Toda gente sabe que às pupilas também se dá o nome de "menina dos olhos". É porque assim é, e de há muito tempo, disso se valem os poetas — populares ou cultos — para constantes imagens e trocadilhos. Camões, por exemplo, falando em Cupido, deus do amor, diz, num dos seus sonetos (Lírica de Camões. Coimbra, Ed. J. M. Rodrigues, Coimbra, 1882, soneto nº 145, p.61):
Quem pode livre ser, gentil senhora
Vendo-vos com juízo sossegado
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas dos vossos olhos mora?
Também Tirso de Molina (1571-1648), o criador do famoso dom Juan, embutiu a velha expressão num tópicode sua comédia El Vergonzoso em palacio (Coleção Austral, Buenos Aires, 1954, p.81):
Mi bien, seamos amigos
Basta, no haya más enojos
Pues yo propio me castigo
Vuelvan a jugar conmigo
La dos niñas deses ojos
E, menos expressivamente, Lope de Vega, nestes versos de uma Letrilla, incluída na Antologia española, organizada por Carolina Michaelis (Leipzig, 1875, p.259):
Las dos niñas de sus cielos
Han hecho tanta mudanza
Que la color de esperanza
Se me ha convertido en celos
Yo pienso, madre, que vi
Mi vida y mi muerte en ellos
Y ellos se burlan de mi
Tenho grifado a expressão graciosa em livros de vários autores — prosadores ou poetas — mas, por hoje, quero apenas referir-me à chamada poesia popular, onde é também freqüente o emprego das meninas dos olhos.
Folheei cancioneiros nossos, de Portugal e Espanha, e neles deparei vários versos que nos vão aqui servir de exemplo. Em algumas trovas, há — como na poesia culta, — evidente propósito trocadilhesco. Vejam esta, referida num livro recente e precioso, Subsídios para o cancioneiro popular do Baixo Alentejo, de Manuel Joaquim Delgado (Lisboa, 1955, v.1, p.272, trova nº 2739):
As meninas dos meus olhos
Duas pobres peregrinas
Andam a pedir esmolas
Nos olhos doutras meninas
Meu querido amigo Téo Brandão, em seu valioso livrinho Trovas populares de Alagoas, — dedicadas aos folcloristas Veríssimo de Melo, Valter Spalding e ao pobre de mim — (Maceió, Edições Caeté, 1951, p.39), refere a seguinte copla argentina, onde também se joga com o trocadilho secular:
Los ojos tienen sus niñas
Las niñas tienen sus ojos
Y los ojos de las niñas
Son las niñas de mis ojos
Dessa copla, transcreve Téo Brandão duas variantes alagoanas, muito próximas do modelo, de que, aliás, são traduções:
Estes olhos têm meninas
Estas meninas têm olhos
Os olhos desta menina
São meninas dos meus olhos
E a trova 1088:
Todos olhos têm meninas
Todas meninas têm olhos
Os olhos desta menina
São meninas dos meus olhos
Noutro livro informativo, Cancioneiro de Foscoa, de Edmundo A. Correia Lopes (Imprensa da Universidade de Coimbra, 1926, p.9) deparo esta outra quadrinha, que versa uma velha imagem — a de se afogar o enamorado nas águas dos próprios olhos:
Aqui del rei — quem acode
A quem não sabe nadar?!
Às meninas dos meus olhos
Que se afogam a chorar
Variante dessa quadra popular, sem aquele grito de socorro (Aqui del rei!), vê-se noutro cancioneiro lusitano, as Mil trovas, recolhidas por Agostinho de Campos e Alberto de Oliveira (trova número 727):
Ai! ladrão que me roubaste
Dos meus olhos as meninas!
Para que queres tu, ladrão
Coisinhas tão piquininas?
Na obra clássica de Rodriguez Marín, Cantos populares españolas (2ª ed. Madri, 1951, tomo 2, nº 1197, p.27), anoto os seguintes versos, em que também se encastoam "las niñas de los ojos":
Tiene tus dulces ojos
Tan bellas niñas
Que sórlo por mirarlas
Perdí las mías
Y no pondero:
Que por haberlas visto
Me quedé ciego...
É interessante notar que, nos exemplos dados, o emprego da expressão é feito sempre no plural meninas dos olhos e o sentido sempre de pupilas.
Todavia, em certos casos, o autor apenas se refere a uma singular menina dos olhos, quase sempre significando a preferida, a predileta, a mais querida de todas.