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O pregão do Pula-pula

Adi Lizzi Contin

Recolhido em Piracicaba. Informante: Leila Cury, farmacêutica. Cantado no ano de 1927.

Antes de registrar este pregão, contarei uma "estoriazinha" que se relaciona a ele.

Noiva da Colina; assim foi chamada pelos poetas a cidade de Piracicaba. Sim, e como uma noiva recebe prazerosamente seu noivo, Piracicaba recebe seus hóspedes oferecendo-lhes as mais belas coisas da vida: a amizade, a instrução e a poesia. Gente boa, simples e trabalhadora, vivem uma vida de serenidade e progresso.

1927! O grande relógio da igreja Nossa Senhora da Boa Morte, acaba de dar oito pancadas... É noite... Ouça...

Ôôôô... pula-pula, é bem, é bem pulado...
Paçoca, pipoca, amendoim torrado...

É o Pula-pula! vem descendo a rua da Boa Morte ampla e sombria, porém das maiores a mais simpática, ligando a estação da Estrada de Ferro Paulista ao grande jardim e belo jardim Central.

— Sim, é o Pula-pula, que com sua voz maviosa, apregoa a venda de pipocas. Esse canto tristonho ecoa na parte da cidade meio adormecida, embalando em acordes os corações sensíveis.

Para as crianças, a voz ecoa como um presente de pipoca, paçoca e amendoim torrado.

Assomadas às janelas e portões aguardam ansiosas a chegada do Pula-pula.

Pouco a pouco se aproxima e a sonoridade de seu canto está bem perto, no quarteirão vizinho.

A meninada tem ímpeto de ir ao seu encontro.

— Ôôôô...Pula-pula, é bem, é bem pulado...
Paçoca, pipoca, amendoim torrado...

Eis que surge ele, moço robusto, alegre e simpático, sobraçando duas grandes cestas!

— Boa noite, meninos! 

E num só coro respondem: "Boooooa-noite, Pula-pula".  Entre sorrisos brejeiros e olhares ávidos estendem céleres seus bracinhos num desejo incontido.

E, em troca de pequenos níqueis é feita a distribuição dos tão almejados cartuchos.

De posse das enormes cestas, Pula-pula despede-se num "até amanhã, se Deus quiser", que pouca repercussão tem, porque agora as boquinhas estão cheias. Ele sorri satisfeito e prossegue nas suas apregoações.

— Ôôôô... Pula-pula, é bem, é bem pulado...
Paçoca, pipoca, amendoim torrado...

Já quase no fim de sua jornada, o quadro é outro: 21:30 horas e a maior parte das janelas e portas cerram-se.

Os moradores ansiosos por uma noite de sono tranqüilo, preparam-se para um dia de grande labor.

Ali no portão de uma casinha humilde há um casal de namorados. Em tom apelativo e meigo diz-lhe ela: — Jorge, querido, você sabe que mamãe quer que eu entre logo que passe o Pula-pula.

O vendedor de pipocas era assíduo e pontual.

Enquanto os anos se sucediam os amigos se multiplicavam. Por alguns dias ele se ausentava. E todos surpreendidos indagavam sobre o que teria acontecido?

Ninguém soubera responder. A apreensão crescia no semblante de todos. E um dia, o Jornal de Piracicaba publicava a sua morte! Fora encontrado o seu cadáver à beira de um riacho. De mistérios o caso ficara envolvido.

Todos acharam a falta do amigo. Porém, está presente e vive na memória de todos. À sua lembrança, nos transportamos em sonhos e melancolicamente, cantamos baixinho:

— Ôôôô... Pula-pula, é bem, é bem pulado...
Paçoca, pipoca, amendoim torrado.

 

(Contin, Adi Lizzi. "O pregão do pula-pula". Correio Paulistano. São Paulo, 22 de outubro de 1950)
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