Até há pouco tempo, em Cunha, era no dia 7 de outubro que se realizava umas das mais linda cerimônias afro-brasilico-católica-romana: a coração do rei congo do Brasil. Com a libertação dos escravos, não havendo necessidade de eliminar o atrito entre brancos e negros, essa cerimônia foi perdendo o interesse e hoje desapareceu. (Em Guaratinguetá ainda é realizada tão linda cerimônia, porém no dia de São Benedito, na segunda-feira após a Semana Santa e é chamada de festa de São Benedito, portanto com data e nomes alterados.
O mês de outubro no agiológio da Igreja Católica Romana é dedicado ao Rosário, à padroeira das Irmandades de Homens de Cor, que é Nossa Senhora do Rosário, e no 7 dedicam-lhe festas especiais, havendo o festejo da coroação do rei congo, somente nas cidades que ainda guardam essa tradição.
O viajante que sobe de Guaratinguetá à Cunha, logo na entrada da cidade serrana, na rua principal, do lado esquerdo, depara com a igreja de Nossa Senhora do Rosário, atualmente meio abandonada, pois os novos santos é que têm igrejas novas e concorridas. O seu aspecto vestuto nos impressiona agradavelmente. No altar-mor, está a imagem de Nossa Senhora do Rosário — e mais ou menos no meio do templo, à direita, está o altar de Santa Cecília — padroeira da música (por isso os pretos são musicais até no próprio andar) e, defronte dessa linda imagem, a de São Benedito, o santo de cor, que deixou para os negros uma das diversões rítmicas mais atraentes, por ele mesmo criada — a dança de moçambique — segundo afirmam os moçambiqueiros.
Nessa igreja, até bem pouco tempo, eram realizadas as festas tradicionais e populares, dedicadas à Nossa Senhora do Rosário, tendo como fecho dos festejos a coroação do rei congo. Estas festas não mais foram realizadas, pelo que soubemos, devido aos seguintes motivos: o novo padre, que era estrangeiro não quis mais realizá-las e por isso proibiu-as; após a Revolução Constitucionalista de 1932, vieram algumas pessoas estranhas morar em Cunha, as quais por desconhecerem essas tradições, delas zombavam; mudaram-se muitas pessoas; morreram também muitos negros velhos, grandes animadores e devotos fiéis; por fim, o pai da pessoa que nos forneceu estes dados, um dos mais entusiastas festeiros, e por isso diversas vezes rei, faleceu. A informante, sra. Rita de Cássia Veloso, mostrou-nos os velhos guarda-chuvas reais, os forros de veludo, o dossel e as coroas reais. Esta senhora, depois da morte de sua progenitora, por diversas vezes desempenhou o papel de rainha.
Na festa de Nossa Senhora do Rosário, os personagens principais são: rei, rainha, juiz da vara, "juíza" da vara, juiz do ramalhete, "juíza" do ramalhete, capelão do mastro, alferes da bandeira. Os pagens são os membros da irmandade de Nossa Senhora do Rosário que, em serviço, trajam-se com opa. Ao finalizar a festa, aparece um novo personagem, o rei novo, com os demais cortesãos.
O rei veste-se de terno preto e uma faixa rosa a tiracolo. Rosa é a cor da fita de Nossa Senora do Rosário. O distintivo real é uma faixa de quatro dedos de largura. A rainha veste-se de branco ou rosa e traz um diadema na cabeça. Os juízes vestem-se de roupa comum, geralmente de preto, porém, não levam faixa. O capitão do mastro e o alferes da bandeira também mostrou-se com roupa comum, porém caso o alferes seja da irmandade, pode vestir opa. Os juízes vão ao lado do rei, e as "juízas" ao lado da rainha.
As coroas do rei e rainha são feitas de arco de barril pintado com purpurina. A do rei recoberta com papel dourado; a da rainha, com papel prateado. A do rei é bem maior do que a da rainha, mais bem trabalhada e mais enfeites — substituíram a de prata (do rei) e de ouro (da rainha) que desapareceram misteriosamente, há mais de 30 anos. São conduzidas em salvas de prata portuguesa.
Antes da festa, na última reunião da irmandade, que é presidida pelo pároco, é feito o sorteio do novo rei, que por sua vez escolhe seus juízes, capitão, alferes e criadagem, participantes todos estes de seu séquito real. O novo rei somente aparece no final dos festejos, cabendo ao rei que está em "exercício", realizar os festejos por ser o festeiro. Dão lhe o nome singular de rei velho.
O rei velho com a rainha fazem a casa da festa, esmolam com a bandeira de Nossa Senhora do Rosário. Estes pedidos de auxílio são feitos sem música, como soe acontecer naquela cidade por ocasião das outras festas: a do Dívino Espírito Santo e a da Natividade. Vão apenas com a bandeira "escoteira" e pedem esmola de casa em casa.
Ao dealbar do dia dedicado à Nossa Senhora do Rosário, há salva de 21 tiros; soltam foguetes; e a banda de múica percorre as ruas da cidade, fazendo alvorada. A alvorada consiste em toque de música da corporação musical, ou grupo de foliões com violas, adufe e triângulo, como no dia da festa do Divino. Porém, nesta festa, o característico da alvorada é o toque da banda, que percorre as principais ruas da cidadezinha adormecida entre as brumas da serrania, acordando o povo com alegres músicas de dobrados festivos.
Às 10 horas, realiza-se a missa solene, à qual comparecem rei, rainha, juízes e "juízas", capitão do mastro, alferes da bandeira e todo o séquito real. Os juízes e as "juízas"da vara e ramalhete, capitão do mastro, alferes da bandeira e pajens vão à casa do rei, juntamente com a banda para conduzirem suntuosamente o rei e a rainha à missa solene. Os pajens sendo da irmandade, vão de opa. rei e rainha possuem dois pajens cada; os juízes e "juizas", somente um. Os pajens abrem seus guardas-chuvas e cobrem aqueles a quem servem. O rei e a rainha vêm debaixo de dois guarda-chuvas, pois cada um tem o privilégio de ter dois pajens. Isso também os distingue. Os guarda-chuvas da rainha são de tafetá branco (antigamente, esses guarda-chuvas vinham de Portugal por Parati). O séquito em procissão é acompanhado pela banda de música, que vem executando alegres dobrados. O rei recebe esta homenagem de seus servidores tanto na hora da missa solene, à qual deve chegar 10 minutos antes de começar, como também à tarde, na hora da procissão.
O cortejo atravessa a cidade desde a casa do rei velho até a igreja. Ao chegar à porta, o padre os recebe, e os abençoa com água benta e benze as coroas, que estão nas salvas conduzidas pelo rei e pela rainha, enquanto os coroinhas queimam o incenso nos turíbulos baloiçantes. Ao se aproximarem do altar, entregam aos pajens suas coroas, as quais as depositam em uma mesa, coberta com toalha de veludo de franjas douradas, entre dois círios acesos. Acabada a missa, novamente os fâmulos retiram de cima da mesa as coroas e restituem-nas reverentemente aos seus amos.
Durante a missa o rei e cortesão ficam do lado esquerdo da nave, e a irmandade fica assentada em duas fileiras, no centro do templo, com as tochas acesas, que ficam, após a missa, guardadas na sacristia.
Toda, irmandade acompanha o rei até sua residência, onde almoçam. Há comidas e bebidas em abundância na casa da festa.
Chegando o séquito bem em frente à casa do rei, a banda toca uma música bem alegre. Em seguida, os pajens escancaram as portas e janelas da casa da festa, tomam as coroas e depositam-nas sobre uma mesa coberta por um dossel de enfeites dourados e prateados, entre duas velas acesas. Ali ficam enquanto transcorre o almoço opíparo.
Nas casas dos juízes do ramalhete e vara também são oferecidos doces, bebidas e café ao povo. Eles mesmos não estão presentes por estarem almoçando com o rei. Os seus familiares é que se encarregam de servir os amigos e visitantes.
Acabado o almoço, os convivas deixam a casa da festa e vão preparar-se para a cerimônia do levantamento do mastro. Este mede de 7 a 8 metros, apesar do que não é muito pesado. Lavrado, é todo ele enfeitado de fitas e papel de cores. É ofertado pelo capitão do mastro. A bandeira, que o encima, é oferta do alferes da bandeira.
A cerimônia consta duma passeata com ele, que vai carregado por oito homens da irmandade, pelas ruas por onde passa a procissão. À frente dele vai a bandeira de Nossa Senhora do Rosário, levada por quatro meninas vestidas de branco.
Depois de terem dado a volta pela cidade, no pátio ao lado da igreja, o capitão do mastro determina o lugar onde será fincado. Todos querem ter o privilégio de fazer o buraco, que é, de 3 palmos de profundidade. Precisa o capitão estar dirigindo, determinando a vez de cada um para cavocar. Feito o buraco, colocada a bandeira no topo pelo alferes da bandeira, é ele levantado. A banda de música toca um dobrado, soltam uma salva de 21 tiros, muitos foguetes, rebenta a "bateria", repicam os sinos. Do topo do mastro descem fitas brancas e rosas, e doze meninas tomam-nas pela ponta solta, dançam ao som da música, enrolando-as nele. É um belo espetáculo rítmico, cheio de delicadeza. As meninas, saltitantes, entrecruzando-se, uma passando ora sob a cabeça da outra, ora sobre, com a fita. Vão até enrolá-las todas no mastro. É a dança das fitas. Antiqüíssima dança ariana, pagã, da árvore de maio, o milenar maypfosten.
O repique do sino também é um sinal de que devem reunir-se para a procissão. Trazem o rei e a rainha, como fizeram por ocasião da missa. Para lá seguem os juízes e "juízas" da vara e ramalhere, o capitão do mastro, o alferes da bandeira, os pajens e a banda de música.
O rei chega com seus cortesãos cinco minutos antes de ter início a procissão. Organizada esta pelo vigário, sai, tendo à frente o andor de São Benedito; mais ou menos no meio vai Santa Cecília e, por último, Nossa Senhora do Rosário. Atrás deste último andor, vem o rei, com seus criados segurando seus guarda-chuvas, os juízes do ramalhete e vara, o capitão do mastro, o alferes da bandeira e, atrás do séquito real, o padre com o pálio e o Santo Lenho. A irmandade de Nossa Senhora do Rosário forma como que um cordão de isolamento desde o andor de Nossa Senhora do Rosário até ao padre, separando, portanto, o rei e os cortesãos. Atrás do padre vem a banda de música e atrás desta o povo. Na missa, o rei novo não acompanha o rei velho, porém, na procissão o rei novo faz corte ao rei velho. A procissão faz volta pelas principais ruas da cidade. A entrada da procissão na igreja, depois de ter passado pela cidade, é feita respeitosamente. É grande o interesse em arranjar um bom lugar para ver a coroação. O rei velho toma o mesmo lugar em que estivera por ocasião da missa. O padre faz um sermão sobre o Rosário e lança a bênção sobre a procissão.
Tem lugar, então a coroação do novo rei. Rei velho e rei novo ao mesmo tempo ajoelham-se numa almofada em frente ao padre. O rei velho tem em suas mãos uma salva. Retira da cabeça a coroa e a coloca na salva e a entrega ao padre. Este, por sua vez, toma a coroa e a coloca sobre a cabeça do rei novo que, logo após ser coroado, retira-a da cabeça e coloca-a na salva, que está na mão do padre. O padre entrega a coroa e a salva nas mãos do rei novo. A mesma cerimônia se desenrola com as rainhas. A seguir, aproxima-se o juiz da vara, que se ajoelha em frente ao padre e entrega ao novo juiz da vara, a vara que traz em sua mão direita. O mesmo faz a "juíza" da vara. O juiz do ramalhete ajoelha-se defronte do padre e passa para o novo juiz do ramalhete, um ramalhete de rosas cor de rosa e brancas. A "juíza" do ramalhete faz o mesmo.
Terminada a cerimônia, o rei velho conduz o rei novo e todo o seu séquito até a sua casa. O séquito depois ruma para a casa do rei velho, pois esta é a última homenagem que lhe prestam. A banda de música dá a nota alegre a todas as cerimônias com seus dobrados festivos. Conduzindo o rei velho a sua casa, voltam para a do rei novo, para a festa da recepção da coroa. Os festejos prosseguem noite a dentro, havendo a dança de roda, de origem africana – o jongo.