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Barba-Ruiva

Alfredo do Vale Cabral

Ilustração de Marcos Jardim Homem encantado que vive na lagoa de Paranaguá, da vila do mesmo nome, ao sul da província do Piauí. É alvo, de estatura regular, os cabelos avermelhados, de tempos a tempos sai a aquecer-se ao sol e deita-se na areia à margem da lagoa. Quando ele sai da água mostra as barbas, as unhas e o peito todos cobertos de lodo e limo. Em outro tempo ele costumava aparecer freqüentemente, e muitas pessoas tiveram ocasião de se encontrarem frente a frente com ele, o que era logo sabido por todos os habitantes da vila, que, cheios de assombro, narravam o fato de boca em boca. Todos temem o Barba-Ruiva, como um ente encantado, mas é inofensivo, pois não consta que ele fizesse mal a alguém, apesar dos constantes encontros em terra.

Muitas vezes algumas pessoas que iam tomar banho ou simplesmente passear nas margens da lagoa, encontravam-se com o Barba-Ruiva e, tomando-o por outra pessoa, dirigiam-lhe a palavra; se era homem, o Barba-Ruiva não dava resposta; dirigia-se lentamente para a lagoa e desaparecia nas águas. Compreendiam então que falavam com um encantado; aqueles que tinham um pouco de coragem corriam para a vila a noticiar o caso, e os que eram medrosos aí mesmo caíam sem sentidos. Se era, porém, mulher, que se dirigia para a lagoa, o Barba-Ruiva ocultava-se para que ela se aproximasse sem receio e, logo que ela estava perto, atirava-se sobre ela, não com o fim de ofendê-la, mas de abraçá-la e beijá-la. Por isso não há mulher que queira ir sozinha à beira da lagoa.

A história da origem do Barba-Ruiva é conhecida em quase todo o sul do Piauí. O meu amigo sr. João Lustosa Paranaguá, natural da localidade, que ouviu falar por muitas pessoas nessa origem, porém, mais minuciosamente, por uma velha de nome Damiana, escreve-me a narração que dela ouviu:

"Não está vendo esta lagoa? Pois bem, é encantada e algum dia ela há de crescer tanto, que encobrirá toda esta vila e todos nós morreremos afogados. Antigamente não havia esta lagoa, em seu lugar era uma imensa mata de carnaubeiras, cortada por um riachinho. A água que a gente daqui bebia era tirada de cacimbas, cavada à beira do riacho. Numa ocasião, uma moça, tendo ido buscar água nas cacimbas, inesperadamente deu à luz a um menino, que, por não lhe convir que sua mãe soubesse e não conhecendo o amor materno, atira desapiedadamente a pobre criança em uma cacimba cheia d'água. Isto foi bastante para tornar aquele lugar encantado; logo no outro dia, as águas do riacho tinham crescido tanto que já encobriam todas as cacimbas. Em menos de uma semana aquela mata de carnaubeiras tinha sido substituída por aquela lagoa, que ameaçava de uma hora para outra engolir toda a vila, assim como já tinha engolido uma parte. Logo nos primeiros tempos era horrível a vida naquele lugar, principalmente para quem vivia perto da lagoa, porque durante a noite ouvia-se um barulho infernal saído do fundo do lago; ora era o ruído de pratos, uns contra os outros, ora o relinchar de cavalo e tudo isto acompanhado do choro de uma criança. Muitos anos depois, apareceu pela primeira vez um homem saído da lagoa, que, pela cor avermelhada de seus cabelos, apelidaram-no o Barba-Ruiva. Conheceu-se então que é o filho daquela mãe desnaturada, que o atirou na cacimba, e que foi ele o gerador daquela lagoa encantada."

O dr. Gustavo Dodt na sua descrição dos rios Parnaíba e Gurupi, publicada no Maranhão em 1873, tratando da lagoa de Paranaguá, diz que ela ganha todos os anos mais terreno e que, segundo dizem, antigamente se achava uma vargem, onde atualmente ela se encontra; e depois de descrever o fenômeno que deu origem à fama de ser a lagoa encantada, fenômeno que é conhecido na África e Ásia sob o nome de Fatamorgana, acrescenta: "Explica-se deste modo, facilmente, que se tem visto a lagoa e a vila longe do seu lugar no meio de uma chapada, ou em outras ocasiões a lagoa no lugar da vila, ou esta na lagoa etc. A propensão do povo para o milagroso e a falta de conhecimento para poder achar uma explicação satisfatória do fenômeno fizeram pô-lo em relação com uma tradição antiga, que se refere a um infanticídio, e faz vagar pela lagoa a criança assassinada na forma de um velho com barbas brancas e assentado em uma vasilha de ouro. Já estava quase caída em esquecimento essa tradição, que uma vez tinha produzido tanto medo que grande parte da população se retirou da vila, quando ela reviveu no ânimo do povo e causou um susto extraordinário por um fato que se deu em 1854, e que me seja lícito relatar em poucas palavras. João de tal, conhecido como homem sério e incapaz de mentir, foi tomar banho na lagoa pelas duas horas da tarde de um dia, em que um sol abrasador e a falta de toda a viração tornava o calor insuportável. Escolheu um lugar onde uma gameleira frondosa oferecia uma sombra densa na margem da lagoa e assentou-se onde a água mal lhe chegou até o peito. Como logo começou a deitar água na cabeça, abaixou ele esta e não viu o que estava diante de si. Tanto maior foi o susto, quando erguendo a cabeça viu em sua frente um homem assentado como ele na água com os cabelos e barbas brancas que o olhavam. Levantou-se e correu para a vila sem lembrar-se que estava sem roupa alguma, pois veio-lhe à mente aquela tradição antiga, a que já aludi, e embora que não visse senão a miragem de si mesmo como em um espelho, deu sua fantasia a esta e todos os traços que a lenda exige e isso com tanto mais facilidade como a miragem naturalmente se mostrava pálida e embranquecida".

(Cabral, Alfredo do Vale. Achegas ao estudo do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Fundação Nacional de Artes, 1978, p.28-30)
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