Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

A caveira do boi

Joaquim Ribeiro

Em todas as regiões canavieiras de nosso país, persiste ainda uma velha superstição agrícola.

É muito comum nas plantações de cana encontrar-se, fincada numa estaca, uma caveira de boi.

Os lavradores de todas as partes, do Norte e do Sul, acreditam que a caveira de boi defede o canavial contra as pragas, as intempéries, o mau-olhado, enfim, afugenta todas as ameaças contra a lavoura.

A crença está generalizada, e até mesmo na zona rural do Rio de Janeiro pode ser observada.

Quando realizei, nesta cidade, com os meus colegas da Comissão de Folclore da extinta Sociedade dos Amigos do Rio de Janeiro, a primeira Exposição de Folclore Carioca, recolhi, em Jacarepaguá, uma caveira de boi que figurou no referido certame.

Os lavradores brasileiros usam-na não só nas plantações de cana como, em geral, em qualquer outra lavoura. É uma espécie de amuleto agrícola, tido como de grande eficácia.

Donde recebemos essa arraigada tradição?

Como podemos explicá-la nas suas origens?

Pereira da Costa admite, dubitativamente, duas fontes: uma oriental (onde se observa um culto de adoração ao boi) e outra greco-romana (culto de Príapo).

Tais são as suas palavras:

"Esta supersticiosa usança, se não indica reflexos do culto voltado ao boi pela sua deificação entre certos povos da antigüidade, em cujo culto, particularmente, se notam o boi Ápis, no Egito, o touro Mitríaco entre os persas, o boi de Cadmo e o touro de Maraton, sem falar mesmo na vaca Atir, adorada como deusa suprema entre os egípcios, cultos esses que espalharam-se [sic] depois por todo o Oriente; vem, talvez, de Príapo, que apesar de pertencer à classe dos deuses da impureza, segundo a consagração mitológica, era venerado entre os romanos como uma divindade suprema que tinha os poderes de prodigalizar a abundância e de afastar a esterilidade.

É assim que se via aquele ídolo tutelar dos romanos figurar nos seus vinhedos e vergéis, e particularmente nos seus jardins, encostado a uma vara que subia-lhe [sic] acima da cabeça sustentando a divindade no seu braço direito uma grande cornucópia, o corno da abundância, em cuja ampla boca se viam como que, despejando-se, flores e frutos variados, produções e atributos dos jardins e campos de plantação, aos quais, entre vários povos e, sobre todos, os romanos especialmente, essa divindade presidia.

Implantada essa supersticiosa crença dos romanos nas suas colônias, chegou às que fundaram na Península Ibérica, e daí aos portugueses de quem imediatamente nos vem o tradicional costume". (Folclore pernambucano, 1908, p.56-57)

Não me parece convincente essa exegese de Pereira da Costa.

Creio mesmo que ele desprezou o elemento essencial da superstição, isto é, a caveira do boi.

A explicação da origem deve, antes de tudo, justificar a razão pela qual persistiu o costume de conservar-se a caveira do animal. Partindo daí é que chegaremos a um esclarecimento satisfatório.

Qual o significado dessa relíquia fúnebre?

A caveira (outra não pode ser a resposta) indica o testemunho do sacrifício do animal, do boi.

Esta usança parece-nos, portanto, uma sobrevivência do vetusto rito de sacrifício de touros, rito popularíssimo entre gregos e romanos.

De fato, a documentação clássica evidencia a sua larga projeção no mundo greco-romano.

Em Homero e Virgílio colhemos comprovantes.

Lá está na Odisséia, logo no princípio do canto III:

"(...) Na praia oferenda de touros faziam
negros sem mácula ao deus de cabelos escuros, Possidon"
(Homero, sd, p.33)

E na Eneida:

"(...) À sorte eleito
O antiste Lacoon com sacra pompa
a Netuno imolava um touro ingente"
(Virgílio, 1854, p.45-46)

"(...) e um touro
Nédio imolo na praia ao deus superno"
(Virgílio, 1854, p.77)

Em Roma, o chamado Jupiter Dolichenus era representado sobre um touro, conforme se atesta numa tábua de bronze existente no Museu de Wiesbaden.

Hans Lamer, analisando este documento arqueológico, diz que o culto do touro é antiquíssimo e já era observado na civilização micenaica:

"El culto del toro y la doble hacha, como simbolo religioso se encuentram también en lá religión de la civilización cretense (2 milenários a.d. J.C.)."

Tal é o inlorme que se encontra no seu livro La civilización romana (tradução espanhola de D. Miral, p.25).

Desse culto primitivo é que surgiram os sacrifícios de touros, tão populares entre os romanos.

O culto do touro chegou à Península Ibérica e, naturalmente, sofreu, mais tarde, a influência cristã. Assim é que, no século passado, na procissão de Corpus Christi observava-se a sobrevivência do vetusto culto. Diz um documento registrado por Teófilo Braga (1885, v.2, p.294):

"Desfilam depois algumas corporações, e após, um boi, a que chamam boi bento, com as pontas douradas e o corpo coberto com um manto de damasco guarnecido de ouro".

O rito do sacrifício, pela sua crueldade, foi abolido, mas havia de deixar vestígios.

Não se podendo matar boi, surgiu a prática de venerar-se as caveiras dos mesmos.

* * *

Surge, agora, um outro problema: como e em virtude de que se fixou, em nosso mundo rural, essa usança?

Aqui temos de admitir um influxo negro-africano, o que não é de estranhar-se, uma vez que, durante séculos, o nosso trabalho agrícola obedeceu ao regime servil.

O negro escravo teve também cooperação nessa tradição popular.

O hábito de fincar caveira de boi em estacas ou troncos podados revela essa influência africana.

De origem européia, micenaica, é a noção de sacrifício do animal, consubstanciada na caveira de boi — como oferenda para benefícios.

De origem negro-africana, banto, é o costume rural de fincar bichos em troncos.

Entre os bantos existe este curioso costume, que o major português Henrique Augusto Dias de Carvalho, no valioso livro Etnografia e história tradicional dos povos da Lunda assim menciona:

"Um chifre grande, espetado no tronco de uma grande árvore, tendo em volta o terreno limpo e pisado, uma trepadeira a enlear essa árvore, e uma cabaça e uma panela suspensas de outro tronco, constitui isso também um monumento dedicado a um outro ídolo denominado Muata Calombo.

Servem eles de indicação aos caçadores peritos, pois pela sua construção, disposição, orientação e ainda por outros sinais, dão a conhecer o cognome de caça de quem o fez, o lugar onde encontrou caça, sua qualidade, enfim se viu muita ou pouca, se há água ou não perto etc." (1890, p.245)

O explorador lusitano refere-se ainda ao muhanhe, tronco, assim chamado, onde os caçadores depositam as caveiras, chifres e ossadas como troféus de suas atividades rurais.

O fincamento do muhanhe obedece a certos rituais. Assim diz o mencionado africanólogo:

"Observam-se umas certas cerimônias, no lugar emque se determina colocar um tronco de árvore grande com muitas ramificações, despido de folhagem para servir de cabide às caveiras, chifres e ossadas maiores dos animais mortos pelo caçador da povoação, quando esses animais são de grande porte.

Essas ossadas são enfeitadas com tiras de baeta, preferindo-se para isso a vermelha.

À cerimônia da muhanhe (muhane), assim se chama aquele tronco, preside o chefe da povoação e assistem todos os seus caçadores". (1890, p.245-246)

Verificamos que do negro é que recebemos a usança de fincar caveira em tronco. Essa usança confundiu-se com o vetusto culto do touro, de origem micenaica, que passou para Roma (Jupiter Dolichenus) e deixou sobrevivência em Portugal (o boi bento da procissão de Corpus Christi).

Trazida essa sobrevivência para o Brasil, em contato com os negros de nossas lavouras, fácil foi fundir-se com o muhanhe dos bantos.

Mais uma vez atestamos a fusão de tradições derivadas de troncos distanciados e remotos.

Europa: Culto do touro (Creta); Sacrifício de touros (Grécia e Roma); Jupiter Dolichenus (Roma e império); Boi bento — Corpus Christi (Portugal)

África: ídolo Muata Calombo; Rito do muhanhe (área banto)

Brasil: caveira de boi (zona agrícola)

O foclore brasileiro, na verdade, resulta de numerosas convergências étnicas.

Quase sempre as nossas tradições populares, analisadas à luz de um exame mais profundo, baseado na filiação histórica e na comparação, revelam essas múltiplas origens, aparentemente indevassáveis.

A superstição agrícola, que ora estudamos, tãopopular nas zonas canavieiras do Brasil, está nesse caso.

A convicção mística de nosso lavrador quando pendura uma caveira de boi num tronco ou numa estaca para afastar os malefícios dos canaviais, por certo, pouco difere da crença que, há milênios, inspirava cretenses a cultuar o touro ou os negros de Lunda a reverenciar o Muata Calombo nas selvas da África.

O dom de acreditar parece ter algo de eterno, pois desafia os séculos e a própria civilização.

(Ribeiro, Joaquim. Folclore do açúcar. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Nacional, 1977, p.119-124)
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