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Folclore do chifre

Eduardo Campos

É crendice do Nordeste de que chifre de boi livra o legume do "olho do mau", quando posto na ponta de uma vara fixada no meio da roça. Que os cornos de boi têm um poder mágico, entre as populações rurais, não resta a menor dúvida. No jardim, serve para afugentar o indesejável, a pessoa de planta; no interior das mercearias, é lembrete aos que têm mau pensamento contra o vendeiro, de que ali está uma defesa aos seus intentos inconfessáveis.

José A. Teixeira, autor de um apreciável manual de folclore — Folclore goiano — após dizer-nos que a magia do chifre do boi é disseminada em Goiás, adiantando-nos que protege contra o "mau-olhado" e "afasta as pragas e as inclemências do tempo", como em todo o Nordeste, serve-nos a informação de que na Itália, em Nápoles e em Florença, "as pessoas se resguardam da getadura, levando no fato ou vestido, um brinquedo, um objeto qualquer com a forma de chifre".

Os vendedores de rapé chamam a atenção porque conduzem, quase sempre, enorme chifre. Amuletos em forma de chifre não são raros, e existem até mesmo os que preferem pequenos cornos para guardar rapé. Até aqui vimos que o tema mágico do chifre do boi é bastante difundido e se pronuncia de várias maneiras. Entretanto, nas camadas mais baixas é símbolo de marido ultrajado. E como tal é responsável por cenas de sangue, por lutas entre família que, em muitos casos, tornam-se quase históricos, aumentados pela imaginação do povo.

Luís da Câmara Cascudo, em seu magnífico Dicionário do folclore brasileiro, confessa que ignora como nasceu essa significação ultrajante que se atribui ao chifre, como símbolo do marido ludibriado pela esposa. Mas, com aquele seu poder de pesquisador incansável, descobre que na Grécia a frase "kerala poelein" já se referia "à situação do esposo traído, universalmente aplicado na espécie". E se estende em mais informes históricos, contando-nos que em "meados do século XIV, quando o rei Fernando de Portugal arrebatou dona Leonor Teles ao marido, este, João Lourenço da Cunha, fugiu para a Espanha e por lá viveu, ostentando no chapéu um corno dourado, singular identificação do símbolo".

O poeta popular, o homem que tange as cordas de uma viola, e que vai de feira em feira no sertão, como intérprete do pensamento do povo, reflete através de seus versos essa dualidade de interpretação do chifre de boi, vendo-o como talismã, como poder mágico para afugentar os maus espíritos... e como símbolo do marido ultrajado. Nos próprios romances que se vendem tanto nas feiras do interior como nas capitais com freqüência poderão ser encontrados versos irônicos sobre o assunto.

João Quintino Sobrinho, autor de O chafurdo dos namorados nas fuzarcas de hoje em dia e Davi Silva, no seu livrinho As donzelas de hoje, traçam o roteiro dos vícios, dos pecados que afligem a humanidade, carregando com tintas vivas o procedimento das mulheres, mostrando-as em seus defeitos. É certo que folhetos dessa natureza quase sempre são licenciosos redigidos em tom picaresco e com o intuito realmente de divertir os que se interessam por histórias um tanto pornográficas. No entanto, mesmo na linguagem internacional e chã que utilizam seus autores há sempre a presença de idéias comuns aos homens do sertão que ridicularizam os que por infelicidade se transformaram em vítimas de suas esposas.

O cantador Francisco Evaristo, em improviso ouvido por nós, referiu-se ao chifre como "uma tal coisa que a tomo mundo incomoda", não obstante hoje em dia "já está quase na moda". E acrescentava ao som da viola:

O agricultor na roça
Sempre bota um ou dois
Porque só assim evita
A doença no arroz...
Mas em casa ele detesta
Porque nascendo na testa
Desgraça até o cabelo
O solteiro não faz conta
Mas para o casado, a ponta
Traz um grande desmantelo...

Nos versos, nos improvisos, nas histórias, na medicina popular, nos enfeites, e sobretudo no anedotário popular estará sempre alguma relembrança de fatos e coisas em que o chifre do boi tem a sua participação.

Há até uma história que corre o sertão e é sempre ouvida, contada em roda de senhores, na capital, e que aqui até onde passam as conveniências literárias vai contada, sobre o destino de uma família numerosa, várias filhas que se casaram e que o pai, a um amigo, achou por relembrá-las.

— Ah, você pergunta pela Isaura, minha filha? Vai bem. É formada, tem diploma...

— E a Eneida?

— Foi muito feliz. Tem dois filhos. O marido é muito bom.

— E aquela que tinha sardas no rosto?

— Bom, aquela também foi feliz... O marido é advogado.

— E a mais nova, a Beatriz?

— Ah, nem lhe conto. Infeliz como todo. Mas, infeliz mesmo.

— O que houve?

— Coitadinha... uma infelicidade. Não teve sorte. O esposo dela deu pra marido enganado...

Mas nesta contribuição ao estudo do folclore de nossa região, vale a pena, sobre assunto, divulgar os versos de Siqueira de Amorim, famoso cantador de espírito vivo e improviso ágil. Neles o leitor e principalmente o estudioso da matéria encontrará ricos elementos do nosso folclore caboclo:

O chifre pra muita gente
Seja linheiro ou com dobra
Serve para corrimboque
E guarda rapé com sobra
E ainda sendo queimado
Serve para espantar cobra

Se numa casa qualquer
O chifre é dependurado
Serve para trazer fortuna
E pra tirar mau-olhado
Cura também dor de dente
Se for chifre de veado

O chifre sendo linheiro
Lá pras bandas do sertão
Bota-se na prateleira
Da bodega ou no balcão
Para tirar a coragem
Do caboclo valentão

Mas o chifre na cidade
É coisa mais diferente
Serve para fazer palheta
Botões de ceroula e pente
E só não dá muito certo
Sendo na cabeça de gente

 

(Campos, Eduardo. "Folclore do chifre". Unitário. Fortaleza, 16 de dezembro de 1956, suplemento literário, p.1)
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