Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Outubro 2005 - nº 83 - Ano VIII


Sumário

Festança

Serestas e seresteiros
Marisa Lira>

Festas do jangadeiros
Joaquim Ribeiro

As bandas de música
Mário Sette

Cancioneiro

O votante
Juvenal Galeno

Tonis (Nau Catarineta)

Um noivado no Rincão do Buraco

Imaginário

A rã e a raposa
Figueiredo Pimentel

Negrinho do pastoreio
Darci Azambuja

Casos do Romualdo
João Simões Lopes Neto

Colher de Pau

Nove sopas
Marisa Lira

O mate no folclore gaúcho
Anete de Castro Matos

O caruru de Cosme e Damião
Edison Carneiro

Oficina

O anu-preto

Promessa
Franklin J. Cascaes

Orações
Manuel Diegues Júnior

Palhoça

A humilhação de um malé criou o traje das baianas
Fernando Barreto

A paisagem fluvial
Saul Martins

Folclore do chifre
Eduardo Campos

Panacéia




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Palhoça
Textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

A humilhação de um malé criou o traje das baianas

Fernando Barreto

A indignação de um sacerdote malé, pela leviandade da filha, criou o traje característico, que passou à história com o nome de "baiana". Divulgado pela inimitável Carmem Miranda em suas andanças por este e outros continentes.

Diz exatamente a lenda, que a moça bonita, filha do sacerdote malé, era demasiadamente leviana. Um dia, indignado, notou o pai que ela ia ser mãe. Para castigá-la, determinou que passasse a usar um traje humilhante, vendendo doces para ganhar a vida.

A humilhação

Diz Nina Rodrigues — Os africanos e o Brasil — que os malés eram sabiamente maometanos.

Esses impunham que suas mulheres cobrissem o corpo e, sobretudo, o rosto, com o "antifaz".

Na indumentária das baianas não existem essas coberturas.

Daí, constituir-se em traje profano, humilhante, de acordo com o ritual maometano.

Origem

Apesar da lenda, ainda está de certo modo obscura a origem das baianas.

Parece indiscutível, no entanto, que as baianas foram introduzidas no Brasil pelas negras cativas trazidas da África.

A Bahia era o primeiro porto. Lá, sem sombra de dúvida ficava a maior parte dos escravos arrebanhados no continente negro.

O nome dos trajes que, mais tarde se espalharia pelo Brasil e pelo mundo, teria então origem do primeiro porto.

Essa hipótese é, aliás, sustentada por Nina Rodrigues em Os africanos e o Brasil.

Baianas

Em A Bahia de outrora, Manuel Querino procura descrever um baiana.

Diz, entre outras coisas, que possibilite uma comprovação, parece evidente que o traje tem certa semelhança com a indumentária de alguns povos da África.

"A trunfa — diz — tem algo de árabe. O exagero dos colares e pulseiras evidência certa, apesar da falta de material que predileção africana, conseqüente da mineração da Costa do Ouro.

Afirma, a seguir, que as vestes não têm merecido melhor exame. Os acessórios, pano da costa e chinelinhas, têm oferecido material para controvérsias.

As mercadoras

Hoje, pelas esquinas da cidade, as mercadoras ambulantes armam o seu tabuleiro.

São as baianas.

Umas efetivamente nasceram na Bahia e trouxeram os seus usos e costumes, continuando a tradição, com o traje infamante dos malés. Outras, porém, nem sequer conhecem a Bahia, mas, de qualquer maneira, são baianas.

Baianas que o traje, os costumes, o acarajé e o abará e tornaram filhas da Boa Terra, tanto quanto verdadeiramente nativas.

(Barreto, Fernando. "A humilhação de um malé criou o traje das baianas". A Noite. Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1957)
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