Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 83
Outubro de 2005
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Casos do Romualdo

João Simões Lopes Neto

O reverendo padre Bento de São Bento — que o senhor talvez conhecesse, não? — Era um santo homem paciente — paciente! paciente! — como naquela época não houve outro.

Nos circos de borlantins muita coisa curiosa tenho apreciado: cachorros sábios, cabras que fazem provas, cavalos dançarinos e burros que, a dente, pegam o palhaço pelo... atrás das pantalonas. Mas a paciência para esse ensino não se pode comparar com a do reverendíssimo.

O padre Bento, farto de aturar sacristães, e não querendo estragar a sua paciência, que lhe estava na massa do corpo, resolveu dizer as suas missas... sozinho.

Preparava as galhetas, o missal etc. Depois, pachorrentamente paramentava-se e pachorrentamente esperava a hora de oficiar. Chegada a hora, encaminhava-se para o altar, e começava e concluía, parte por parte, tudo muito em ordem.

Mas o filé, o bem bom, era quando entrava a ladainha. Ele cantava o nome do santo e uma vozinha esquisita, porém, muito clara, respondia logo: ora pro nobis! E os fiéis, em seguida, pela pequena nave afora: ora pro nobis!

Dessas ladainhas assisti eu a muitas na capelinha de São Romualdo, que era próxima à nossa casa, na vila de...

Agora: sabem quem cantava as ladainhas do padre Bento?

Era o Lorota, um papagaio amarelo, criado na gaiola e muito bem falante...

Com ele me diverti muitas vezes:

— Lorota, dá cá o pé!

E ele, ensinado pelo padre, correspondia, amável.

Coitado!

O padre morreu, o Lorota, não tendo mais a quem dar contas, fugiu.

Passaram-se os anos.

Uma vez, estava eu na serra, numa espera de onça, quando senti, confesso — não medo, mas um arrepio... de frio — quando ouvi, das profundezas do mato, uma ladainha religiosa. E pausada, afinada, bem puxada, em suma!

Seria um sonho? Estaria eu errado na tocaia das onças, e em vez de estar na floresta cheia de bichos ferozes, estava na vizinhança d'algum convento, d'alguma capela, d'alguma romaria?

E a ladainha, compassada e cheia, vinha-se aproximando:

— Bento São Bento.

Ora pro nobis.

— Santo Atanázio.

Ora pro nobis.

— São Romualdo.

Ora pro nobis.

Eu mergulhava os olhos por entre os troncos, os cipós e as japecangas a ver se bispava uma cor de opa, uma luz de tocha, uma figura de gente. Nada!

Nisto, a ladainha pousou nas árvores, por cima de mim. Pousou, sim, é o termo próprio, porque quem cantava era um bando de papagaios e quem puxava a ladainha era o papagaio do padre Bento, era o Lorota!

A paciência do bicho... Ensinar direitinho, aos outros, a cantoria toda!

Pasmo daquele espetáculo, e duvidando, quis tirar uma prova real. Perguntei para cima:

— Lorota? Dá cá o pé!

Pois o papagaio conheceu a minha voz, conheceu, porque logo retrucou, com a antiga resposta que ele sempre me dava:

— Romualdo é bonito! Bonito!...

E para obsequiar-me fez um — crrrr! — como aviso de comando, e recomeçou a ladainha:

— Bento São Bento.

Ora pro nobis.

— Santo...

Nisto tremeu o mato com um berro pavoroso... O Lorota e seu bando bateram asas. Eu olhei em frente: a sete passos de distância estava agachada, de bocarra aberta, pronta para o salto, uma onça dourada, uma onça ruiva, uma onça de braça e meia de comprido!

E na aragem do mato ainda soou um vozerio distante:

— Bento São Bento.

Ora... pro... nobis...

— São... Ro... mual... do...

Ora... pro... nobis...

Meu rosilho Piolho

Não gosto nem admito fanfarronices perto de mim.

Freqüentemente encontro sujeitos maturrengos contando façanhas e fazendo gatimonhas de campeiros e a todo instante falando — no meu cavalo... porque o meu cavalo... e o meu cavalo... — Vai-se ver e trata-se de um sorreta qualquer, assoleado ou manco.

Cavalo, o que se diz — cavalo — de chapéu na mão, foi o meu rosilho Piolho!

Isso, sim. Era de se lavar com um bochecho d'água! De cômodo, era uma rede; de patas, um raio; de rédea, como uma balança! E manso como um cordeiro, de boa boca como um frade, faceiro como uma rosa, e armado, de barba ao peito, como um conde de baralho.

A não ser um azulego do capitão Manduquinha Pereira, nunca encontrei outro pingaço para cotejo. Foi domado pelo Chico Piola, não preciso dizer mais nada.

Morreu de garrotilho. Até hoje ainda me treme a raiz da alma quando lembro o garbo do meu rosilho...

Uma vez, andava eu, de escoteiro, para as bandas do Alegrete. Calor de rachar. Lá pelas tantas, desviei-me da cruzada sobre uma restinga, disposto a dar um alce ao rosilho e, ao mesmo tempo, tirar uma sesteada, até abrandar a quentura.

Apeei-me à sombra de um salsal. Dei água ao flete e maneei-o, para um verdeiozito. Era ele cavalo mui mestre nestas coisas.

Em seguida estendi os arreios e me aplastei sobre os pelegos, de carnal pra cima; puxei o chapéu para os olhos e cruzei os braços sobre a boca do estômago, tendo antes posto de jeito o facão e a pistola, po um — se acaso...

Nem as folhas buliam; nenhum passarinho cantava; apenas um que outro trilirim de gafanhoto vermelho saltando nas macegas. Nem quero-quero fazia ronda...

Assim tirei uma cochilada morruda. E iria a mais, se...

Amigo! Ouvi um tronar forte, de tremer o chão! Era um temporal de verão, desses que não dão tempo nem para se apagar o cigarro.

Foi o quanto saltei das caronas e trouxe o rosilho. Enfrenei-o — num vá! — sentei-lhe as garras — num vu! — e montei de pulo... A trovoada roncava ali, logo no outro lado da canhada.

Via-se cair a chuva, em manga, em linha, e via-se muito bem porque o sol dava de refilão, pela esquerda. E todo aquele borbotão d'água que desabava corria sobre mim, no pé do vento.

Levantei as rédeas, firmei-me nos estribos e trepei a coxilha. E, no que achei campo em frente, rumbeei para a estância do falecido João Silvério, que branquejava lá longe, obra de três quartos de légua, cortando a direita.

Nisto senti um — tchá! tchá! tchá! — atrás de mim. Olhei de relancina apenas, porque nem tempo para mais, tive. Era o temporal, a bomba d'água que se despencava, quase nos garrões do rosilho! Foi o quanto amaguei o corpo e toquei, a meia rédea.

Cupins e buracos de caranguejos, tacurus, macegas e carquejas, sangas, lagoas, barrais — o diabo! — não vi nada! Se rodasse, nem o sebo da coalheira se me aproveitava...

Mas o meu rosilho Piolho era firme e bonzão sem mais nada!

Eu corria, é verdade, porém, a manga d'água também corria... A polvadeira que eu levantava a chuvarada engolia logo. Sentia-lhe a frescura, percebia que ela estava-me na garupa, nos garrões do rosilho. Um que outro pingo de chuva mais ponteiro batia-me na aba do chapéu...

Era um duelo esquisito. Um duelo em que um valente fugia para ficar vencedor! Vencer, aqui, era chegar enxuto.

E assim viemos, eu e a tormenta na disparada: — a que te pego! a que te largo! a que te pego! a que te largo!

Já perto das casas, vi a gente do João Silvério, e ele mesmo, todo de mão em pala sobre os olhos, gozando aquela gauchada. Isso foi rápido, pois logo todos entraram, a fechar as portas e janelas, quando viram que eu vinha feito sobre o galpão. Quando ia mesmo entrar, saiu-me a cachorrada, furiosa, enovelando-se em latidos e investidas. Suspendi a rédea, com pena de matar algum, debaixo das patas... Olhem que isso foi como um pensamento. Mas foi o tempinho bastante para o demônio da chuva molhar a anca do cavalo!

Fiquei furioso. Se não tivesse tido a pieguice de poupar um daquele ladrões de cachorros, a chuva não teria tocado nem na cola do rosilho. Chegaria enxuto!

Assim é que entendo de cavalo bom.

O João Silvério ficou doido pelo Piolho. Dava-me cem onças de ouro, um apero completo de prata lavrada. Por cima de tudo, de quebra, ainda me tenteou com um rodeio tambeiro. Um horror de propostas, mas eu não quis.

Durante muitos anos aí esteve ele vivo e são, e podia contar este caso, tal qual eu. Hoje não sei que fim levou essa gente. E mesmo se eu quisesse ir agora a essa estância, talvez não atinasse mais com o caminho, por causa da divisão dos campos, estradas novas, cercas e corredores que despistam muito um vaqueano...

Mas que o caso passou-se, isso passou-se: mal, apenas a chuva tocou na anca do baio... E isso mesmo por causa dos cachorros do João Silvério!

Onça enfreiada

Isto passou-se em Minas Gerais, lá em cima, no Ribeirão das Gralhas.

Eu estava numas grotas, no fundo do mato grosso; tinha ido melar; era um dia muito quente. E tinha ido, montado numa mula ruça, de boa marcha e muito mansa.

Cheguei, escolhi o ponto de parada, tirei o freio da mula e atei-a pelo cabresto, para ela ir roendo algum criciúma que por ali havia.

Era a pino do meio-dia. Deu-me uma lombeira, uma preguiça, que não lhes digo nada! Peguei a cochilar. Dormi. E anoiteceu. Escuro como breu! E dentro do mato! Então, só mesmo que nunca viu o que é noite escura de mato: o escuro é preto, o preto é negro, o negro é retinto...

De repente, mesmo pesado de sono, senti faro de perigo. Olhei e vi, na minha frente, entre as árvores, um grupo de bugres, ferozes, já de arco entesado e flecha pronta, fazendo pontaria sobre mim!... Se o luar não fosse tão claro talvez eu pudesse me esconder. Disfarcei, e fazendo que não os via, para não alarmá-los, fui-me esgueirando para trás, recuando, devagarinho, de mansinho, recuando...

Com o intento — é claro! — de cavalgar a mula e fugir, tive a cautela de passar a mão no freio... Os arreios que ficassem!

Sempre recuando, e sem despregar os olhos dos bugres, de costas topei com um animal que respirava forte. E sempre sem me voltar, atento aos índios, passei-lhe a cana da rédea no pescoço, enfreei o animal, e quando pelo tato, senti que estava pronto, montei-o de salto, cravei-lhe as esporas e dirigi a montaria procurando a beira do mato.

Nesse instante os bugres descarregaram os arcos! As flechas ventaram em volta de mim... Mas era tarde: eu já estava fora do alvo!

Gesticulando, estorcendo-se, num alarido medonho, os selvagens saíram-me nas pisadas. E eu, vá espora!...

Notei então que o animal era habilíssimo dentro do mato: não esbarrava nos troncos, não se enredava nos cipós, não tocava nos espinhos, saltava pedras, pulava buracos... Apenas por vezes, junto aos paus grossos, entreparava, fazendo menção de querer subir por eles acima... Então, eu dava de rédea, e vá espora!

Enfim, ao clarear do dia, consegui chegar à aba do mato, sair para a várzea, que era a salvação. Apeei-me, acendi o cigarro, e, quando puxava a primeira tragada, atirei-me para trás, apavorado..

Eu havia enfreeiado uma onça!

Montei uma onça, nela havia fugido, na onça atravessei a floresta!

Pode parecer exagero, mas tudo se explica: enquanto eu dormia, a onça havia atacado e devorado a mula. Os bugres, que isso viram, preparavam-se para flechar a fera e não a mim, como supus, e daí a minha precipitação em fugir deles. E, de costas no escuro, julgando, de boa fé, enfreiar a mula, enfreiei a onça e montei. Como nesse momento ela estivesse engasgada com um pedaço da carniça, não urrou, e, depois de enfreiada, não pôde. E vai, como as esporas doíam-lhe, ela obedeceu, disparou... e tanto, que os bugres nos perderam de vista!

Mas, como dizia: apeei-me: vendo a onça, fiquei apavorado. E ela, sentindo-se aliviada, também não esperou mais nada: miou de gato e ganhou o mato...

Entre bugios

Quando, no norte do país, houve uma seca espantosa, que durou um par de anos e alarmou o governo e o povo todo, a farinha de mandioca encareceu, porque quanta se fabricava ia toda para aqueles infelizes flagelados.

Por essa época andava eu caçando antas nas serras do Paraná, e aí tive notícia da seca e da necessidade de mantimentos para os socorros.

Eu estava dentro dos pinheirais. Tive uma idéia, isto é, tive um pilha de idéias, porém, uma prevaleceu: em três tempos montei um engenho e comecei a fabricar farinha de pinhão.

Pinhão, havia, às centenas de carretas... O que dava trabalho era descascá-los. Ora, mas também havia muito bugio...

Preparei a minha gente e fiz algumas batidas, apanhando uma caterva de bugios, que são uns macacões ruivos, fortes e mui práticos de comer pinhões.

Estão querendo perceber?

Colhíamos os pinhões e os entregávamos aos bugios, amarrados em volta do terreiro — homem a um lado, mulheres do outro, para evitar rusgas... Por imitação do que nós faziímos, os bichos aprenderam a pelar os pinhões, atirando as cascas para um monte e as amêndoas limpas para dentro de cestos.

É verdade que eles comiam muito, mas o pinhão sobrava!

Eu tinha mais de duzentos macacos — bugios e bugias — mestres de pelar pinhão, e tudo gente moça, porque os velhos não tinham metido a mão na cumbuca, e lá andavam no mato, passando vida de... cachorro.

Ora, pois. Não é nada, mas cada dia preparava minhas sete arrobas, mais ou menos, de farinha de pinhão, que era logo ensacada e mandada para a comissão da fome da seca.

Fabricada, ensacada e mandada de graça! Confesso a minha verdade eu esperava ser recompensado com um comendazinha... Era o meu fraco: poder dia enfrentar uma onça, de comenda no peito!

Cada um com a sua fraqueza...

Nesse meio tempo apareceu o gafanhoto, que derrotou tudo quanto era pinhão que havia na serra. Não se encontrava um, para remédio.

Vi-me então obrigado a licenciar os bugios e soltei-os, dando-lhe conselhos e recomendando-lhes juízo...

Foi um grande dia para aqueles dias.

Estou convencido que se durasse mais tempo o serviço, muitos deles, os mais inteligentes, acabariam, não digo — falando — porém — mastigando — alguma coisinha que se entendesse. Por exemplo: havia um, que com algum exercício já dizia: — mual! mual! — o que parece-me que seria — Romualdo —- que era o nome que ele mais ouvia na roda do dia.

Pouco antes de retirar-me daqueles lugares, andava eu no mato, aborrecido por não encontrar caça alguma que me satisfizesse. Embrenhado num cerrado, encostei-me a uma árvore, à espera do que aparecesse. Nisto senti ali por perto um — ahn! ahn! ahn! — muito compassado e monótono.

Ahn! Ahn! Ahn! Lembrei-me da cantoria das amas, embalando crianças. Por instinto de caçador, apurei o ouvido e percebi de onde vinha o som; olhei, e, por entre as ramarias, lobriguei um vulto amarelo-vermelho; levei a arma à cara, fiz pontaria, e ia desfechar... quando senti que me puxavam pela aba do casaco. Voltei-me, e qual não foi o meu espanto, dando de cara com um bugio, que se ria e dizia: mual! mual!

Abaixei a arma. Ele, então, sempre me puxando pela aba do casaco, foi-me levando em direção ao vulto que eu descobrira. Mais perto vi então que era uma macaca, sentada, com um macaquinho ao colo, dando-lhe de mamar!...

O lugar onde ela estava era uma espécie de rancho, mal feito, é verdade, mas mostrando já alguma civilização; havia um porongo d'água pendurado num galho, e numa forquilha, espetado, um ninho de sabiá, cheio de guabijus, parecendo uma fruteira...

O bugio pôs uma mão no ombro da bugia, a outra sobre a cabeça do macaquinho e com a outra bateu no peito como dizer-me:

— Minha mulher! Meu filho!

Tirei do bolso o meu lenço de ramagens e dei-o de presente à bugia, dizendo:

— Toma! Faz fraldas para o pequeno!

O ladrãozinho parece que entendeu... E, engraçando com a corrente do meu relógio, pôs-se a brincar com ela; e eu, para me divertir, ainda encostei-lhe a "cebola" ao ouvido, para ele apreciar o tique-taque da máquina...

O casal saltou de contente. Berrou — mual! mual! — umas quantas vezes. Quando me despedi, veio acompanhar-me até a beira do mato. Nunca mais os vi.

Quem nos diz que, com tempo, paciência e... pinhões, os bugios...

Ah! Antes que me esqueça: da minha farinha e da tal comissão... também nunca mais tive notícias.

E da comenda, menos!

A enfiada de macacos

Quando estive no sertão de Goiás, vi uma cena horrível e rara, talvez única. Vi uma jibóia engolir toda uma enfiada de macacos!

Eis como: Sabe-se que quando os macacos querem atravessar um rio, não largo, o bando sobe a uma árvore alta, à beira d'água, e lá uma vez em cima, o capitão, que é o macaco chefe, engancha o rabo num galho forte, dela. Outro vem e engancha o rabo à volta da cintura do primeiro; o terceiro, no segundo; o quarto, no terceiro, e assim por diante, até o derradeiro. Quando assim estão todos presos uns aos outros e, portanto, pendurados, como uma corda, nesse jeito começam a balançar-se... a balançar-se... e mais... e mais... Nesse balanço de vaivém a enfiada ganha impulso.

É como um pêndulo de relógio ou como um badalo de sino, tal e qual!

Quando o macaco da ponta de baixo consegue agarrar o ramos na margem oposta, prende-se a ele firmemente, marinha pelos troncos acima, e dá um grito; então, o macaco da ponta de cima — o capitão — da outra margem solta-se, e — pronto! — a enfiada atravessou o rio, a pé enxuto.

Ora, certa vez em que, silenciosamente (para não despertar os jacarés), eu descia um braço de rio, em ubá, justamente numa das voltas, topei com uma enfiada que se balançava, para fazer a travessia.

Parei logo, de moita, para ver a interessante manobra.

Num dos balanços o macaco — ponta — prendeu-se a galho forte de uma enorme sucupira. Mas quando ia galgar tronco acima, uma senhora jibóia, uma jibóia — de senhoria! — abocou-o faminta, e já o foi engolindo, como que não encontra caroço nem espinha...

Com a dor do abocanhamento o pobre macaco gritou desesperadamente. O capitão, na outra ponta, julgando que era o sinal, desprendeu-se... E a enfiada inteira bateu na água do rio!

E, tanto que caíram n'água, os macacos todos taparam os ouvidos com as mãos, mas não se desenrabaram!

Fiquei com lástima daquela atrapalhação e pus-me a gritar-lhes:

— Estúpidos, soltem os rabos! Burros, aproveitem, enquanto ela papa o primeiro! Desenganchem-se!

Qual! Os burros faziam-me caretas, guinchavam, mas não atinavam com a salvação, tão simples!

A jibóia nem o trabalho teve de mover-se: engoliu o primeiro, o segundo, o terceiro... e assim todos.

O último macaco, o capitão, que era portanto o único que tinha a cauda livre, quando o companheiro da frente — o penúltimo, pois — ia entrar para a goela da jibóia, o último macaco quando isso viu, teve um rasgo de herói, que me comoveu até às entranhas: disse adeus de mão para os dois lados, e, enroscando no pescoço a própria cauda... suicidou-se!

A jibóia, talvez admirando aquele valente, não o tragou. Mal engoliu o penúltimo, com a dentuça atorou-lhe a cauda... E, então, caiu sobre a barranca, o corpo ainda quente do capitão da enfiada: o suicidado...

E eu toquei a minha canoinha para diante...

A morte do Gemada

Ah! descuidos... descuidos... Quanta desgraça, quanta perda, quanta tristeza eles causam! E a gente não se emenda, sempre a cair neles!

Por um descuido tive já um grande desgosto.

Foi assim:

Andávamos — caçada de tatus. Havia muito.

Para não perder tempo a cavar o buraco até tirar o tatu, e enquanto cuida-se de um, outros escapam, eu usava assinalar as tocas: a primeira, a segunda etc., e assim por diante até completar as que encontrava ocupadas, de forma que num momento garantia seis, oito, dez tatus.

Para assinalar, o processo é simplíssimo: Achado o tatu, cava-se um pouco até descobrir-lhe a cauda, e então, com uma embira ou cipó, amarra-se na dita cauda uma estaca, formando cruz. E pronto. Larga-se. O tatu procura logo cavar pra diante, é claro, mas não avança, que a cruz do rabo, ficando atravessada na boca da toca, não deixa. Percebem?

Experimentem: não nega fogo!

Pois um dia, não tendo à mão uma estaca, e para não perder tempo, amarrei pelo rabo um enorme tatu ao cabresto do meu estimado cavalo baio, o Gemada.

O tal senhor tatu foi cavando... cavando... entrando terra adentro. O cavalo, muito dócil, sentindo-se puxado, foi cedendo... e foi indo... E o tatu foi penetrando... e o cavalo foi cedendo...

A boca da toca era grande. O Gemada, muito manso, meteu o focinho, a cabeça lá dentro. O tatu puxou mais e o cavalo cedeu, ainda.

Quando não pôde ceder mais, e justamente por isso, o tatu fez ainda maior finca-pé. Quem é caçador sabe que força tem no rabo o tatu...

Travou-se por certo luta renhida: o cavalo puxando para fora e o tatu pra dentro!

Quando voltei ao lugar encontrei o meu Gemada sufocado, asfixiado, morto, com a cabeça como uma rolha metida no gargalo da toca... E ainda perdi o cabresto, que tive de cortar.

Quase um ano depois, vim a pegar aquele mesmíssimo tatu, que conheci porque ainda trazia de arrasto o dito cabresto... apenas com as argolas mui gastas de roçarem pelo chão!

Uma coisa de admirar foi o bem atado que ficou; verdade que fiz — como de costume — um nó de soga, a preceito, legítimo nó de Romualdo!

 

(Lopes Neto, João Simões. "Casos do Romualdo". Província de São Pedro; revista de difusão literária e cultural. Porto Alegre, Livraria do Globo, dezembro de 1945, p.63-69)
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