A festa de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário corria alegre no Lagarto, estado de Sergipe, e a procissão seguia vagarosamente com o seu acompanhamento de negros e mulatos, congos e tageras, cantando em cadência:
Fogo da terra
Fogo do mar
Que a nossa rainha
Nos há de ajudar
As raparigas, vestidas de branco e enfeitadas de fitas, dançavam na frente das imagens, esganiçando juntas este coro:
Virgem do Rosário
Senhora do mundo
Dai-me um coco d'água
Senão vou ao fundo...
Inderê, rê, rê, rê...
Ai, Jesus de Nazaré!
Ao que respondiam os negros:
Meu São Benedito
Não tem mais coroa
Tem uma toalha
Vinda de Lisboa
Inderê, rê, rê, rê...
Ai, Jesus de Nazaré!
De súbito rompeu uma rixa e cruzaram-se gritos, ameaças e vociferações, interrompendo a marcha da procissão. Um negro velho, de carapinha branca, avançou para o tumulto e indagou autoritário qual a causa do distúrbio.
Aquilo era uma falta de respeito! E a tarde ia caindo. Queriam eles que anoitecesse com as imagens no campo, longe da capelinha?
— Ai, pai Chico! — exclamou uma negra já idosa, aproximando-se. — Aquilo é a minha desgraça! São os meus dois filhos Cazuza e Januário que estão se desafiando por causa da Rosa, com quem os dois querem casar-se!
Nesse momento o alarido tomou ainda maiores proporções, ouviu-se o estalido de violas partidas e servindo de arma para dar pancada, e apareceram lutando dois mulatos destemidos e assomados, em cuja camisa se alastravam já algumas nódoas de sangue.
— Pára! Pára! — gritavam.
O negro velho, de carapinha branca, interpôs-se e conseguiu agarrá-los pelo braço, desenvolvendo uma força de espantar naquela idade avançada. E, conservando agarrados os dois lutadores, berrou para a procissão, que se apinhava, desordenada:
— Forma, rapazes! E para a frente! Seguir! Nós vamos daqui a pouco.
Em breve, a longa fila de gente e de imagens estendia-se pelo caminho e pouco a pouco sumia-se na primeira dobra, ao som dos cantares e das danças; e o silêncio restabeleceu-se sobre o grupo de pai Chico, que estava segurando os dois mulatos, agora mais calmos e atendendo às repreensões da negra idosa, que era a mãe deles.
A tarde ia escurecendo. De repente um latido agudo e lastimoso cortou o espaço, e viram passar a galope para os lados do sertão um grande cachorro negro, com olhos de brasa que desferiam faíscas luminosas.
— Credo! Te esconjuro! O lobisomem" — bradaram todos, abaixando a cabeça e persignando-se.
Os latidos foram-se afastando lentamente. Então o velho pai Chico virou-se para os dois mulatos e disse-lhes:
— Vocês sabem quem vai ali? É o cabra do Leocádio, coitado, que matou o irmão por causa da Virgínia. Ambos queriam casar com a mulatinha, e sai briga que puxa briga até que na noite de Reis, na festa da Sapinha, Leocádio enterrou a faca no peito do seu irmão...
— São Benedito nos acuda! — exclamaram os outros.
— Pois foi mesmo São Benedito que castigou Leocádio — tornou o negro —, virando ele em lobisomem, que todas as noites é condenado a girar sem descanso por todo o sertão. A essa hora já vai o desgraçado cumprir a sua sina até o alvorecer da madrugada...
— Ah, pai Chico! — interromperam os dois mulatos. — Por Deus que nós não brigaremos mais por causa da Rosa.
— Eu juro por esta cruz! — disse o Cazuza, cruzando os dedos e beijando-os.
— Eu vou para o Rio de Janeiro sentar praça, — disse o Januário.
— E eu? — choramingou a velha. — Então vou ficar sem meu filho?
— Quer antes que ele mate um dia o irmão e vire um lobisomem? — perguntou o pai Chico encolerizado.
A preta então resignou-se. E o Januário partiu mais tarde para o Rio de Janeiro e nunca mais brigou com o irmão.
O cabra Leocádio, coitado! Esse continua a ser sempre lobisomem.