João da Mata Costa
O XII Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em Natal de 29 de agosto a 01 de setembro de 2006, teve como tema O Folclore e Turismo: Cenário de Inclusão Social
Terminou o 12º Congresso Brasileiro de Folclore, e o saldo foi altamente positivo, apesar das dificuldades, atropelos e superposição de eventos.
O espaço físico foi menor do que o desejado. Não tinha sala para todos os grupos de trabalhos (GT), e houve superposição de grupos e temas discutidos, com prejuízo do debate e aprofundamento dos trabalhos. Só no segundo dia pela manhã, foram apresentados vinte trabalhos com duração de dez minutos. Muito pouco, para trabalhos tão extensos como o que apresentei sobre O kosmos camoniano e a cultura popular.
Outro trabalho que apresentei, foi sobre Cervantes como manancial de cultura popular. Eram dez GTs, com mais de 100 trabalhos a serem apresentados em três manhãs. Doze mesas redondas, sete oficinas com os mais diferentes temas, Curso de atualização em folclore. Sem falar no festival de danças, cortejo com os grupos folclóricos na Redinha etc., etc. Difícil atender a tudo, ficando com o gostinho de que se está perdendo algo. Muita gente jovem, projetos interessantíssimos e a vontade de trabalhar pela cultura popular do Brasil.
Homenagem mais do que justa a Luís da Câmara Cascudo. Faltou, na minha opinião, uma homenagem mais consistente ao folclorista Veríssimo de Melo. Ainda propus uma exposição, em sua homenagem, mas não foi possível concretizar.
O evento contou com a participação dos maiores folcloristas e estudiosos da cultura popular brasileira, e alguns estrangeiros. No terceiro dia foi possível dividir melhor os grupos de trabalhos, e deu para apresentar melhor o trabalho. Apresentei o trabalho sobre a Lua na etnografia, mitologia e Música Popular Brasileira. O trabalho foi muito bem aceito no grupo e os poucos presentes cantaram comigo o cancioneiro da música popular enluarada.
Gostei muito do trabalho do Climério de Oliveira Santos, que junto com Tarcísio Soares Resende, fizeram o belo livro sobre o Maracatu, com partituras, CD com doze músicas e faixas multimídias. Bacana, também, o trabalho do grupo PEDUBREU-Tecnococo, comandado pelo excelente Gláucio Câmara, e apresentado pela simpática e competente Fátima Costa, que também trabalha com as cantadeiras. O grupo do Gláucio faz uma releitura-vivencia o coco “Boi Tungão” do Chico Antonio, romances de Dona Militana, junto com rabeca e música eletrônica. Muito bom o show apresentado na casa da ribeira. Precisa sair urgente o CD.
Quanta coisa legal está acontecendo, e não ficamos sabendo. Jovens lendo, fazendo e recitando cordel. Grupos e mais grupos de danças populares. A mesa redonda sobre literatura de cordel no século XXI, foi um dos pontos altos do congresso. Cordel feito no computador e com roupagem multimídia. Na mesa estava presente a professora holandesa Ria Lemaire, que conduz na França estudos sobre a oralidade no mundo da língua portuguesa.
A professora Lia trabalha na universidade de Poitiers, na França, onde dirige o Fonds Cantel, uma das mais ricas coleções de cordéis do mundo. São nove mil folhetos de cordel, cartas dos autores, manuscritos etc. O cordel como objeto de arte é uma peça precária e tosca, e se enriquece com a sua transmissão oral e gestual, disse a professora. Na ocasião, houve um rico debate sobre o autor do folheto de cordel. Ele pode ser um bacharel? Na opinião do grande MAXADO, sim. Francisco Maxado Nordestino, que tive o prazer de conhecer, completou 40 anos de poesia e 30 de cordel. É de Feira de Santana (Bahia), já morou muito tempo no sudeste do Brasil e tem várias formaturas em cursos superiores. Autor de várias centenas de cordéis, inclusive muitos fesceninos. O K. Gay Nawara é autor de muitos folhetos eróticos: Os viadinhos amigados, O tarado da capa preta que assusta estudantes etc. Maxado também é autor de vários clássicos do cordel. Entre eles, O testamento de Judas pela Semana Santa, O casamento do lobisomem com a vampira feiticeira e muitos e muitos outros, alguns deles esgotadíssimos.
Foi através do amigo Maxado que tomei conhecimento dos cordéis e livro do poeta José Aras, autor de Sangue de Irmãos. A história da Guerra de Canudos e Antônio Conselheiro. Outro grande autor de cordel e xilogravuras que tive o prazer de conhecer foi Marcelo Alves Soares, de Olinda-PE. Marcelo é filho do famoso poeta-repórter José Soares, que faz parte de uma família de artistas populares. Comprei muitos cordéis e camisetas com xilogravuras do Marcelo, que também é autor de Estes fesceninos, projeto gráfico e poesia do Marcelo. Acompanha uma bela caixa-envelope, em edição limitada e assinada pelo autor que está indo apresentar o seu trabalho em Portugal.
O congresso foi enriquecido com a presença das banquinhas vendendo arte popular e folhetos de cordel. Estava presente ABAETÉ, de Pernambuco, e residente em Natal há mais de 20 anos, com muitos folhetos sobre Lampião e outros temas. Muito simpático o “Boquinha de Mel”, norte-riograndense de nome de batismo Elinaldo Gomes de Medeiros. Um turbilhão de versos de improviso e autor de um cordel sobre a origem da feira do Alecrim e outro sobre Lampião, o invasor de Mossoró.
Outra mesa redonda que tive o prazer de assistir foi com o paraibano Bráulio do Nascimento, um dos maiores folcloristas do Brasil. Bráulio falou sobre as várias versões do livro da Donzela Teodora. Foi aí que pedi a palavra e lembrei do livro da Walnice Nogueira Galvão, sobre a donzela-guerreira. Figura que faz parte do imaginário das mais diferentes culturas: A Mu-lan chinesa, Joana D´Arc, Iansã, Jovita Alves Feitosa do CE, e muitas outras.
Outro grande destaque do congresso foi sobre a cultura africana na formação cultural brasileira. Falou-se muito sobre o culto da jurema, uma planta alucinógena: Mimosa nigra, a jurema preta e Acácia jurema, a branca. A professora Maria Theresa Lemos apresentou um brilhante estudo sobre o Meleagro de Cascudo e a Música de feitiçaria do Mario de Andrade. O professor Luís Assunção, da UFRN, diz que em Natal existem 270 casas de cultos africanos, a maior parte na zona norte. Uma característica dessa prática de culto é a sua perseguição ao longo dos anos. O professor José Fernando, de Pernambuco, trabalhou muito para o sucesso do evento, e fez uma defesa emocionada desse cultos. O professor disse que recebeu muita força de uma dessas casas em momentos difíceis na preparação do congresso.
Outra palestra interessante foi a do português Antonio Tiza, sobre Tradições nordestinas: heranças lusitanas. Estudo sobre os bonecos gigantes que saem durante o ciclo de doze dias, entre o Natal e dia de Reis, na região fronteira Portugal-Espanha. Muito interessante a festa dos rapazes, que remonta aos cultos dos celtas no solstício de inverno.
Enfim, dizer que o congresso foi altamente proveitoso e estimulante para os estudiosos e amantes da cultura popular. É lamentável que muitos não tenham participado, e que tenha havido um congresso similar e quase paralelo na cidade vizinha de Mossoró (RN). Somos poucos e os recursos são limitados. Em mais de 50 anos, só conseguimos realizar doze congressos. Estão de parabéns todos que conseguiram trazer esse importante evento nacional para a cidade de Câmara Cascudo em seus 20 anos de encantamento. Parabéns, em especial, para José Fernando, Severino Borges, Gutemberg e Deífilo Gurgel, bravos baluartes da bandeira do divino filho espírito santo da cultura e religião do povo.
Prof. João da Mata Costa
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Colaboração do autor à Jangada Brasil