As festas dos praieiros do norte quase sempre giram em torno de cultos populares: São Pedro, Nossa Senhora dos Navegantes, Bom Jesus dos Navegantes, São José do Ribamar etc.
Enfeitam-se as povoações de bandeirolas e fogueiras. Estouram foguetes, rojões. Cores. Luzes. Sons. E, no meio de tudo isso, o agitar das canoas e jangadas engalanadas no mar e o bulir das gentes nas praias onde o canto, a dança e a música dominam. Tudo se movimenta. Tudo assume ar festivo, alegre, feliz.
É comum, nesses dias, realizarem os praieiros um encantador folguedo que retrata a vocação dramática dessa gente. Todos cooperam no preparo de uma espécie de auto popular, cujo tema revive a luta de cristãos e mouros, através de pitoresca cenografia ao ar livre.
É a chegança.
Iniciam-se os preparativos poucos dias antes do Natal.
Ergue-se, num terreiro, uma barca. Paus são fincados, ripas traçam o contorno, o reboco é feito após o entaipamento. Segue-se a caiação. Não se esquece o rodapé escuro e, à popa, o desenho da âncora umas vezes, outras vezes uma âncora de pau modelada especialmente para a cenografia. O convés é construído. Colocam-se os mastros altos; às vezes, cosiam-se as velas brancas, de quando em quando enfunadas pela brisa.
Este era o cenário tradicional das cheganças.
Os personagens apresentam-se com indumentárias características. Vestem fardas brancas, não raro de saco de farinha do reino. Galões nos ombros. E botões reluzentes.
Esses personagens, de regra, selecionam-se entre marujos ou descendentes de marujos.
O auto, então, é iniciado, com aplausos gerais.
A chegança é uma das festas típicas dos praieiros. E, sem embargo dessa mise-en-scène deveras decorativa, a representação, ingênua e simples, entusiasma os espectadores.
Há variantes e variedades desses autos populares.
Nesse sentido, Guilherme de Melo já advertia:
"Há duas espécies de cheganças: a dos mouros e a dos marujos, das quais esta última, conservando o fundo da tradição da Nau Caterineta, se transformou em um auto de originalidade brasileira.
Uma e outra, que são de origem luso-espanhola, representam festas de mareantes, cujo episódio são pequenos quadros da navegação portuguesa nos séculos XVI e XVII, em que se descreve não só o heroísmo do espanhol contra os mouros, mas ainda a intrepidez da marinhagem portuguesa 'em busca de terras para o seu rei e de glórias para a pátria'.
Consta a chegança dos marujos de um grupo de marinheiros que, conduzindo um naviozinho, a Nau Caterineta, sob a toada apropriada das evoluções marítimas, fingem uma batalha a bordo, após a qual se sentando todos para coser o pano de vela entoam os versos tradicionais de A vida do marujo e os da Nau Caterineta".
A chegança, festa praiana, torna-se festa fluvial no rio São Francisco. O escritor dom Martins de Oliveira coligiu na cidade de Barra curiosa versão da marujada.
Não há dúvida que a chegança é de origem peninsular. É possível ainda ligá-la a uma tradição mediterrânea, mais antiga que os romances de mouros e navegadores de Espanha. Esse motivo da barca (que aparece na chegança) prende-se ao folguedo dos romanos, denominado currus navalis (donde: carrus navalis e, daí, carnaval).
Essa folgança implicava em trazer em procissão, por terra, uma embarcação toda engalanada.
Dessa tradição romana surgiram dois veios para o nosso populário: a chegança e o carnaval (que nos chegou, por via indireta, mais recentemente). Aquele fixou-se no mundo rural, sobretudo, praiano e fluvial (rio São Francisco). E esse último veio condensar-se nos núcleos urbanos.
Numerosas são as festas locais dos praieiros e sempre relacionadas com o padroeiro da região. No litoral do Maranhão tornou-se famosa a festa de São José do Ribamar. Nas praias do Recôncavo Baiano constituem uma nota pictórica de relevo as procissões marítimas de Nossa Senhora dos Navegantes. E assim noutras localidades litorâneas.
Na costa baiana, onde é forte a influência negro-africana entre os pescadores, existe uma festa típica e ritual: o despacho da Iemanjá. Entre cânticos de candomblé, atiram-se dádivas (flores, pentes, espelhos, jóias etc.) à deusa sagrada do mar (Iemanjá, entidade mítica dos negros). Artur Ramos divulgou este cântico:
Sereia, minha sereia
Sereia do mar sagrado
Donde vens tão bonitinha
Sereia do mar sagrado
Sereia, minha sereia
Que nos vem do mar sagrado
Sereia, minha sereia
Torna a meter-te no mar
No litoral do Nordeste, o culto de Iemanjá também é praticado. Gilberto Freire, no Guia do Recife, afirma:
"Acreditam em Iemanjá, a santa do mar."
Tais festas, todavia, não possuem o brilho do ritual dos praianos da Bahia.
Em todo o "ciclo da jangada", o pinho representa o instrumento indispensável para a recreação habitual dos pescadores.
Os violeiros povoam as praias da Bahia ao extremo-norte. E, em toda essa faixa costeira, a poesia dos cantadores indicia a alma lírica das gentes praianas.
Na praia de Areuá, foz do rio Curuça (Pará), João Gualberto de Campos colheu as seguintes trovas cantadas por pescadores:
Parti ao mar uma vez
Pesquei ao sentar ao sol
Uma concha recolhi
Segura no meu anzol
Quis recuar, assustado
Mas a concha estremeceu
E uma voz falou-me assim:
Não tenhas medo, sou eu
Sou a saudade sentida
Que tinhas no coração
Quando da terra partiste
Cheio de amor e aflição
Essas delicadas quadras foram reproduzidas por Jorge Hurley no estudo Yaribes da Amazônia (publicado em O País, 03 de outubro de 1930).
Tudo isso evidencia que os praieiros do norte enchem de poesia e beleza as horas tranqüilas de paz e recreação.
E, aqui, sob o céu tropical, ainda ecoam as ressonâncias do velho romanceiro lusitano, transplantado cheio de viço:
Sobe, sobe, gajeiro
Meu gajeiro real
Vê se vês terra de Espanha
Areias de Portugal
É o que se canta na chegança perpetuando-se o elo da cultura de além-mar na tradição dos praieiros nortistas.
A arte feminina reside na decoração, cheia de delicadeza, das rendas do norte. Os motivos (estrelas, flores, peixes etc.) reproduzem influxo do ambiente. É o ferrete ecológico.
Renda e poesia, eis as expressões estéticas das gentes praianas. A arte de fazer rendas possui técnicas e segredos que só os dedos exímios das praieiras conhecem. É também uma maneira de fazer poesia para os olhos.