Não há dúvida de que, ao passo que mergulhamos mais profundamente na civilização da técnica e do conforto, olhamos com curiosidade mais enfática e, às vezes, até com estranheza, esses tipos populares que ainda permanecem como traços do passado na vivência do presente.
O vendedor de cuscuz, o cuscuzeiro como o chama a gurizada; o do sorvete, da gaita à boca, rua acima e rua abaixo, tocando e pregando as especialidades que leva à cabeça: o do amendoim, o do rolete de cana caiana, o do mel de engenho, que a petizada imita com a mais trêfega garbolice; homem do baquilho, o cavaquinho, conhecido de todos os garotos; e outros mais, permanecem vivos e bulindo na paisagem social das cidades e dos campos, deles estando cheias as páginas do nosso cancioneiro popular o folclore.
E é do vendedor de cavaquinho que desejamos falar. Rapazola ou velhote alquebrado pelos anos. Preto, talvez descendente de cafuzos ou dahemeianos da vizinha terra africana, ou brancos, caboclos ou mamelucos, filho da gleba, tendo o sangue "agarapado" das raças que aqui se cruzaram, o vendedor de cavaquinhos é dos tipos mais curiosos e interessantes que a vida provinciana nos legou.
Comumente, às tarde ensolaradas de verão, esteja ou não fazendo vento, ou sombra, lá sai ele, tonel de flandres às costas, cheias de dessa iguaria feita de massa, quase sem gosto e sem cor, a tocar incansável circunspecto às vezes e possuído de Momo, o seu "mágico" triângulo, instrumento propaganda de "lírica" mercadoria, aos toques compassados ou históricos de sua música mítica de "faunas", a gurizada toda "desembesta" pressurosa para a rua, juntando-se numa hilaridade e sofreguidão contagiantes, ricos e pobres, igualados por aquele mítico instrumento que vibra o homem ou o moço dos cavaquinhos.
Apontando na cabeça da rua, ao trinar inconfundível do ferrinho sobre o triângulo, o nosso vendedor de baquilhos tem a certeza de colocar a mercadoria em boa freguesia.
Então, com sua presença, garotos e pequerruchas nos seus vestidinhos aparecerão de todos os lados para comprar cavaquinhos. Enrolados suavemente qual folhas de papel, aqueles dissolúveis regalos de massa, exercem a mais poderosa influência sobre os petizes, dispostos muitas vezes, a exigirem-nos à força de lágrimas, arma infantil poderosa para abrandar não somente os corações, mas também os bolsos paternos.
Naquele meio, cercado de anjinhos e diabinhos desse incompreendido mundo infantil, como não se sente superior o vendedor de cavaquinhos figura ociosa e neutra na concretista esquematização do nosso mundo em marcha.
Quase sempre maltrapilho, descalço e em aparente demência, aquele moço ou velho que barganha as folhas de baquilho entre os seus compradores mirins, parece pertencer a um mundo que se foi ou que ainda não começou para a realidade.
Para ele tem um sentido à parte a miséria e o desconforto que não pode esconder aos olhos dos que se acham no vértice da vida mecanizada dos tempos que correm. Ele vive, dentro e fora de si mesmo, para o seu lirismo econômico, figurado na venda do cavaquinho e para o seu mundo também, lírico da petizada, que o cerca, mal aparece à esquina da rua ou do beco, no bairro aristocrático ou no areal de mocambos que se espraia na periferia da cidade.