Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 95
Outubro de 2006
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Moda da viúva

Colhida por Cornélio Pires

Eu fiz um passeio a luxo
Já foi no ano passado
Eu namorei uma viúva
Na jinela de um sobrado
Comecei a repará
E fui ficano inlevado
Ela virô-se e me disse:
— Que caipirinha pasmado!

Eu virei, disse pra ela:
— A senhora tá inganado
Eu sô um caipira dereito
Sô um rapaiz bem inducado
Pra cumprir cum meus dever
Dinhero num tem fartado

Ela virô-se e me disse
— mas com jeito de caçoada
— Você suba aqui pra riba
Pra nóis proseá sussegado
Puis eu gosto de falá
Cum quem fala desinleado

Quano eu entrei no salão
Já fui ficano espantado
se por vê aqueles perparo
Que eu não era acustumado
Cheio de tope de fita
Muito bem aperparado

Num levô muita demora
Apareceu uma criada
Cuma bandeijinha branca
E duas chicra pintado
Pra tomá café-com-leite
Com doce de bão-bocado

Eu oiei na cara dela
Fiquei muito invergonhado...
Meu braço pegô tremê
E ficô desguvernado!
Minha chicra de café
Derramô mais da metade...

E o que mais me avexava
Que eu ficava incomodado
Que meu coração batia
Como o batuque do machado
Ai! Que vergonha tirana
Eu fiquei desesperado!

Ela virô-se e me disse:
— O vosso modo me agrada
Eu quero que você saiba
Que sou a viúva endinheirada
E que ajustá você
Para ser meu empregado

Já era detardezinha
Tinha o sór já descambado
Me mostrô os curtinado
Travesseirinho de renda
E o cubertô pintado

Me deu um espertadô
Pra vê se tava parado
— Acerte na hora certa
Para durmi sussegado
Porque ele hade te chamá
Aminhã, de madrugada

Espertadô de realexo
Que eu nunca tinha inxergado
Eu inté aqui tenho visto
De um que faiz um baruiado
Mais este tocava lindo
Me deu sono mais pesado...

Na hora que eu acordei
Tinham tudo levantado!
Sentei na bera da cama
Recordando os meus passado
Aí é que se alembrei
Que eu sô um home casado

Eu cheguei num lavatório
Que inxerguei ansim de um lado
Eu lavei a minha cara
Inxuguei bem inxugado
E fui cumbersá c'oa viúva
Já fui de cara lavado

Eu cheguei adiante dela
E falei minha verdade:
— O trato que nóis fizemo
Decerto tá desmanchado
Foi hoje que eu se lembrei
Que sô um home infamiado

Ela virô-se e me disse
Muito triste, apaixonada:
— O que é que eu hei-de fazê
Num tenho sorte pra nada!
A póvre ficou chorano
E eu saí dano risada

 

(Pires, Cornélio. Sambas e cateretês. Itu, Ottoni Editora, 2004, p.14-17 (Conversa Caipira))
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