Enio Squassoni
Incoerência? Para um raciocínio lógico, materialista e frio, pode ser.
Pergunte, de pólo a pólo da terra quem nunca viu uma bolha de sabão. Acho que ela existe desde que um troglodita viu uma bolha boiando num lago após a queda dos pingos da chuva. Sei que foi um caso de amor à primeira vista.
Fisicamente falando, trata-se de uma arrumação especial de moléculas de água numa forma esférica equilibrada, aprisionando uma certa quantidade de ar. Sua parede tem espessura ínfima mas relativamente forte. A incidência da luz lhe confere um colorido especial, iridescente e cambiante, hipnoticamente belo. Exerce uma sedução incomparável sobre os espíritos pensantes, especialmente naqueles simples e puros como as crianças, embora nenhum adulto deixe de se maravilhar com sua aparência, principalmente aqueles que guardam no seu interior toda a beleza e a grandeza de uma criança.
Feliz aquele cuja infância foi emoldurada por bolhas de sabão, com as quais brincou maravilhado. Deus desconta da nossa vida o tempo passado soprando bolhas de sabão! Embora de curta existência, findada repentinamente ao toque brusco de qualquer objeto, especialmente os secos e pontiagudos (como certas sensações que criamos em nossa vida com nosso comportamento), meu canudinho logo gerava uma outra bolha mais bonita e maior, numa contínua renovação.
Certa vez, na minha infância (eu era tão feliz e não sabia!) uma linda bolhinha depositou-se na minha testa, úmida de suor pela corrida atrás de suas irmãzinhas. Vi, deslumbrado, refletido no vidro de uma janela, meu rosto sorridente com uma bolha colorida na testa. Considerei-me um abençoado, intrigado com a durabilidade daquela pérola. Não foi a última com que me deparei na minha vida. Conheci muita gente que tinha sempre uma bolhinha iridescente ornando sua personalidade:
• Um amigo verdadeiro e sincero, sempre pronto a ajudar, compreender, consolar, suportar (ajudar-me a carregar a minha cruz apesar de a sua já ser bastante pesada), aconselhar, animar, incentivar, respeitar...
• Um profissional honesto e competente que não supervaloriza seu trabalho, colocando-o ao alcance de quem dele necessita...
• Um patrão consciente que considera seu operário como colaborador humano (com todas as suas legítimas necessidades) e não como uma simples peça de sua máquina produtiva...
• Um médico humano, atencioso, competente, que cuida de seu paciente como ser humano, necessitando tanto de tratamento espiritual (esperança) como de medicamento químico...
• Um policial cônscio de sua missão de proteger o cidadão sem abusar de sua autoridade e de seu poder de usar uma arma...
• Um político honesto, realmente voltado para o bem-estar da comunidade que o conduziu a um cargo de confiança e responsabilidade...
• Um professor competente que, mais com seu exemplo pessoal, está imbuído do sacro espírito de conduzir a juventude a um nível mais alto de consciência e competência...
• Um pai/mãe que, com seu comportamento e exemplo, cumpre integralmente com a sagrada missão, delegada por Deus, de levar seus filhos ao atingimento de seu destino pré-traçado...
• Um lixeiro que, apesar da proximidade com dejetos, faz de seu trabalho honesto algo limpo e puro, que produza orgulho pelo correto cumprimento de sua árdua, importante e útil tarefa...
• Um condutor de transporte coletivo que o rigor do trânsito não consegue abater o humor, a cortesia, a satisfação do serviço prestado à comunidade...
E assim, no meu cansativo caminhar por este vale de lágrimas, olhando ao meu redor, sempre consigo ver bolhinhas de luz e colorido ornando a testa de meus irmãos. Tente você também, com olhos de bolhinha de sabão (cristalinos, transparentes, coloridos e benevolentes).
É claro que você verá alguns com bolhinhas pequenas, descoloridas e sem brilho. Outros, com suas bolhinhas estouradas, por atitudes impensadas. Em outros, você verá testas secas, sem sinal de qualquer bênção (por culpa própria, certamente).
Por meu lado, procurarei sempre mergulhar meu canudinho na minha canequinha e soprar novas bolhinhas, sempre que me lembrar dos meus queridos amigos de sempre. Espero que algumas delas possam pousar na testa de quem não as têm mais.
(Pop!) Epa! Olhando meu reflexo na janela, acabo de ver minha bolhinha estourar (de emoção?).
Mas imediatamente estou vendo nascer outra ainda mais bonita e colorida que a anterior. Esta traz no seu interior (posso ver através de sua cristalina transparência) um bilhetinho assinado por Deus, dizendo-me que Ele tem lá em cima um balaio cheio de bolhinhas para mim!
Que beleza!
É a eternidade da bolha de sabão!
09 de setembro de 2000
Colaboração do autor à Jangada Brasil