O teatro de bonifrates supria, no século XVIII, entre nós, a deficência de palcos e casas de espetáculos. Era uma ingênua diversão do povo.
Explicando a sua existência, se outros documentos não possuíssemos, bastaria a recordação da Ópera dos Vivos, de que nos fala Vieira Fazenda, e cujo título parece recordar que o elenco de tal ópera menos era de títeres que homens, mais de vivos atores que de imagens.
Por certa documentação por nós compulsada em Lisboa, chegamos a compreender a existência de três grupos distintos desse curioso teatro de bonecos no Rio de Janeiro, pela época dos vice-reis: o grupo que se pode chamar de títeres de porta, improvisado espetáculo vivendo apenas do óbulo espontâneo dos espectadores de passagem, o dos títeres de capote, ainda mais rudimentar que o primeiro, embora mais popular e mais pitoresco e, finalmente, o dos títeres de sala, este último já em franca evolução para o teatro de personagens vivas e com ares gentis de pátios de comédia.
Vamos encontrar em ruelas afastadas do centro, freqüentadas pela escumalha das ruas, os teatróides do primeiro gênero.
Cá está um. É uma porta escancarada, onde uma colcha de cor escandalosa se coloca latitudinalmente a dividi-la em duas porções distintas. Na parte superior, que é um vão, forma-se a boca de cena, aberta, sempre, ao boneco que aflora e que gesticula animado pelas mãos de um homem escondido e que, com o indicador, move-lhe a cabeça, e, com o polegar e o mínimo, os bracinhos nervosos. Não há cenário.
Na parte inferior está a coxia com os seus sobressalentes de bonecos, contra-regragem completamente fechada aos olhos do público.
Aquem soleira, o indefectível cego da sanfona ou da rabeca, zurzindo a corda desafinada do instrumento. Ao solo, em função discreta, a larga escudela das receitas, mostrando, ao fundo, sempre, uma moeda de prata nova, posta pela mão do empresário desejoso de encorajar a generosidade do transeunte.
A platéia pode ser curta, mas é sempre atenta e generosa. E não se compõe apenas, como talvez se pense, da massa vagabunda de ambulantes e de escravos, boquiaberta, toda ela, à espera da bexigada final que os há de fazer arrebentar de rir. Há muita gente de meia de seda e de óculo de punho de ouro, que também para e goza a ingenuidade do espectáculo, não esquecendo de escorregar a sua contribuiçãozinha.
Os títeres de capote, que eram ambulantes, andavam pelas feiras, pelos adros de igreja, em dias de festa e por lugares de movimento maior.
Há Te-deum em São Bento? No adro da igreja necessariamente, haverá, pelo menos, um desses teatros de improviso, entre os mendigos e as negras vendedoras de cuscuz, de aluá e de laranja.
Curioso, porém, é ver a boca de cena dessa ópera improvisada, feita pelo próprio empresário com o panejamento amplo do seu capote, traçado de ombro a ombro, em linha horizontal, de tal sorte formando o campo necessário à movimentaçãodo boneco.
Escondido na pregaria da capa, que tomba até os joelhos do homem-palco, está um guri que dá à personagem de pano e massa o movimento necessário.
O homem-palco é ao mesmo tempo, homem-orquestra, pois que, com os dedos, repinica a viola da função, que o capote nem sempre dissimula.
Deixemos, porém o adro de São Bento, que os melhores títeres estão na parte baixa da cidade, e não são diurnos como os primeiros. A sombra da noite, felizmente, desce. Tomemos em Santa Rita a linha da rua da Vala e desçamos como quem vai à Carioca.
Ali, à rua do Cano, quase ao chegar à casa do sargento-mor Albino dos Santos Pereira, comandante do quarto terço de infantaria dos pardos libertos, está uma casa de cimalha, saliente, com o seu vetusto telhado acaçapado e feio, mostrando de um lado o indefectível óculo de cruzeta de ferro, e, de outro lado, uma porta larga, desenhada em curva, pelo arco de ressalva e de onde uma lanterna de azeite se dependura, soltando no ar um penacho largo de fumo, conseqüência e vício de uma torcida gasta ou mal cortada.
É uma ópera de títeres, recém-montada, sala de fantoches, teatro de bonecos.
À ombreira da porta do lado direito, o tricórnio sovado sobre uma cabeça encanecida e triste, pára um cego tocador de rabeca, arrancando às entranhas do instrumento esvanecido os compassos de um minuete que plange. À esquerda, o homem incumbido de vender os lugares, o cobrador, todo metido numa indumentária de pompa e escândalo, um largo varapau enfitado na mão grossa, ora recebendo as moedas da entrada, ora, em voz rouca, muito sério, apregoando o valor da ópera nova que se espeta no cartaz.
Para ouvir os guinchos da rabeca, o poviléu, junto, se acotovela: são praças livres dos terços auxiliares, de fardão azul e negro e polainas de seis botões, arrogantes e vozeirudas, mestiços de chapéu chamorro derreado sobre o ombro e capote de embuço cingido em panejamentos complicados, frades, dos que cheiram tudo, de nariz aceso a copázios do bom tinto, hipocritamente a chocalhar os rosários de jacarandá, mendigos escravos arrastando as suas elefantíases, mal arrimados em precárias muletas, marinheiros, meirinhos, ciganos, gente de condição melhor, de ar importante, as mãos nas algibeiras esbeiçadas das véstias de pano pobre, gozando o minuete, alegrando-se com a luminária, comprazendo-se, enfim, com o ver entrar os felizardos que, de quando em quando, desovados daquela massa colorida e compacta, passam pelo homem do varapau vistoso, largando a sua meia pataca da entrada e desaparecendo logo, atrás de uma cortina vermelha e suja que separa o vestíbulo da sala de espetáculos.
Súbito, vindo das bandas do Terreiro do Paço, uma serpentina que chega em marcha suada aos gemidos compassados de dois negros, que estacam em meio à rua estreita, diante da porta da Ópera, fazendo a patuléia virar-se toda, curiosa.
A cadeirinha de luxo é pousada de leve. Que a carga é preciosa. A besta humana, aliviada, resfolega.
Abre-se, então, um sulco entre o poviléu para deixar passar o figurão, que já rasgou a cortina do veículo.
Ninguém mais indaga quem seja porque todos logo o reconhecem. É o sr. tesoureiro-mor da Mesa Grande do Juízo da Alfândega, velho amador de bonifrates, que, vestido de seda, tresandando a água de Córdoba, o rosto coberto de sinaizinhos de tafetá, vem para o novo entremez, do qual um seu colega do Juízo da Balança falou como sendo obra muito de ver e de gozar.
Os soldados dos terços auxiliares perfilam-se, os mestiços dão de ombros, os frades se encapuçam, enquanto as mãos lívidas dos mendigos se estendem para que nelas também tombe o vintém de sua mercê.
O grande funcionário rompe a massa e enfia pela casa de espetáculo, largando na manopla do porteiro, que dança uma cortesia de mergulho, a moeda da tabela.
Vamos seguir o sr. tesoureiro-mor da Mesa Grande do Juízo da Alfândega, que já penetrou na sala da Ópera, com as suas paredes brancas e tristes, apenas marcadas a negro, de espaço a espaço, pelo fumo das lanternas de azeite que ardem em torno, lançando sobre a face do auditório um clarão amarelado e baço. O ambiente não agrada. A água de Córdoba do tesoureiro não consegue minorar o bafio nauseante que se espalha pelo ar, hostil à pituitária delicada, bafio insolente e que já pelo tempo se chamava — cheiro de natureza...
Em face aos espectadores está armado um palco minúsculo, onde marionetes de 30 a 50 centímetros devem mover-se em cenários de papel.
O varapau enfitado do cobrador anuncia, a bater ruidosamente no solo, que vai começar a ópera do anúncio. Já se fecharam as portas da rua e o cego da rabeca, no recinto da folgança, recomeça, no seu desafinado e lúgubre instrumento, o minuete tristíssimo.
Faz a rabeca a ouverture. Cala-se depois. Segue-se um silêncio profundo, apenas interrompido pelo plic plic das tabaqueiras que se fecham e pelo assoar discreto de algumas bicancas besuntadas de rapé.
Numa folha de papel, pendurada à guisa de cartaz, lá está o nome da peça:
O desespero de dona Brites que perdeu na festa da Glória as suas anquinhas de arame ou a escola das noivas secias. Incisan joco-séria anatômica e crítica por Pantufo Gabinda.
O título é, no entanto, menor que o destempero dramático. As três pancadinhas do estilo para o sinal do pano e o homem do varapau que solta um psiu prolongado para que se calem, de vez, os ruídos das tabaqueiras e narizes. Silêncio! Obedece-se gostosamente ao homem do varapau. Pano ao alto. Já é a peça.
O cenário de papel recorda o largo do Carmo. Vê-se o chafariz à beira-mar, o casarao do Teles, o palácio vice-real e a baía, ao fundo. Surge dona Brites, seguida do moleque Cazu. Atrás dela, dona Sancha, a mamãe, e o casquilho Vaporim. Os bonecos vestem de pano, têm a cabeça de papelão, movendo os braços de madeira articulados por molinhas de ferro.
A boca de cena do teatro é marcada, de alto a baixo, com arames verticais, paralelos, de modo a esconder ou confundir as linhas que movimentam os fantoches em função.
O entremez desenrola-se ao agrado da platéia. Os espectadores riem, gozam as pacholices do moleque, os arremessos da velha e os dengues afeminados de Vaporim. Só o homem do varapau de ar amofinado e gasto, é que não goza. Embotou-se. Súbito, aparece um frade. A platéia gargalha. Surge depois dele o fidalgo pobre da pragmática. A platéia exulta. Dona Brites, finalmente, perde os arames da saia. Aí a sala quase vem a baixo!
O capitão José de Oliveira Barbosa, da Academia de Geometria, confessa a um cavalheiro, que lhe fica ao pé, que jamais vira peça tão engraçada. O outro nem lhe pode responder, a palavra estrangulada na garganta por uma convulsão de riso. É um desafogo insólito de gargalhadas gostosas, um contorcer unânime de diafragmas, um júbilo histérico e escandaloso, que chega até a impressionar o homem do varapau enfitado, ali mais para os efeitos da receita que para gozo de uma peça, quiçá por ele próprio escrita e ensaiada.
E, com mutações de cenário, a farsa continua até a cena final, onde dona Brites entra na posse da anquinha que o peralta descobre e dona Sancha, amolecida pela galanteria do jovem, cede-lhe a mão da filha, que desmaia. É quando o cego da rabeca, então, numa ária que recorda os cantares dolentes dos cafuzos da terra, faz de novo, a rabeca gemer angustiosa, acompanhando o vozeirão atenorado do empresário, que precipita o final com uma toada lírica que muito agrada:
Deixa que eu morra
Desta ferida
Que é melhor vida
Morrer por ti
Se me desejas
Da morte isento
Pois só me alento
Com o ver-te aqui
Como não há entremez sem pancadaria, para acabar a peça entram as bexigadas. A turba, de alma feliz e confortada, gargalha, aplaude. E o pano desce lentamente. Afasta-se a cortina vermelha e suja da porta de saída, por onde se vai escoando a massa espectadora. A todos agradou imensamente a incisan. A todos? Não. O tesoureiro-mor da Mesa do Juízo da Alfândega, conhecedor, a fundo, não só de óperas de bonecos como das óperas de vivos, deu por mal paga a sua peça. Sua mercê não gostou. As razões explica-as ele ao homem do varapau antes de sair, metendo o espadim de cerimônia sob o capote a negligé:
— Mau de todo esse Pantufo Cabinda, que melhor fora fazer presepes a entremezes. A peça é chula. Os cenários péssimos, quando o Muzzi, por aí, fá-los como ninguém. Coisa fraca, vulgar.
E enfiando pela narina vasta uma bolada de rapé:
— E os versos? Os versos, homem, todos eles surrupiados às peloticas do Antônio José... Uma moeda perdida!...