Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 83
Outubro de 2005
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O mate no folclore gaúcho

Anete de Castro Matos

Creio que nos dois pontos extremos do Brasil encontram-se as duas maiores fontes do nosso folclore. Que me perdoem os entendidos, se estou enganada, pois nunca me aprofundei no assunto.

No Amazonas, por exemplo, com suas vasta florestas e imensos caudais povoados das mais fabulosas lendas, temos o fascínio da iara que, nas noites de luar, emergindo das águas tal qual as sereias mitológicas, atrai com seus encantos os pobres caboclos incautos, fazendo soçobrar suas canoas, como outrora lorerei no Reno.

Na curva de algum igarapé, inopinadamente surge a cobra-grande que arrasta de roldão as embarcações desprevenidas, enquanto o boto, coitadinho, vai pagando a culpa dos pecados alheios...

O medo, a superstição, a crendice popular, vão criando um mundo fabuloso de coisas absurdas que o homem, eterna criança grande, vai transmitindo de geração em geração, pois que "a tradição é o legado familiar das nações".

No Rio Grande do Sul o folclore é tratado com muito carinho e interesse, condensado numa organização perfeita dos centros de tradição gaúcha, classificado por números, na divulgação da sua musa crioula, nas suas prendas e festejos característicos.

Já há algum tempo recebi da distinta funcionaria do Museu Júlio de Castilho de Porto Alegre, Hedna Pires Franco, valioso material referente à realização da III Semana Nacional de Folclore, realizada naquele estado.

Muita coisa interessante, visto o noticiário que me mandou, deveria ter sido realizado, nas danças típicas, exposições e outras solenidades características das diversas regiões.

No sul, como no norte, as lendas enchem as noites de mistério e pavor, nas coxilhas e nas conversas dos galpões. A principal dentre todas, a que é contada com piedade e emoção é, sem dúvida, a do negrinho do pastoreio, do menino pretinho sacrificado pelo estancieiro mau. Quem quiser, no Rio Grande, encontrar um objeto ou animal perdido, é só acender uma vela ao pretinho do pastoreio.

Há ainda a da salamanca do jarau para explicar o cruzamento das raças indo-ibéricas, ou a origem do caboclo; a do boi-tatá que aterroriza os homens e animais, perambulando pelos campos; a das mulas-sem-cabeça, mulheres infiéis que foram assim transformadas e que aparecem na Sexta-feira Santa, botando fogo pelos olhos.

Da nomenclatura que Hedna me enviou consta uma imensidade de textos provisórios, com o nome do autor da lenda, fonte de origem, significado do mito etc., que se destinam a ilustrar os desenhos referentes a cada uma.

As boas ações, como as más encontram na explicação fácil do povo, as suas recompensas ou castigos. Também o aparecimento e as propriedades de certas plantas estão condicionadas às mais extravagantes variantes do folclore regional.

A erva-mate, principal alimento líquido dos pampas, o insubstituível chimarrão tem o seu aparecimento assim explicado por Manoelito de Ornelas: "Um dos deuses índios foi generosamente hospedado por um velho e pobre índio e a filha deste. Reconhecendo a hospitalidade desinteressada deu a ele uma planta milagrosa de grande utilidade para ele e os seus descendentes".

Existem outras versões dessa lenda. Relendo o Boletim mensal do 35, Centro de Tradições Gaúchas de Porto Alegre, encontrei ainda com referência ao mate, a seguinte linguagem poética, utilizada pelos namorados rio-grandenses do sul em passadas épocas.

Mate com mel: Quero casar contigo
Mate com açúcar queimado: Simpatia
Mate com canela: Só penso em ti
Mate com açúcar: Amizade
Mate frio: Desprezo
Mate com sal: Não apareço mais aqui
Mate com casca de laranja: Vem buscar-me
Mate muito amargo: Chegaste tarde, já tenho outro amor
Mate lavado: Vá tomar mate noutra casa!

Abril de 1956

 

(Matos, Anete de Castro. "O mate no folclore gaúcho". A Gazeta. Vitória, 13 de abril de 1956)
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