Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A paisagem fluvial

Saul Martins

Nenhuma admiração causa aos barranqueiros a chegada ao porto duma balsa de madeira, duma canoa de peixes, ou dum ajoujo carregado. Tantas vezes assistiram ao espetáculo, familiarizaram-se com os belos quadros fluviais, tanto, que nem levantam mais os olhos para a silhueta imponente duma barca que se aproxima da praia estalando o mastro às chicotadas do vento, ou rangendo o bojo, à força bruta dos homem que pisam as coxia entoando alegres:

Ô bêra dágua,
iô tô na carrêra do rio,
remano nágua barrenta,
deitado im corchão macio.

Jinuára
lugá de moça bunita.
conde o barquêro chegá
o café tá coada na xícara.

Ô bêra dágua...

As barcas navegam sempre carregadas, pois o lema do barqueiro é "subi vendendo e descê comprano", por isso não se preocupa com a distância a percorrer, nem com o tempo de viagem. Também, dentro dela guarda tudo o que é seu haveres de família. O toldo é sua casa. A barca, sua terra e a escola de seus filhos. Abre os panos do mastro para descansar os remeiros se sulca as água de "cabeça a riba" e favorece o vento. Se navega de "cabeça a baixo", tanto melhor porque "desce de voga". Neste e noutros casos aproveitam a folga para se divertirem, ou pescarem "de terrena".

Entre os barrancos, desliza mansamente o rio, carregando troncos e garranchos, às vezes caixas ensebadas portadoras de votos, ou de níqueis de cruzados, a São Bom Jesus da Lapa, naturalmente atiradas na água por algum favorecido do santo.

Corvos e carcarás também navegam, mas o fazem sobre o bucho da carniça.

É o morto carregado vivo de que nos fala o enigma popular.

Indiferentes à paisagem que se desenrola fora, na barca jogam dado a valer cigarros:

— Cinco salamão você perde esta mão!

Nem sempre a magia surte o efeito desejado e o parceiro que tiver mais sorte acaba por limpar o amigo.

A alimentação usual dos barqueiros é o "feijão ferrado", peixe e carne cozidos ou assados no "muquém". Preferem a jacuba de farinha de mandioca ou de polpa de jatobá, ao café. A cachaça é indispensável seja qual for a estação do ano. Bebem para se refrescarem se a calma os importuna. E bebem durante o frio para se acalorarem.

Os barqueiros são homens de excepcional vigor físico, acostumados à luta contra a natureza. Estão sujeitos a tarefas as mais pesadas em meio a intempéries medonhas. Quando sobem o rio e o vendo é "bandola" têm de recorrer às varas. E o manejo desta já constitui dura empreitada a homens comuns, pois medem elas cerca de oito metros de comprimento. Não é só isto, porém. Inclinam o corpo sobre o plano do assoalho e calcam o peito no topo da vara, cuja extremidade a ponta, de ferro, espeta o leito fundo. Em seguida, caminham pesadamente sobre a coxia fazendo mover a barca em sentido contrário ao em que andam. Já tem acontecido partir-se a vara sob o muque do gigante, que dado o caso, pode encontrar morte horrível, espetado na lança. De tanto esforço, a cabeça da vara macera as carnes do remeiro, no ponto de apoio. Esta, todavia, não desanima, o remeiro aplica sebo quente sobre o peito onde empurram a vara, deixando uma mancha preta no peito, que identifica a profissão, e serve de atestado de eficiência, por ocasião de contratos em empresas do mesmo gênero.

A barca é feita durante o período da seca em estaleiro próximo do rio ou mesmo à beira-d'água. Empregam-se tábuas de cedro, cujas junturas vão mais tarde calafetadas com fibras de embiraçu encharcadas numa solução de resina de angico, breu e outros ingredientes. Pintam-na depois e dão-lhe um nome, como Madaia, Urucaia, Iracema. Sua estrutura pode ser resumida, casco, assoalho, toldo, e mastro. À frente, no alto da proa, domina estranha e enorme cabeça de aparência hostil, ou estrambótica figura de animal lavrada em madeira. Serve para identificar a embarcação e dá a esta majestade.

Seu proprietário dela cuida diariamente conservando-a sempre limpa e pintada.

O emprego dessas carrancas teria apenas finalidade estética?

Talvez não.

Cada barca tem sua cara particular, escolhida pelo dono ou herdada do ancestral parente.

É o totem, com certeza.

O filho do barqueiro adota o fetiche que lhe deixara o finado por estima e por temor. E quem comprar uma barca não substitui, nunca, a figura da proa com medo de azar.

São tabus.

Acreditam que a carranca tem uma forma mágica que defende a embarcação contra os malefícios e atrai felicidade.

É a manifestação de maná.

Os barqueiros do rio São Francisco são católicos, bem verdade, mas o fato não contrapõe à teoria durkheimniana. O totemismo forma primitiva de religião, espalhadas entre quase todos os povos autóctones do mundo, notadamente entre os da América do Norte, aqui no Brasil encontrou adeptos. E a colonização portuguesa, de base cristã não impediu a sobrevivência do fetichismo indígena, que se aliou mais tarde às não menos grosseiras práticas africanas. Ele ainda se manifesta com o nome de espantalho, na ponta de uma vara à entrada das fazendas. Ou esculpidos na coronha de espingarda, no pau da bengala, na tampa do polvorinho.

Assim, com o sociólogo francês, explico o emprego das carrancas que os barranqueiros encimam a proa das barcas.

 

(Martins, Saul. "A paisagem fluvial". Diário de Minas. Belo Horizonte, 16 de março de 1952)
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