, tira teu rabo do caminho que eu quero seguir.

O macaco respondeu:

— Não tiro!

O homem, irritado, tangeu os bois, a carroça passou por cima da cauda do macaco e cortou-a fora.

Disparou o mono em grandes berro, e por ente eles dizia:

— Eu quero meu rabo, ou então me dê uma navalha.

Para aplacá-lo, deu-lhe o cargueiro a navalha, e o macaco saiu a cantar muito alegre.

— Perdi minha cauda, ganhei uma navalha! Tinglin, tinglin! Que vou para Angola!

E seguiu.

Chegando adiante, encontrou um negro velho a fazer cestos e a cortar cipós com os dentes. Dirigiu-se a ele o macaco e disse-lhe:

— Oh, amigo velho! Coitado de você! está estragando seus dentes a cortar assim os cipós... Tome esta navalha.

O negro aceitou, mas quando foi partir um cipó, quebrou-se a navalha. O macaco abriu a boca no mundo e deitou-se a berrar:

— Eu quero a minha navalha! Eu quero a minha navalha! Ou então me dê um cesto...

O negro velho deu-lhe um cesto e ele saiu muito contente a cantar:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha; perdi minha navalha, ganhei um cesto! Tinglin, tinglin! Que vou para Angola!

Seguiu.

Chegando mais longe, encontrou uma mulher fazendo pão e botando-o na saia.

— Aqui tem um cesto! — ofereceu o macaco.

A mulher aceitou, mas quando foi pôr, mas quando foi pôr dentro os pães, caiu o fundo da cesta e o macaco abriu a boca no mundo e entrou a berrar:

— Eu quero meu cesto! Eu quero meu cesto! Senão, me dê um pão.

A mulher deu-lhe o pão, e ele saiu muito satisfeito a cantar:

— Perdi meu rabo, ganhei uma navalha; perdi minha navalha, ganhei um cesto; perdi meu cesto, ganhei um pão, que vou comer! Tinglin, tinglin! Que vou para Angola!

E pôs-se a comer o pão com voracidade.

Mas o carroceiro, que não lhe perdoara a teima de se ter atravessado no caminho, para ele lhe cortar a cauda e ter depois de dar-lhe a sua navalha, esperava-o mais adiante e caiu em cima dele com um cacete, que o deixou bem convidado.

É o que acontece aos que se querem fazer espertos demais: vão esfolar e saem esfolados.

 

(Carmen Dolores. Lendas brasileiras; coleção de 27 contos para crianças. São Paulo, Sá Editora, 2006, p.131-133)
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