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Roubo ou parença

Renato José Costa Pacheco

No ensaio que Clóvis Caldeira fez a respeito do mutirão (Mutirão, formas de ajuda mútua no meio rural, Coleção Brasiliana, São Paulo, 1936) há referência ao roubo e bois roubados (páginas 30, 31, 123 e 126). Considera o roubo uma forma de solidariedade espontânea, não solicitada, que em Goiás e Minas tem o nome de traição.

Na Bahia a forma aparece na zona do cacau e na das caatingas. Naquela para o embarreio de casas ou limpa de pequenas roças de cacau. Nesta, "em Serrinha e outros municípios da zona da caatingas do nordeste baiano, ainda se realizam, por vezes, entre as camadas pobres do meio rural, reuniões de trabalho a que denominam batalhão, adjunto ou adjutório. Não obstante a esporacidade, há também os chamados bois roubados..."

Mucurici, município e comarca do nordeste do Espírito Santo, oferece, para o antropólogo cultural, a particularidade de ter sido colonizado por baianos das diversas áreas do estado, especialmente do sul e da caatinga, razão por que lá se cruzam diversos traços culturais. No campo da lingüística, por exemplo, o estudioso encontraria material abundante para suas pesquisas vocabulares.

Este artigo pretende ser uma achega ao bem lançado livro de Clóvis Caldeira. Nele relataremos em que condições se fazem os roubos em Mucurici, Espírito Santo. Os dados que se seguem foram, em sua maioria, coletados na fazenda Beija-flor, no córrego do Pajeú, de propriedade de Clemente Bonfim.

Há em Mucurici, o correspondente do adjunto ou mutirão que se chama conjunto, no qual trabalhadores "gratuitos" trabalham a convite. No roubo, também chamado de parença, isto é, parece roubo mas não é, um líder rural seleciona os trabalhadores que, em certo dia, adrede combinado, vão derrubar uma mata, tocar uma "manga", ou pasto cercado, ou embarrear uma casa.

A época mais comum para os roubos é em setembro e outubro, e mais raramente em qualquer tempo em que aparecer o serviço. O dia preferido para o trabalho é de sexta-feira para sábado.

De madrugada encabeçados por uma bandeira de guerra vermelha os trabalhadores procuram cercar a casa do fazendeiro que vai ser "roubado" sem que o mesmo descubra a manobra, pois, caso contrário não ficará obrigado a oferecer-lhes almoço, jantar e baile ou "brincadeira".

A chegada tocam sanfona, buzo, e "quebram" duas caixas de foguetes, ou gritam até o dia amanhecer. Desta feita não entram na casa do fazendeiro, ficando-lhe à porta a bandeira vermelha, em que estão relatados os motivos do "roubo".

Por exemplo: "Pajeú, 26/09/1957. Amigo e senhor Clemente Bomfim e senhora dona. Rofina — Sim, nós tinha vontade de fazê um roubo mais não podendo temos de fazer uma parença e é vocêis que vai se aguentar, porque nós somos fracos mas vocêis tem força com esta parencia se não até o galo vai embora desta vez. Que nós vai roçar as suas mangas e não precisa encomodar, faz o que poder, e quasquer poca coisa basta, leitoa, peru, galinha e um porquinho de 8 arroba e conforme uma vaca e a sala nós não perdoa. Os ladrões que atacou Joaquim Arruda e Mário Aruiera" (respeitamos o original).

Cumpridas estas cerimônias iniciais, saem como de praxe em estudos de sua natureza, os trabalhadores, em número que às vezes chega a cem, para as roças. O fazendeiro obriga-se a dar-lhes almoço, "janta" e uma "brincadeira", que como vimos, coincide com a noite de sábado, quase sempre regada com cachaça, mas em que, rara vez, há briga, mercê do respeito que se devota ao chefe do grupo.

À volta dos trabalhadores, sua bandeira vermelha, de papel de seda, se encontra com uma bandeira branca, de idêntico material, do fazendeiro. Está firmada a paz.

Diversos informantes esclareceram que os serviços não saem bons, razão por que não são muito bem recebidos em algumas fazendas, os componentes do "roubo", verificando-se, pois um declínio desta útil forma de cooperação rural, germe de melhores relações humanas, nas rudes matas do Itaúnas.

 

(Pacheco, Renato José Costa. "Roubo ou parença". A Gazeta. Vitória, 18 de janeiro de 1958)
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