— Arreda daí, guacho! — e a velha Claudiana, empurrando o guri que se aquecia junto ao fogão, atirou dois grandes nacos de carne para a panela do fervido. O guri, com o safanão, foi topar na negra Afonsina, fazendo-lhe cair da mão a faca com que descascava batatas.
— Tu não enxerga, pesteado? — disse ela, dando-lhe um tapa.
Temendo maiores perigos, Vicentinho, encolhido, foi encostar-se à janelinha dos fundos e ali ficou quieto. Àquela hora, quase a do jantar, a cozinha da estância era para ele um tormento, porque recebia por junto, de todos os serviçais ali reunidos, os maus tratos que durante o dia só de um ou outro lhe caíam em cima.
A velha Claudiana, lidando no fogão, era um perigo terrível: saíam-lhe das mãos os tapas tão freqüentes e duros como os palavrões da boca. A negra Afonsina esganava-o por qualquer coisa e toda a cambada de crioulinhas e crioulas tratava-o mal.
Com o rosto colado aos vidros da janela, olhava fora a tarde que ia morrendo. Andava fazendo um inverno feio. Chuvaradas de dias e semanas encharcavam os campos, e o céu cinzento derretia-se em aguaceiros e garoas.
Ao morrer de certos dias, faixas vermelhas cintavam o horizonte, raras estrelas piscavam depois da noite quieta, e de manhã uma luz muito branca chispava nas várzeas, nos pedaços de água da enchente. E a friagem ia crescendo de novo, crescendo, até cair nas geadas que branquejavam o campo todo.
O guri, encolhido, olhava a tarde curta de inverno. Uma névoa tênue escurecia os matos e as coxilhas. No frio do silêncio, berros tristes de reses rolavam de quando em quando. Depois tudo parecia morto de frio, lá fora; só o zunido do minuano chorava, uivando. Das árvores escuras, que o vento açoitava, o guri sentia vir para ele uma tristeza infinda... Que frio ia fazer...
As suas perninhas frias, o seu pescocinho esgalgado arrepiavam-se antecipadamente, porque o pobre é assim: sente frio duas vezes. E o guri era pobre como um anum, que nem ninho tem. Pobre de coisas e afeições; não tinha nada de seu. Sem uma criatura que lhe quisesse bem, era como se os seus ombrozinhos fracos agüentassem sobre si todo o peso e a maldade do mundo.
Tinha ficado órfão desde a revolução. Logo no começo o pai fora pelejar e, duas vezes, correu a notícia de sua morte, duas vezes desmentida.
No rancho, conforme ia passando o tempo, a penúria aumentava. A mãe trabalhava o dia todo, mas, coitada, o que ia fazer? E a tristeza e a miséria cresciam. Por fim só o mate doce com o milho verde os alimentava e depois até o milho e o açúcar escassearam.
Terminada a revolução, o pai não apareceu, sem que viesse também a notícia de sua morte. Ninguém sabia dele. Perdera-se... extraviara-se como tantos outros, como os gravetos que a água solta da enchente leva e espalha pelo campo.
De repente, a mãe morrera, numa tarde muito linda, em que os bem-te-vis cantavam de alegria nos cinamomos em frente ao rancho. Levaram-na a enterrar, numa carretinha que só dois peões acompanhavam, no velho cemitério da estância, a duas quadras das casas.
A ele, levaram para a estância de que o pai fora posteiro, e começou o seu martírio.
Todos o tratavam mal. Dois filhos do estancieiro davam-lhe relhaços por brinquedo e o restante da família enxotava-o como um cão; era o meio de se pagarem da piedade de o terem recolhido.
A cozinha era um quilombo terrível, onde inúmeros perigos o ameaçavam, desde os beliscões das crioulas até os respingos de água quente, as brasas rolando pelo chão, os cepos preparados para caneladas. Por isso sempre se refugiava num canto, como agora, junto à janela, para escapar à sanha das criadas, enquanto esperava o jantar.
Naquela noite, uma sombra mais forte toldava-lhe o semblante triste de criança abandonada. Também os arrepios que lhe sacudiam o corpo não eram somente de frio, mas de febre. Já havia dias que adoecera e, sem cuidados, tinha piorado. O rosto magrinho tinha duas rodas rubras nas faces e os arrepios faziam-lhe bater o queixo de vez em quando.
Mal tocou na comida. Sem que alguém reparasse nele, foi para o quarto escuro pegado à cozinha, onde dormia.
Deitou-se na enxerga e puxou o farrapo de poncho, que lhe servia de coberta. Caiu logo em torpor. Batia o queixo, as têmporas latejavam-lhe. Depois dormiu, um sono agitado. E viu-se debaixo do umbu da mangueira. A peonada falava e corria numa grande agitação. Percebeu que era a "guerra". Do lado do passo veio um grupo de ginetes, com fita do chapéu, reboleando espadas e lanças. Assaltavam a estância. Mas a velha Claudiana saiu do galpão com uma acha de lenha e desbaratou os atacantes. Pouco depois, todos eles comiam morango com leite na cozinha, servidos pela velha Claudiana. O guri, então, montou o azulego do patrão e ia sair para procurar o pai. Mas o umbu tinha caído e o cavalo, enredando naquela galharia enorme, dava corcovos que quase o derrubavam. Saltava sobre os ramos entrelaçados, mas outros surgiam, mais altos, amontoados; galopava sobre a fronde de um mato. Os homens do assalto montaram também os cavalos e saíram em sua perseguição, dando-lhe tiros. Um chegou tão perto que levantou a espada para matá-lo...
Nisto acordou, opresso, banhado em suor. Ficou alguns momentos desorientado na escuridão do quarto. Depois meteu a mão sob o travesseiro e tirou um embrulhozinho, que desfez. Era um naco de fumo, um toquinho de vela e uma caixa de fósforos.
Era a sua esperança maior, a sua salvação. Quanto custara conseguir tudo aquilo, quantos dias de espera... O naco de fumo, achara no galpão, caído do bolso de um peão; o bico de vela e a caixa de fósforo, com dois pauzinhos, apenas, surrupiara da cozinha, após inúmeras tentativas perigosíssimas.
Ia, enfim, realizar o seu sonho, fazer uma promessa ao negrinho do pastoreio.
Ouvira contar a sua triste história e a lenda dos seus milagres. Atirado dentro de um formigueiro, por ter perdido a tropilha de tordilhos, o negrinho ficara sendo o achador de tudo que se perde no campo. Cavalos extraviados, facas caídas do cinto, bombas de rédeas, dinheiro, tudo ele fazia voltar ao dono que lhe pedisse. Só por um biquinho de vela e um naco de fumo. A vela, para a sua madrinha, que é Nossa Senhora, e o fumo para ele, que é pitador.
O guri pusera atenção nas histórias e juntara aquelas coisas para pedir ao negrinho do pastoreio que achasse o pai, perdido na revolução.
Naquela noite tão fria, apesar de doente, ia acender a velinha, no canto da mangueira.
Mal tinha forças, porém, para erguer-se da cama. Nem prestou atenção se todos se haviam deitado na casa. A sua cabeça andava à roda, com uma zoada dentro; tinha a boca seca e amarga. Levantou-se a custo, todo arrepiado, e tateando no escuro atravessou o quarto, a cozinha, tirou a tranca da porta e saiu à rua.
O frio intenso quase o congelava, mas, excitado, meio em delírio, avançava sempre. Uma densa névoa caíra de noite e não enxergava um metro adiante. Foi caminhando vagarosamente. Deu volta à casa e encontrou a mangueira. Ajoelhou-se junto à cerca e, com todo o cuidado de que era capaz a sua cabeça azomada pela febre, acendeu o biquinho de vela, protegendo-o com umas ervas. Depois, em voz baixa, disse as palavras necessárias:
— Negrinho do pastoreio, acha o papai que se perdeu na revolução. Dou este biquinho de vela para a tua madrinha, Nossa Senhora, e este fumo para ti pitares.
Ficou algum tempo parado, tonto, sem saber mais o que fizesse. Começava a encarangar. A luzinha da vela palpitava na neblina densa. Ele sentia agora um frio e um calor estranhos arrepiarem-lhe o corpo. E se fosse até o cemitério ver a sepultura da mamãe?
Saiu tropeçando na escuridão. O frio aumentava. Sentia as mãos endurecidas, a boca cerrada, os cabelos umedecidos pela neblina. Não atinou, naquela noite feia, com o rumo do cemitério. Estava tonto e sentia um frio horrível. Deu volta. Viu à distância o limbo de luz que o biquinho de vela fazia no costado da mangueira. E veio caminhando, com um torpor, um peso enorme no corpo. Ao chegar perto, sentia tanto frio e tanto sono que teve de deitar-se mesmo sobre o capim úmido. E ia dormir, quando uma coisa extraordinária o atraiu.
A luz do biquinho de vela cresceu de repente, alargou-se, subiu, mais clara, e uma claridade lindíssima. Cresceu tanto, que ele avistou as casas e as árvores. Depois a luz cresceu mais ainda para o alto, num imenso clarão, rasgando as nuvens amontoadas ao lado da faixa de luz que ia até o céu. E apareceu, desenrolando-se do alto, como um tapete, uma longa estrada, marginada por árvores muito verdes, onde voavam pássaros. Vinham galopando por ela três cavaleiros. O da frente, num cavalo tordilho, era negrinho bem pretinho, de grandes olhos alegres e dentes muito brancos, brilhando na luz. E vinha gritando:
— Vicentinho! Vicentinho! Olha aqui!...
E mostrava os dois cavaleiros que eram o pai e a mãe do guri.
O pai apeou-se, abraçou-o e, levantando-o nos braços, sentou-o no colo de sua mãe. O negrinho do pastoreio, que parecia ter pressa, guasqueou o tordilho, gritando alegremente:
— Vamos embora, vamos embora!
E todos galoparam, dentro da luz maravilhosa, naquela estrada tão linda, que ia muito longe, muito longe... até o céu...