Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Cururu e ciriri

João Ribeiro

Há um trabalho de fôlego de grande repercussão nos estudos do folclore — o que deriva da necessidade de regularizar o trabalho pelo ritmo, donde a fonte precípua da cantiga, como medida de ordem e suavidade nos próprios exercícios de esforço físico.

Cantando, o homem trabalha, e o canto, que é um regime e um método, no fiar e tecer, no cortar árvores, levantar e carregar pedras, remar, andar, é ainda uma fonte de calor, de coragem e de poesia.

Nos intervalos ainda da fadiga, nos ritos religiosos, no culto e esconjuro dos demônios, ao canto se associa nas tribos selvagens o ritmo dos movimentos e das danças. Em todos os povos primitivos é intensa essa atividade mímica geratriz de um mundo de criações intelectuais. [1]

No seu livro de etnografia e de viagens pelo oeste do Brasil, o dr. Max Schmidt, que principalmente estudou a questão dos índios, não se esqueceu de dar alguns informes sobre civilização e costumes da raça mestiça e semiculta de Mato Grosso.

Foi no povoado de Rosário, perto do rio Cuiabá, que pôde assistir a uma festa de Nossa Senhora, no último dia de dezembro, celebrada em uma casinha rústica onde se havia levantado um altar. Depois das rezas, um grupo dançou o cururu em frente da imagem da santa, ao passo que ao ar livre outro grupo não menos devoto também dançava o ciriri, ambos já excitados pela cachaça e pelo tumulto dos kerekexes, de bambus e de garfos a vibrar sobre pratos de louça, instrumentos usuais dessas folias. O cururu é por excelência a dança popular de Mato Grosso.

Mais tarde, M. Schmidt recolheu a letra e o canto daquelas danças. Damo-las na sua transcrição muito defeituosa e imperfeita: o etnógrafo alemão não é tão forte em língua portuguesa, que ele estropia a cada passo da sua narrativa. [2]

Contudo, não conheço outra versão, além da sua, e por isso aqui a consigno com o evidente desleixo que dela transparece. Entre parêntesis propus algumas correções de leitura do texto, exceto as que fiz com toda a segurança por muito evidentes e irrecusáveis os erros. [3]

Procurei, em vão, nos escritores que freqüentaram aquela zona uma descrição do cururu, em Stein, Bossi, Severiano da Fonseca, Taunay e outros.

Ficará esta lacuna para ser mais tarde preenchida. Até agora parece que a dança do cururu (sapo, na língua tupi-guarani) é só conhecida em Mato Grosso [4], salvo o caso de algum raro e efêmero transporte. Eis as duas versões colhidas por Schmidt:

I
O cururu

Lá-lá-lá, lá-li, lá-lão

Já fui, já vim eu só:
Não sei como não morri
Lá no caminho, de saudade de você
Quando lembrava de nós (de ti?)
(Lá-lá-lá, lá-lão)

Meu amor já foi (se) embora
Eu não digo qu'eu não sinto
Mas chora(r) por ele não
(Lá-lá-lá, lá-lão)

Ai, menina
Quando me ver em passeio
Me dá um (a)perto de mão
(Lá-lá-lá, lá-lão)

Eta! é mêmo!
Acende cigarro (e) me dá [5]

II
O ciriri

Mi mandaram me esperar
Lá no pé da laranjeira
Esperei, desesperei
Meu amor é Cravacheira (?)

Não tenho inveja de nada
Nem dos braços da rainha
Porque tenho a gravidade
De chamar minha (a) mulatinha

Fui andando prum caminho
Ramo verde me puxou
— Não me puxa, ramo verde
Nosso tempo já acabou

Laranjeira, pau de espinho
Árvore de muita ciência
Quem ama (o) amor alheio
Precisa ter paciência

Me mandaram esperar
Na tranqueira do capim
Esperei, desesperei
Quem quer bem não faz assim

Lá em cima daquele morro
Tem um pé de carrapicho
Já botei a sela (nele)
Falta só botar rabicho

L'em cima daquele morro
Tem um pé de melancia
Conversando com a véia
Mas com o sentido na fia

Fui andando pela rua
Fui tomar o meu café
Encontrei uma papuda
Tinha o papo macumbé

L'em cima daquele morro
Tem um pé de alfavaca
O homem que não tem rede
Dorme no couro de vaca

Se o cururu como ronda, bailado ou batuque é só conhecido em Mato Grosso, o mesmo não sucede ao ciriri, dança generalizada por quase todo o Brasil.

Ciriri é o nome de um marisco e concha muito parecida ao serinambi do Norte, porém mais alongada e de cor escura de reflexos dourados.

Parece que o ciriri muito se agarra às raízes dos mangues, e daí talvez o sentido da cantiga, ronda e variante do Norte:

Vem cá, ciriri (bis)
As meninas te chamam
Tu não queres vi(r)

Aproveita o piano
Mais um bocadinho
Sou um pobre cego
Não vejo o caminho

É assim que diz, com o coro, o estafermo que no centro da roda solicita uma companheira.

É já hoje uma dança de salão, como se verifica por aquele piano (do quarto verso), que naturalmente substituiu a viola, ou outro instrumento mais caroável.

O ciriri do Norte parece nada ter mais de comum com o ciriri de Mato Grosso, a não ser o nome indígena.

Está a indicá-lo o primeiro verso:

Vem cá, ciriri,

que é o do conhecido antiqüíssimo Vem cá, Bitu! e até prenuncia vários trechos desta canção. A variante de Pernambuco não deixa dúvida quanto a essa coincidência, ou fusão das duas cantigas:

Vem cá, ciriri
Vem cá, ciriri
As moças te chamam
Tu não queres vir
— Eu não vou lá, não
Não vou lá, não
Eu peço uma esmola
Vocês não me dão! [6]

É, pois, uma variante,ou pertence ao ciclo do Bitu.

As quadras que Max Schmidt apanhou de um camarada, que dançava o ciriri, têm verdadeiro sabor e cunho populares.

O princípio de algumas delas (Lá em cima daquele morro...) é um chavão de que andam cheias as silas das coplas e trovas populares.

P.S.

I
Estou convencido de que o vocábulo ciriri com o sentido normal, a que se podia juntar o de ciri (correr) e ociriri (que foge, corre), basta para explicar a denominação indígena desta dança popular. A forma, otiriri, é também conforme a fonética dos dialetos túpicos; ç ou h - t nas formas ditas absolutas.

Sendo assim, não foi sem alguma surpresa que encontrei a palavra no nome de uma dança portuguesa em um entremez do século XVIII — O caçador. Diz Laberco, o gracioso de comédia:

Antes tocasses o Zabel Macau
O otiri, dá-lhe com um pau
Vou buscar-te a viola de carreira
Já que queres o tom de Esgueira

Este tom de Esgueira parece querer significar fuga, ou retirada, e otiriri lembra a forma brasileira da palavra acima estudada. [7]

Até ver melhor, considero essa coincidência toda casual, embora não fosse, e nunca o foi, insólita a passagem de tais cantigas americanas da antiga colônia para a metrópole.

II
Depois de haver escrito as páginas anteriores, vim a saber se pratica entre os bororos de Mato Grosso a cerimônia ritual e funerária que chamam bacururu, e que é celebrada entre clamores e algazarra grande. As palavras bacururu e cururu têm radicais comuns. Não é inverossímil que dos bororos tenha vindo o nome da dança do cururu.

 

Notas

1. É o que com toda clareza explana o autor da obra teórica, incomparável, Karl Bücher, Arbeit und Rhythmus.

2. Indianerstudien in Zentralbrasilien, Berlim, 1905.

3. Por exemplo, o dizer o ciência, por a ciência, e coisas de tal jaez. A transcrição é pois literal e fiel.

4. Entre os índios de Solimões é conhecida a dança do cururu, cuja cantiga principia assim: Ya munhan murace, cururu (Vamos dançar o cururu, cururu). Barbosa Rodrigues, Poranduba amazonense, p.315. Será, porém, a mesma coisa? Suponho que não.

5. No texto encontra-se:
Eah, eu mésmo (?)
Com a horrível tradução: Ah, ich habe die Ehre!
Eah poderá ser ah, eia ou eta! dos sertanejos. Em geral, a tradução de M. Schmidt é correta, mas o seu português é intolerável. Ele diz v.g.: "fes da Macula Concepção" (!) e outras sandices que fazem rir.

6. Pereira da Costa, Folclore pernambucano, p.508. Há outra versão, conforme a primeira que demos, n'Os nossos brinquedos, de Icks, p.72.

7. O caçador pertence à literatura de cordel. Tenho a edição de Lisboa, na oficina de Felipe da Silva e Azevedo, 1784. O trecho é da página 3.

[1919]

 

Ribeiro, João. O folclore. Rio de Janeiro, Organizações Simões Editora, 1969, p.163-167 (Coleção Folclore Brasileiro, 1))