Os campos de Barbacena, as onduladas planícies além da Mantiqueira, que se elevam de 3.000 a 3.500 pés acima do nível do mar, são, evidentemente, muito apropriadas à criação de gado. A principal utilidade do gado leiteiro é, presentemente, produzir queijo, que é exportado para a capital do Império. Cada vaca dispõe de cerca de seis acres quadrados de pastagem; trinta e duas garrafas de leite rendem 2 libras, as mulheres e crianças de uma família fazem, facilmente, de meia a uma dúzia de queijos por dia, e os vendedores às vezes arrecadam 200 de uma única fazenda. A descrição que faz Saint Hilaire do rude processo de fabricação do queijo ainda não se tornou obsoleta; a massa do queijo é dura e branca, igual, talvez, à "bala de canhão" holandesa, mas não pode ser comparada com o stilton ou o roquefort; como o parmesão, é bom para ser ralado. Esperam-se melhoramentos na produção de queijo e mesmo de manteiga, que John Mawe nos diz ser desconhecida antes de 1809.
Os cereais dão muito bem nos solos mais ricos: o trigo, o milho, que, no Brasil, ocupa o lugar da aveia; o centeio e o trigo-sarraceno, também chamado trigo-negro; os dois últimos são robustos e exigem poucos cuidados. Os tubérculos são abundantes. A batata americana é conhecida como inglesa ou irlandesa e dá duas vezes por ano, e a batata-doce (Tuber parmantier), quatro vezes. Há também inhame (Caladium esculentum); mangarito (Caladium sagittifolium) e o conhecidíssimo e escelente cart (Dioscorea slata, St. Hil.). Vi, pela primeira vez, o jauctupé e o tupinambor ou tupinambo ou taratufo. Das frutas, peras, maçãs, ameixas, brancas e pretas, cerejas, castanhas e pêssegos dão bem, e merece ser aperfeiçoado o seu cultivo. A uva, especialmente a que chamam de manga ou americana, dá duas vezes por ano; a vindima é pobre em julho, mas, em dezembro, os cachos são maravilhosamente grandes e abundantes. Da colheita de frutas não amadurecidas, faz-se bom vinagre; das maduras, um borgonha de qualidade inferior; as passas dão uma excelente aguardente, parecida com a raki da Síria.
As amoreiras crescem bem; não perdem as folhas na estação fria, mas as renovam continuamente; podem ser utilizadas no segundo ano. Fui informado de que o sr. Abricht, atualmente na colônia de Joinville, encontrou cinco espécies nativas de bicho-da-seda. Castelnau afirma que o verdadeiro Bomby mori não é encontrado em parte alguma do Brasil; observou, contudo, espécimes muito grandes da Saturnia, conhecida pelos chineses e indianos. A urumbeba (Cactus spinosus), também chamada figueira-do-inferno, é nativa; e o inseto da cochonilha aparece espontaneamente, mostrando que o nopal do México ou do Tenerife pode ser naturalizado. Tanto o solo como o clima são propícios ao cultivo do lúpulo, atualmente importado, por preço muito elevado, da Europa. A robusta e quase indestrutível planta do chá dava colheitas de bom valor no mercado; essa indústria foi destruída pela queda de preços no Rio de Janeiro. O algodão, tanto em sua forma herbácea como na chamada arbórea, tem nascido nos terrenos de "capões" e, inteligentemente cultivado, poderá ser uma riqueza para a província. O tabaco de Rio do Pomba, a 15 léguas de Barbacena e de Rio Novo, conquistou uma medalha na Exposição Industrial do Rio de Janeiro; o de Baependi, especialmente o fumo-crespo, é uma folha escura e robusta, muito apropriado para a fabricação do Cavendish, e a planta dá bem em todo o território de Minas Gerais. O solo poderá ser muito melhorado pelo adubo, e a produção também, se for tratada pelo estilo da Virgínia, com as folhas secadas, cuidadosamente, em barracões fechados, por meio de fogo. O índigo cresce por toda a parte, e produz o belo anil, que rivaliza com o produto da Índia. O dr. Renault afirma que cada colméia de abelha-européia dá de doze a quinze enxames em seis meses, e 750 gramas de cera, com 20 litros de mel, ao passo que cada litro desse último produz quatro litros de ótima aguardente. Nada, devo observar, é mais conveniente no Brasil que la petit culture, abelhas, bichos-de-seda, cochonilha, sementeiras, que podem assegurar trabalho para mulheres e crianças.
O Hotel Barbacenense — pronuncia-se Otel, sem aspiração do h — é idêntico às hospedarias do interior do Brasil. Como é freqüentado por estrangeiros, há sal na mesa, o que não é um uso geral no país. Um tremendo quatro de vitela aparece, quando possível, ao lado da galinha assada ou cozida, da carne de porco, da lingüiça, da couve picada com toucinhos e do inevitável feijão da cozinha nacional. A pior parte de tudo isso é a "nota", que tem todas as "belezas da carestia"; a não ser que tenha havido um acordo especial, a multiplicação dos itens constituiria uma lição para um "hotel familiar" em Dover Street, Picadilly, ou em qualquer outro lugar onde esta obsoleta instituição, a velha hospedaria inglesa, mantenha sua antiga tradição de desonestidade. Os brasileiros, como os russos, se orgulham de uma tendência generosa para a negligência e a prodigalidade; além disso, a excessiva cortesia que caracteriza o povo impede o cavalheiro de observar abertamente que foi espoliado. Assim, ele paga com aparente satisfação, parte, e resmunga.
[1868]