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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Círio de Nazaré: O arraial

Ribamar Fonseca

O arraial, no largo de Nazaré, é a parte profana da festa, onde se instalam, anualmente, barracas de madeira de todos os tipos e tamanhos, abrigando toda modalidade de comércio e funcionando, ao mesmo tempo, como feira e parque de diversões pois, além dos bares, restaurantes, lanchonetes e lojas de brinquedos, possui também carrossel, roda-gigante e teatro ao ar livre.

Durante o dia o arraial só abre aos sábados e domingos, mas o seu funcionamento é normal todas as noites, durante os quinze dias de festa. Diariamente, a partir das 18 horas, todas as ruas que passam pelo arraial ficam fechadas ao tráfego de veículos. Profusamente iluminado, assume um aspecto alegre, cheio de jovens namorados sorridentes e cambaleantes paus-d'água, enquanto bandas de música da polícia e de estabelecimentos militares executam músicas alegres nos quatro coretos existentes.

As ordens do governador Francisco de Souza Coutinho, que em 1793 determinou fosse inaugurada no largo de Nazaré a grande feira de produtos agrícolas e industriais, até hoje continuam sendo cumpridas. Naquele tempo, as barracas de palha vendiam cacau, baunilha, anis, guaraná, mandioca, arroz, urucum, cerâmicas, tabaco, redes de fio, pirarucu salgado, mixira de peixe-boi, peixe seco, cestas, esteiras, cordas e cipós. "Se não corro, quati me lambe" era um dos muitos nomes pitorescos das barracas, feitas de farrapo e madeira.

Tempos depois, algumas dessas barracas foram melhoradas, e algumas delas eram destinadas à gente rica da época, educada na Europa, e tinham títulos em inglês, francês e alemão. A barraca da Caetana celebrizou-se pelo excelente açaí que servia e se transformou em tradição, assim como os cavalinhos, que ainda hoje são a alegria da gurizada.

O comércio continua predominando, porém os bares, onde a cerveja local é vendida a NCr$ 1,50 e a importada a NCr$ 2,00, pois no arraial tudo é mais caro. A Delegacia de Economia Popular faz uma tabela específica para o arraial, naturalmente mais cara que o normal, que nunca é cumprida. Espalhadas pelas calçadas, no chão mesmo ou em pequenas bancas, existem comércio de brinquedos plásticos, de buriti (predominando a cobra e a canoa), de flandres e papelão; refrescos, tacacá, pães e outros alimentos, onde a falta de higiene é uma constante.

Um museu de horrores anuncia um homem-macaco vivo e o Monstro de Londres, ao preço de NCr$ 1,00 a entrada para adultos e NCr$ 0,50 para crianças. Esse preço do ingresso é observado também pela Gruta Misteriosa, onde um locutor anuncia, como se estivesse transmitindo um jogo de futebol, a presença de Frankenstein e dá gritos fantasmagóricos para tornar mais autêntica a encenação. O Teatro Bary, por sua vez, apregoa que tem artistas internacionais, como o Duo La Jara, mexicano; artistas "do rádio e TV de São Paulo" e até uma menina-borracha. Paralelamente, funcionam carrosséis, rodas-gigantes e outras diversões para crianças.

 

(Fonseca, Ribamar. "A maior festa do Brasil: Círio de Nazaré". Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 03 de setembro de 1969)
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