Vimos ser freqüente na poesia popular, o emprego da velha expressão — meninas dos olhos. Transcrevemos, então, sete quadras do povo, além de versos de Camões, Lope de Vega e Tirso de Molina — onde, de fato, a locução vulgar é usada no plural: meninas dos olhos.
Além daquelas citações — e já agora na prosa — posso hoje aditar estoutras com a mesma significação de pupilas dada às meninas.
Na Comédia Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (Coimbra, Editora Aubrey Belt, calcada na impressão de 1561, 1918, p.105), vincamos este exemplo: "Parece me, señora, que vos nam quer este hombre mal. — Nam no erra elle, que assí o quero eu como as meninas dos meus olhos, e todas as oras me lembra".
Pulando do século XVI ao século XX, vamos colher em contos de Miguel Torga, a mesma vetusta expressão. É o que se pode ler em Rua (2ª ed. Coimbra, 1951, p.35) no conto "A estrela e a mulher": "Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por arder-lhes em cheio nas meninas dos olhos".
De igual forma, porém no singular, lê-se no conto "Mago" (Bichos. 3ª ed. Coimbra, 1954, p.30): "É claro que os mimos da dona Sância lhe haviam deformado o gosto, além de já não ter necessidade de estar fitado três horas sobre um buraco, sem mexer nem a menina dos olhos, à espera dum senhor João Ratão qualquer que ressonava lá no fundo".
Também, no singular, encontramos a expressão na "metáfora de olhos" da Feira de anexins, do clássico Francisco Manuel de Melo (Lisboa, 1916, p.58): "Quê! Alegrou-se-lhe o olho? Pois não há de ser este só, que estou deles cheio até os olhos, e lhos hei de aí pregar na menina dum olho, só por lhe quebrar os olhos". E, mais adiante, em forma plural: "Até aqui não havia quem pusesse os olhos nele: agora, que já o temos em olho já nos vem metendo os dedos pelos olhos: é o pago de os trazer nas meninas deles".
Num dos romances de Camilo, Cenas inocentes da comédia humana (Lisboa, 1908, p.229), vamos topar a mesma forma: "Eu, disse o segundo, tenho um filho formado a comer-me, há doze anos, as meninas dos olhos, e queria que o sr. doutor lhe arranjasse um despacho para delegado".
Nesse exemplo camiliano, sente-se que o significado se modificou. Já não são propriamente as pupilas, mas o cuidado, a atenção e o próprio dinheiro do pobre pai, que aí são comidos pelo rapaz. Aliás, figuradamente como cuidado, atenção, vigilância, consigna frei Domingos Vieira o vocábulo olho (Tesouro da língua portuguesa. Porto, 1873, v.4).
Confiram-se, como reforço do caso, as expressões: Chupar os olhos a alguém, fazê-los gastar muito dinheiro; gastar os olhos da cara etc.
Mas, como frisamos nos rabiscos de domingo, um dos significados comuns da velha frase-feita: menina dos olhos — é o de ser alguém a pessoa predileta e mais querida, certamente porque a visita é, de fato, o bem melhor no mundo dos sentidos. Nessa acepção está o termo consignado no Dicionário da Academia de Espanha, onde se vê: "Niña: pupila; Dicese generalmente niña del ojo / Niñas de los ojos, fig. y fam. Persona o cosa del mayor cariño o aprecio de uno". E adiante: "Tocar uno en las niñas de los ojos: sentir por extremo la pérdida o el daño que sucede a aquello que se ama o estima mucho".
Atente-se, também, para os seguintes exemplos, em que é evidente esse sentido de prioridade ou preferência.
No citado livro de Torga, Bichos (p.14), no conto "Nero", entre as considerações que o velho cão moribundo faz, enquanto espera "morrer calmo e digno", estão estas: "No tempo dos figos, pela fresca, a patroa velha viria a eles. Gostava de figos, a velhota... E ele ouviria a sua voz pacífica e grave. Não que ela fosse a menina dos seus olhos. Longe disso. A menina dos seus olhos era a outra, a filha, que lhe fazia carícias como a uma criança".
A expressão, com esse mesmo significado, também corre entre nós. Lá está ela, num livro esquecido, mas que teve a sua época (como atualmente os de Guimarães Rosa). Furundungo, de A. J. de Souza Carneiro (Rio de Janeiro, Andersen Editores, p.127), livro a que o autor anexou precioso elucidário, a título de "achegas para o estudo do Calão brasileiro": "Não valia sacrifício: a moça ficasse inocente da paixão dele. E concluía, ignorando tudo: — Xandinho é gu-éla, mas tá enterrano méáia pra Fulô, a minina dos óio dele..."
Igualmente em Os caboclos, livro de estréia de Valdemiro Silveira (São Paulo, 1920, p.74), no conto "Camunhengue": "... o filho mais novo, de cinco anos, que era a menina dos seus olhos, como dizia..."
Em tais casos (os últimos exemplos), ser para alguém a menina dos seus olhos equivalerá a uma outra expressão popular, também carinhosa: ser o seu ai, Jesus! — tema que ficará para outros rabiscos, os quais — piamente o confesso, aplicando um velho dito do clássico Manuel de Melo: "são mais para ler com paciência que com apetite"...