Raul Bopp
O contato com a terra faz a gente pensar em ponto grande. O espírito se recobra de valores mais fortes. Vontade de ocupar espaços, reunir distâncias para viagens imaginárias.
O Brasil vinha vindo a passos lentos, recolhendo horizontes todos os dias. Deus fazia as florestas e os negros trabalhavam no engenho. O barulho do mato e a queixa das moendas criaram vozes que ainda esperam versos. Essas vozes se acomodam e se dissolvem em música. Tomam a métrica inconsciente e caem na boca anônima do povo. Estão aí, como valores incógnitos, os filões do nosso lirismo.
Nas bases da nossa formação histórica há encadeamentos profundos. As raças se encontraram sem cartões de visita. Sem autobiografias. Cada um tinha uma história diferente. O índio vinha do mato. O negro não tinha história. É como diz aquele verso:
... trazia no sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.
A tua primeira inscrição em baixo-relevo foi uma chicotada no lombo.
A geografia determinou os nossos tipos rurais, de acordo com a necessidade da vida. E assim, cada grupo foi criando um cancioneiro próprio. O negro trabalhava nas lavouras. Nas horas de folga brincava de rei ou esvaziava a alma no terreiro (lirismo filtrado no carvão de pedra africano).
— Ai sinhá, como é teu nome?
— Meu sinhô, não tenho nome.
Me chamo chita riscado,
Camisa daquele home.
Tem também significação de alcance freudiano os embalos de rede e as berceuses, que chamamos cantigas de ninar ou "cata-piolhos".
Ó cata piolho
Me empresta o teu sono
Vou ver o rei-congo
Na serra da Fulô.
Iaiá se deitou-se
Tirou a camisa
Mas veio o rei-congo
E... "ningue-ningue nhum"...
Depois fez quentinho
Rei-congo dormiu
Fugiu por uma porta
E... "ningue-ningue nhum".
Com as canções da ama-de-leite, as sugestões de romance vão se filtrando e ressoando no fundo da alma do nenê brasileiro. Ele trás do berço aquisições longínquas, como idéias ingrávidas. Essas vozes nos acompanham. Um dia elas tomam forma. Incorporam-se e propagam-se no nosso folclore.
* * *
O caboclo em algumas regiões é um tipo triste. Encerra-se numa nostalgia preguiçosa. Acocora-se à porta do rancho, enrolando demoradamente o cigarro de palha. Não conversa com a mulher. O gatinho magro no terreiro mia desconsoladamente. Ninguém sabe o que passa atrás do pensamento dele. Ele vai recuando com a linha do mato, como uma sombra — dentro daqueles meio-dias enormes juntando sol. O céu é um acompanhamento. À noite na floresta desembarcam vozes. Árvores incham na sombra. Chega o curupira. Curupira tem fome. Corta um pedaço da perna. A carne começa a gritar na barriga.
O caboclo crê e não crê nessas coisas. Os seus anais totêmicos não oferecem explicação. A floresta não gosta de ser interrogada.
Eu gosto é dos "causos" que ele conta com umas doses de humor, em dias de animação — temas cifrados do nosso fabulário. Por exemplo:
— Um animal que está procurando um outro, ao lhe encontrar o rasto, pergunta com uma cômica seriedade: — Ó rasto onde está seu pai?
— Do jabuti, que quando se acorda move a cabeça invariavelmente da esquerda para a direita, ele diz: — Esse bicho sabe ler, mas não saber escrever.
— Um homem estava trabalhando no arado. O índio, espírito de Macunaíma, ao ver aquilo pela primeira vez, pergunta: — Ê, ué. Está estragando a terra?
— Para dar idéia da dureza de uma árvore ele conta, por exemplo, que o acapu, madeira muito resistente, cem anos depois de cortado, sentiu pela primeira vez uma ferroadinha na casca. Então, exclamou: — Ai, que me cortaram.
* * *
O índio é de uma raça que não ri. Sombrio. Tem uma sensibilidade escondida. Conversa com as árvores. Entende o mato. Respeita o rio. Quando chega às margens pede: — Benção, meu avô.
Quando, à noite, atravessa uma lavoura, urtiga primeiro os pés, para não acordar as plantas que estão dormindo.
Tem além do mais uma filosofia muito simplista. Vou contar uns casos:
— Uma vez, o general Couto de Magalhães, passou uns tempos num dos tributários do alto Tocantins, e quando estava para voltar perguntou a um índio que se afeiçoara muito a ele, se ele não queria ir junto conhecer cidade. Ele iria ver uma porção de coisas: casas, umas em cima das outras; andar a toda pressa dentro de carros movidos à máquina. Iria vestir outras roupas, gravata, colarinho. O índio ouviu toda essa explicação. Ouviu. Ouviu. Depois disse: — Ué, meu padrinho, mas então porque é que o senhor fica aqui, que a gente não precisa de nada disso?
Em uma certa tribo de índios, de acordo com os augúrios, o cacique tinha poderes totais somente dentro de uma determinada região, por exemplo: limite entre dois grandes rios. Acontece que quando a tribo estava desgostosa com o chefe, ela não se revoltava, como se dá comumente entre outras formas de governo. Eles tinham um processo muito simples: mudavam apenas de lugar e deixavam o chefe sozinho.
* * *
O caboclo do Amazonas, dentro daqueles cenários grandiosos, com o maior rio do mundo, a maior floresta do mundo, tem tudo o que ele precisa. O rio lhe dá tudo, inclusive o transporte. É comum reunirem-se os caboclos na época das farinhadas, fazerem "putirum". Uns ajudam os outros. E se divertem fartamente com isso. Talvez uns versos possam dar idéia de uma dessas cenas:
Vamos lá pro putirum
Putirum, Putirum
Vamos lá fazer tapioca
Putirum, Putirum.
Casão das farinhadas grandes,
mulheres trabalham nos ralos
mastigando cachimbos
Chia a caroeira nos tachos.
Mandioca-puba pelos tipitis.
— Joaninha Vintém, conte um causo.
— Causo de quê? Qualquer um
— Vou contar o causo do Boto
Putirum. Putirum.
Amor chovia
Chuvesquirou.
Tava lavando roupa, maninha,
quando boto me pegou.
— Ó Joaninha Vintém,
boto era feio ou não?
— Ah, era um moço loiro, maninha, tocador de violão.
Me pegou pela cintura.
— Depois o que aconteceu?
— Gentes...
Olha a tapioca embolando nos tachos.
— Mas que boto sabido!
Putirum. Putirum.
A propósito talvez seja preciso uma explicação: O boto é uma espécie de dom Juan da Amazônia, sedutor de donzelas. Aparece às escondidas. Depois desaparece. Afunda no rio e nunca mais volta. De certo modo ele é responsável por muitos acontecimentos em família. Acomoda casos de paternidade. Ao mesmo tempo o boto constitui por assim dizer uma réplica do caboclo a alguns artigos do Código Penal.
Em certas regiões do fundo da Amazônia encontram-se comumente desses solecismos sociais. Acredita-se por exemplo que certas árvores emprenham moças, quando passam por elas. Daí a explicação de alguns sobrenomes:
— Eu sou filho do taperebá.
— Sou filha do Inajá, de Souza.
* * *
Todo esse material colorido e variado tem naturalmente profundos reflexos no idioma. Manifesta-se em expressões que evidentemente não coincidem com fórmulas vernáculas. As raças trouxeram contribuições inteiramente novas, cheias de música. Expressões idiomáticas que ainda não se aclimataram na atmosfera acadêmica.
Eu mesmo, em minhas viagens pelo interior, com interesse no nosso folclore, catei maneiras de dizer que escapam dos moldes comuns da gramática, entre elas, por exemplo, o diminutivo carinhoso de alguns verbos no infinito ou no gerúndio: estarzinho, fazer dormezinho, dóizinho de quem está longe, fez querzinho de experimentar corpo, você está com um fedendinho de cachaça na boca.
Esse é um idioma, pode-se dizer, escrito a lápis de cor. Quase infantil. A ternura de raças em lá-menor manifesta-se em formas próprias, em palavras com íntimas ressonâncias.
O surrealismo brasileiro está aí, livre, desgovernado, fundando sílabas novas, com uma frescura primitiva. É preciso apenas sensibilidade para senti-lo.
* * *
Numa visão de conjuntos — 180 graus de panorama nacional — a gente se dá conta que o Brasil, com elementos que entraram na sua composição étnica, é radicalmente diferente. Portanto as suas expressões de cultura têm que ser também diferentes.
Não era possível um ajustamento com o que existia. Continuar de mãos dadas com uma literatura ciosa de guardar os "santos óleos" do idioma, com uma casticidade de além mar, não era possível. Foi preciso um movimento novo, arrancado da terra, com sabor da terra, para advertir-se da realidade brasileira. Acabar com um verbalismo vazio de formas acadêmicas e com "anfitrites" de importação. Mostrar um Brasil novo, sem imitação, dessumbigado e livre, vivendo suas paisagens em cores próprias:
Florestas aos empurrões.
Água como é teu nome?
Vinha bebendo o meu caminho
Mas o mato me entupiu.
Agora estou com o útero doendo, ai, ai
Grita sozinha lá adiante, dentro do mangue,
Uma setiquára, quára, quára.
A literatura que nos vinha da Europa (refiro-me já se vê às épocas normais, d'avant-guerre) não podia de modo algum concordar com o paladar brasileiro. A paisagem e o homem do outro lado do Atlântico são diferentes. Os hábitos são diferentes. Florestas plantadas. Geometrizadas. Árvores brincando de somar: dois e dois. Tudo medido. Calculado. Águas obedientes. Plantas contratadas a prazo fixo. Tanto de fosfato e de nitrato tem que dar tanto de produto. Vegetações medrosas chocando em casinhas de vidro, com medos das geadas.
No Brasil não há disso. A terra briga com o homem. Vem o sol, queima tudo. O rio incha, leva tudo. Daí um certo respeito às forças cósmicas.
Quando houve há tempos uma epidemia no Ceará, o padre Cícero mandou toda a gente, soltar foguetes pra espantar os micróbios. O Nordeste parecia uma festa. O mais curioso é que tudo deu certo.
O Brasil é mesmo uma terra com soluções de milagre. Certa ou não, há em tudo isso uma ingenuidade gostosa. O literato é que não sabia acertar.
(Trecho de um conferência na Southern California University — Clube de Português)