Me afirmam que sou votante
Cidadão qualificado
Olé!
Por isso já não descanso
Dia e noite atormentado
Com pedidos
Que respondo: — Só eu voto
Só vou lá
Se me derem boa roupa
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Desta terras, onde planto
Vem o dono e diz-me altivo...
Olé!
— Se você não der-me o voto
Fora, fora! — Se eu me esquivo
Ralha muito
Que ameaças!... Todavia
Só vou lá
Se me der roupa e dinheiro
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Aparecem meus credores
O lojista, o taverneiro
Olé!
E me dizem: — Tome a lista
Ou pague o nosso dinheiro
Sem demora! —
Eu respondo: — Só eu voto
Só vou lá
Se deixar dinheiro em casa
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Dos guardas nacionais
Me visita o meu sargento
Olé!
E me diz: — Do comandante
Hoje vi-o num assento
Sem dispensa...
Eu respondo: — Só eu voto
Só vou lá
Se me der o que preciso
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Do quarteirão, onde moro
O inspetor dá-me aviso
Olé!
Que o meu voto ao delegado
Muito e muito ora é preciso...
Que vexame!
Eu respondo: — Só eu voto
Só vou lá
Se me der uma jaqueta
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Se não voto, o potentado
Da terra me lança fora
Olé!
Onde irei plantar legumes
Para o meu filho que chora
Na miséria...
Oh, que sorte!... todavia
Só vou lá
Se me der camisa e calça
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Se não voto, meus credores
Penhoram meu possuído
Olé!
Fico à toa, sem a choça
Sem meu legume e despido
Santo Deus!...
Oh, que sorte... todavia
Só vou lá
Se me derem bom chapéu
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Se não voto, o comandante
Não me esquece na revista
Olé!
Me destaca e me persegue
Me atropela, me contrista
Com serviços...
Oh, que sorte... todavia
Só vou lá
Se me derem bom calçado
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Se não voto, o delegado
Me processa sem delito
Olé!
Sofro algemas e cadeia...
Se não tenho um rapazito
Sou recruta...
Oh, que sorte... todavia
Só vou lá
Se me derem muita coisa
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Se votar no delegado
Sofrerei do comandante
Olé!
Se votar nos meus credores
Sofrerei, pobre votante
Doutro as iras...
Oh, que sorte! Meus amigos
Só vou lá
Se ganhar algum dinheiro
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
E se vou dar o meu voto
Lá da mesa o presidente
Olé!
Se me chamam, me rejeita
Diz ser outro... logo a gente
Se alvoroça...
Há pancadas... que perigo!
Só vou lá
Se me derem muita coisa
Tá, — rá, — lá...
Sem o que, palavra d'honra
Não vou lá
Setembro de 1860