Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

As bandas de música

Mário Sette

Quem passasse à noite, a uns trinta anos [sic], na rua do Imperador, no trecho que vai de Primeiro de Março ao largo do Espírito Santo, ouviria de um sobrado os toques de ensaio de uma banda musical que não se afinava nem se harmonizava nunca.

Era uma verdadeira discussão entre as trompas e os pistons, os pratos e as clarinetas, o bombo e a requinta, os rufos e os trombones, numa promessa confusionista e gutural do que hoje se chama jazz-band.

— Lá está a música do major Pataca ensaiando, — explicava um transeunte.

— É a Espanta-Ratos... — coloria melhor um outro.

E com entusiasmo e ruído, a banda fazia das suas até por volta das 10 horas da noite, quando as ruas centrais da cidade já escuras e quietas dormiam a sono solto.

O major Pataca, membro cioso da extinta Guarda Nacional, mantinha a sua filarmônica malgrado os insucessos das suas tocatas em público e da ironia popular quando a via desfilar pitorescamente assustando a população roedora dos velhos sobrados da rua do Imperador. E, para o seu presidente, a glória dessas saídas para uma festa ou uma manifestação, só se comparava à dos dias de procissão dos Passos em que revestia a farda de um major, punha o boné de banda, a espada à cinta e lá se ia acompanhar o andor do Bom Jesus.

Duas bandas musicais, porém, existiram no Recife que mereceram o realce, a fama, os aplausos e os partidarismos que provocaram: a Matias Lima e a Charanga do Recife.

Quando deixavam as sedes, no garbo dos fardamentos impecavelmente brancos e gomados, com o instrumental a reluzir, os dobrados explodindo em harmonia após uma pancada em cheio no bombo — a cidade alvoroçava-se.

Janelas que se abriam, varandas que se povoavam, calçadas que se enchiam.

— Será a Charanga, minha gente?

— Que nada! É a Matias Lima.

Troca de olhares acerados. Depois, júbilo triunfal no rosto de um, muxoxo de desdém nos lábios de outro.

E a banda passava, num ritmo elegante de sapatos brancos, numa esplêndida perfeição.

A Charanga do Recife tinha sua sede na rua Nova; a Matias Lima, no Livramento. Da primeira, era mestre afamado o professor Faustino; da segunda, o professor Lourenço Silva.

Ambas excelentes, caprichosas estimuladas. Ambas com os seus louros. E os seus partidários. Por isso mesmo, viviam em rezingas.

Aos domingos, se alguma delas ia tocar na famosa retreta da praça da República, garantia-se a elegância e o vulto da assistência. Lá se achava a fina sociedade recifense, por entre as palmeiras do parque, pelos banquinhos de madeira, transpondo os portões do jardim, rodeando o coreto.

E, durante a tarde inteira, apesar dos insistente apitos da maxambomba ali perto, a Charanga ou a Matias Lima deliciava os ouvidos da gente madura daquela época e protegia o namoro dos maduros de hoje...

Em 1901, se não há engano, houve um torneio musical entre as duas bandas rivais no jardim da praça Maciel Pinheiro. Num 15 de novembro. Anunciado, fez cócegas nos partidários e despertou interesse nos imparciais.

Bandeirolas, luzes, canelas, gente muita.

As mocinhas das ruas do Hospício, Velha, Intendência, Sebo, Conceição, Cotovelo... vieram com seus vestidos brancos e suas faixas mostrar-se ao rapazio de jaquetão de golas de seda e sapatos de bicos aguçados...

As duas músicas chegaram, subiram para os coretos entre palmas e vivas.

Tocaram o Hino Nacional.

E dali por diante o torneio foi uma coisa séria. Era cada peça de harmonia de espichar. Cada trecho de ópera de fazer suar o adversário. Mas a resposta não tardava. Tome uma sinfonia complicada, uma valsa deliciosa, uma marcha retumbante com um final barulhento e majestoso.

As batutas do Faustino e do Lourenço não se deixavam vencer, 9, 10, 11, 12 horas da noite e cadê que nenhuma das bandas queria descer do coreto?!

Corriam boatos...

Aquilo ia terminar em taponas!

Ou em tiros muitos, isso sim.

Ou em flandres da polícia...

Famílias, cautelosas, retiravam-se de manso.

Outras iam para perto das portas dos sobrados.

Os partidários resmungavam.

Temperatura alta.

E as filarmônicas botando os repertórios para fora. Os bauzinhos das partes musaicais se esvaziando.

Palmas... Ramos de flores... Vivório.

Quase uma hora da madrugada.

A Charanga tocara uma peça de harmonia lindíssima, dificílima, gabadíssima. A Matias Lima iniciara outra que não ficava longe.

E foi quando um delegado de polícia, sensato, calmo, conciliador, interveio no torneio para evitar maior pancadaria no fim. Nenhuma das bandas desceria primeiro do coreto.

Desceriam e sairiam juntas.

Novamente o Hino Nacional.

E já com o friozinho da madrugada, a Matias Lima e a Charanga do recife, cada uma batendo um dobrado nervoso, esquentadiço, formidável, o que ainda constituía uma provocaçãozinha, lá se foram vitoriosas, elegantes, afinadas, para suas sedes em Santo Antônio.

Desses ciúmes e dessas rivalidades a música do major Pataca estava livre. Ninguém a ouvia.

Uma outra banda musical interessante e original do velho Recife foi a que existiu na Casa Amarela. Tinha sede numa casinha de taipa de uma rua modesta. Passava o ano inteiro a ensaiar, duas vezes por semana, a fim de tocar na grande festa da padroeira local.

Nas terças e nas sextas-feiras, por volta das 8 horas da noite, lá estava o conjunto de amadores a acertar os instrumentos, a se apurar na execução de um dobrado, de uma valsa, de um pas-de-quatre. Não saía nunca para parte alguma. Trocavam-se idéias sobre o figurão que iriam fazer junto ao 14, à polícia, à Monteirense...

Nas vésperas, engomavam-se os uniformes, mudavam-se as fitas dos bonés, passava-se sapólio no instrumental...

Os músicos já andavam pelo arrabalde com um ar de triunfo. Mas todos os anos era assim: no dia da saída, estalava uma discussão, explodia uma inveja, adoecia um trombone, ou o bombardino, caía uma trovoada... E a banda não punha o pé na rua.

Resignado, calmo, o mestre, coçando os cabelos grisalhos, murmurava:

— Tem nada não, minha gente. Fica para o ano que vem...

 

(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro, 1958, p.183-187)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005