Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

Dizem que...

Aluísio de Almeida

Há dias sem vento, ou de brisas, apenas. Há horas sem ventos: as horas mortas do dia e as horas mortas da noite. Quanta poesia! Ao meio-dia — horas mortas. Tudo pára, nem um sussurro, quietas as folhas, a natureza faz uma pausa. Nas matas silenciosas os animais de asas e de pêlo, os insetos e os vermes se calam. Não é indicado entrar então na floresta. Ouve-se: zás! zás! zás! é o saci que está puxando cipó das mais altas árvores, e aquele barulho é inconfundível a qualquer roceiro. Ele próprio, o saci tentador, pode pedir-vos fumo e foge, visível, à beira do caminho, ou invisivelmente cavalgando o vosso pescoço: pode com uma perninha só ir batendo-vos sobre o coração, donde brotam os maus pensamentos. Uma hora depois, infalivelmente, vem uma brisa, do lado do vento dominante.

Meia-noite! Horas mortas da noite. É a hora do mistério. Alguma coisa se foi, ficou atrás no caminho de nossa vida, e começa outra. Os seres racionais e irracionais se impregnam de respeito. Nem o trilar dos grilos se percebe. Até o galo, relógio noturno que marcara as onze horas se calou e voltará a cantar pela "uma-hora". Os outros barulhos também se calam um instante: o homem do planalto não se refere ao mar, mas lembra as cachoeiras que ribombam eternamente no seio das matas ou à beira das cidades, como Piracicaba e Salto de Itu, e diz que elas emudecem. São as horas mortas da noite, silêncio que Deus dá.

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O pica-pau que se ouve martelando as árvores com o bico — tan-tan-tan — e, precedendo essa martelação, um prrr — é uma ave lendária. Pelo jeito das batidas, os homens e as mulheres de fora ficam sabendo que a dona da casa está grávida. É um denunciador.

Ele há de ficar no fim do mundo sozinho, a picar as árvores. Então, todos os homens, maridos e filhos, segundo os livros santos, hão de ter ido para as guerras finais. Saudosas, as mulheres ouvirão os pica-paus e dirão: é gente que vem vindo. São eles os nossos homens. E vão ver! Que desolação!

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A codorna, que levanta o vôo e assusta o viandante distraído, é uma ave amaldiçoada, porque, quando Nosso Senhor Menino ia em fuga para o Egito no colo de Nossa Senhora, assustou o burrinho e os viajantes sagrados foram para o chão.

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Beija-flor que entra pela casa a dentro, se verde é esperança; branco, alegria; preto, é luto.

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A coruja que tem duas pontas de rabo mais compridas em forma de tesoura, anuncia morte. Se passa cortando mortalha pelo telhado, à tarde, chamam-na corta-mortalha.

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Um bicho-preguiça estava debaixo de uma embaúba que dá umas frutinhas em cacho, como bananinhas, muito apreciadas por ele ou ela, pois se diz também a preguiça. Então, foi subindo devagarinho. Nessa longa viagem, sete vezes a embaúba floresceu e deu frutos. A preguiça agarrou o cacho, mas caiu com ele e morreu. Depois de sete anos de sacrifícios! E disse, ao morrer: o diabo leve a pressa!

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O padre Galvão, de Piracicaba, era amante de boas caçadas. Sabia chamar um macuco pelo pio, que era uma perfeição.

Um dia que ele saiu pelo mato com um amigo fazendeiro, a horas tantas começou a piar. Além outro macuco respondeu. O padre foi andando na direção deste, espingarda carregada, olhando para o alto. O amigo, junto. De repente, atrás de um jequitibá, o fazendeiro enxergou uma pintada. Imediatamente atirou, a bicha deu um pulo e foi morrer adiante.

O fazendeiro salvou, talvez, a vida do padre, que ia olhando a copa das árvores. A onça remeda macucos, para os pegar de traição.

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Havia um pescador, num desses rios grandes por aí, que era tão fanático a ponto de lhe acontecer o seguinte caso. Ele ia na canoa, de rodada. Pegou tanta piranha que acabou a isca. O homem ficou com pena de largar da pescaria. Então ele botava um dedo da mão dentro da água. A piranha chegava e o agarrava. Ele puxava a mão e a piranha e, zás! dentro da canoa. Punha outra vez o dedo à flor da água, vinha outra piranha, ele puxava-a e zás! dentro da embarcação. Homem! quando chegou ao pouso, tinha-se regalado de pegar piranha, mas o dedo era só um toco e foi preciso botar arnica sem dó. Ota! Corajudo!

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Quem chorou no ventre materno — e dizem que isso pode acontecer dois meses antes do nascimento — será grande cantador ou domador ou feiticeiro; enfim, brilhará naquelas ocupações que mais encantam o vulgo, porque são uma partilha de poderes de várias espécies nem a todos concedidos. Parece haver aí uma reminiscência de São João Batista, que se mexeu nas entranhas maternas e foi profeta.

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O que teve a desgraça de ficar doente do mal, o melhor que tem a fazer é afundar no mato e passar a carne de onça sem sal. Ou andar pelo campo no tempo dos cajus e passar só com eles, até sarar. Abraçar e beijar uma criança. Dizem que sara.

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A rainha das frutas é a uva: o rei dos alimentos, o trigo e o rei das madeiras, o cedro. Das frutas é a uva a rainha, porque dela se faz o vinho, que na missa se converte no sangue do Senhor. Dos alimentos, o rei é o trigo, porque dele se faz a hóstia, que na missa se transforma em Nosso Pai. Das madeiras, é rei o cedro, porque dele se faz a santa cruz de Jesus Cristo, que se ergue nos caminhos. Isto não é inventado. É uma tradição oral belíssima, que nunca vimos nos livros.

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Galinha que canta como galo é agourenta para o dono da casa. Ele desmancha o agouro, cortando a cabeça dela para jogar ao telhado.

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Árvore que passa à altura da casa indica a morte do dono.

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Quem faz casa nova para morar sendo já velho, morre logo. Mudanças, só três!

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Para abreviar o parto, a paciente veste a camisa e põe na cabeça o chapéu do marido, enquanto este dá três vezes a volta da casa.Para curar caxumba, friccionar o lugar afetado com a colher de pau ainda quente e gordurosa. (Oliveiras, pesquisa de dona Maria de Carvalho de Sene)

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Na Mantiqueira também se faz chá de jasmim do campo para curar sarampo. E chá de nove piolhos para moléstias várias. No sul de São Paulo, um estrangeiro fazia chá de piolhos para doenças de criança. Decerto porque o doente não era ele.

Dor de pescoço? Embrulhem-no com uma meia usada. (Mesma informante)

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Velha historieta, velhíssima.

O pobre foi pedir ao rico uma quantia emprestada. O avarento abriu a gaveta, tirou a cédula ou a moeda, mostrou-lhe e disse: — Está aqui o dinheiro, mas não lho empresto. Se você levar o dinheiro, não me paga mesmo, e ainda fica de mal comigo, e eu fico sem os meus cobres e sem a sua amizade. Então é melhor perder só a amizade e guardar os cobres.

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Para proteção da criança contra a bruxa, põe-se em baixo do travesseiro uma tesoura aberta. O aço é receita universal contra bruxedos. Corta.

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Sendo o raio, segundo os supersticiosos, um machadinho de pedra que se afunda terra a dentro e vem subindo em sete anos até a superfície, quem o fosse desenterrar seria atacado por outro machadinho.

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Bicho de pé, assunto muito popular. É o "colonio", porque perseguiu os primeiros colonos das fazendas de café. Pula que nem pulga. Gosta dos porcos, e, por isso, cuidadinho com os chiqueiros. O seu habitat é a poeira, nas taperas e paióis. Dizem que o cachorro tira com os dentes o seu bicho de pé. Aliás, essa restrição é incompleta, pois o bicho pode inserir-se em todo o corpo. Quando começa a multiplicar-se, cria rainha ou capote e faz-se uma moranga. Linguagem metafórica. Parece que o bicho persegue até as caças do mato.

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Há outra espécie de mastro de São João, o mais pobre de todos, sem a bandeira. O jeca vai ao mato e corta um pau alto e direito, desgalhado desde a forquilha, mas deixando na ponta uns ramos menores com suas folhas verdes. Pode ser um guarantã, um capituna, um chupa-ferro. No dia ou na noite de São João, ergue-o no terreiro ao som das salvas, não esquecendo de pôr no buraco em que o afirma, três ovos bons, e na ponta as três espigas de milho do ritual. Ele crê que desse jeito protege a lavoura e a criação ao mesmo tempo.

Os  três ovos põem-se também sob o mastro com a bandeira. Esse mastro é pintado e bonito. Erguido ao som de fogos, ronqueiras e salvas no terreiro do lavrador rico e ao clarão da fogueira, todos ficam olhando para a bandeira. Conforme o lado para onde ela vira, é a casa do festeiro do ano próximo. As espigas servem para de alguns grãos plantarem-se três covas na próxima roça de milho, proteção contra a ventania e chuva brava que entra só pelo canto deixado livre (do retângulo) e, dando com os outros três, faz meia volta.

A crença de voltar-se a bandeira para o lado do futuro festeiro lembra, por analogia, outras deduções do mesmo jaez. Os bugres (caingangues) do baixo Paranapanema e que entraram em contato com os brancos ainda neste século, ao enterrarem seus mortos, faziam uma fogueira. Se a fumaça subia certinha para o céu, a alma do morto para lá estava caminhando.

 

(Almeida, Aluísio de. "Dizem que..." O Estado de São Paulo. 03 de fevereiro de 1949)
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