Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 71
Outubro de 2004
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Mel de abelhas

Auguste de Saint-Hilaire

Logo após a nossa chegada José Mariano e Matias remontaram a cavalo, sem nada me dizer. Imaginei tivessem a fantasia de ir procurar os homens que se esconderam no mato à nossa aproximação e comecei a recear fossem cometer alguma imprudência. Pus-me a comer e logo os vi voltar. No passeio da véspera havíamos passado jutno a uma caixa de abelhas selvagens, suspensa, cerca de pé e meio da terra, a um ramo de arbusto; era quase oval, do tamanho de uma cabeça e duma consistência semelhante à das colméias européias. Matias e José Mariano tinham ido destruir essa colméia para tirar mel.

Comemos, os três, desse mel. Fui, segundo disse José Mariano, o que mais comeu, e avalio não ter tomado quantidade a duas colheradas. Senti logo uma dor no estômago, mais incômoda que forte e deitei-me embaixo da carruagem, com a cabeça apoiada sobre uma pasta do herbário, caindo em uma espécie de sonolência, durante a qual senti-me transportado aos espaços celestiais, ouvindo uma voz que gritava: "Ele não se perderá, há um anjo que o protege". Nesse instante, minha irmã veio buscar-me pela mão. Achava-se vestida de branco, com uma faixa ao redor do corpor e sua fisionomia trazia aparência de inexpressável calma e serenidade. Tomou-me pela mão, sem me olhar e sem proferir uma só palavra, e conduziu-me perante o tribunal de Deus. Lembrei-me das últimas palavras da parábola do Bom Pastor e acordei.

Levantei-me, mas senti tal fraqueza que não pude dar mais de cinqüenta passos, voltei para debaixo da carruagem e senti-me quase instantaneamente com o rosto banhado em lágrimas, atribuíveis à emoção causada pelo sonho acima exposto. Envergonhei-me de tal tristeza e pus-me a sorrir, mas, apesar de tudo, esse sorriso prolongando-se tornou-se convulsivo e cobri a cabeça para que meus camaradas não o notassem. Contudo, tive ainda forças para dar algumas ordens ao Firmiano; entrementes José Mariano chegou. Disse-me com ar gaiato, mas um pouco perturbado, que se achava embriagado e que há meia hora corria pela mata. Assentou-se então sobre a carruagem apoiando-se sobre a roda, convidando-me a tomar lugar a seu lado. Com dificuldade arrastei-me até lá; senti-me extremamente fraco e apoiei a cabeça sobre os ombros de José Mariano. Foi então que começou a mais cruel agonia. Uma espessa nuvem escureceu minhas vistas e não me foi possível distinguir senão o azul do céu de mistura com algumas nuvens e as sombras dos meus empregados. Caí no último grau de fraqueza e sem sofrer muito experimentei contudo todas as angústias da morte. Todavia conservei perfeitamente a lembrança de tudo o que vi e entendi; uma narrativa feita por Laruotte está conforme o que recordo.

"Há cerca de dois anos, disse eu a José Mariano, que nós fechamos os olhos de nosso amigo; ides hoje assistir ao meu último suspiro" — Estou bem mal também, respondeu-me ele, vamos morrer juntos neste deserto. Pedi vinagre concentrado e aspirei-o várias vezes, com força, sentindo-me um pouco reanimado por alguns segundos, retornando logo ao abatimento. Laruotte achava-se ausente quando comecei a sentir-me mal, mas mandei chamá-lo e ele cuidou-me com desvelo. Tinha ao redor de mim esse empregado, Firmiano, o índio peão, Matias e José Mariano; estes dois também muito molestados.

"Meus amigos, disse-lhes em português, sinto que vou expirar neste deserto, longe de minha família e de meus pais; as sombras da morte rodeiam-me; vou juntar-me a esses anjos que me incitam a segui-los. Não sou mau, nunca fiz mal a ninguém, minhas faltas perante Deus, que me perdoará, espero-o, ou talvez me punirá". Uma luta cruel mas de curta duração passou-se em minha alma. Minha mãe e meu sobrinho não precisam de mim, mas esse pobre Firmiano, que atirei nestes desertos, que será dele quando eu não mais existir? Matias, recomenda-o ao conde de Figueira; que ele nunca seja escravo de ninguém". Quis afastá-lo mas em seguida chamei-o para junto de mim e vi algumas lágrimas correr de seus olhos. "Matias, perdôo-te o mal que me fizeste. Laruotte, sabeis que minhas coleções pertencem ao Museu de História Natural; meus manuscritos devem ser remetidos à minha família".

O sonho que havia tido, logo ao início dessa crise, apresentava-se sem cessar em meu cérebro e senti-me possuído de uma força invisível para contá-lo.

Ao começar a cair nesse estado esquisito experimentei beber vinagre e água, mas não melhorando pedi água morna para ver se conseguia expelir o mel que tanto mal causara. Notei que, ao engolir, a nuvem que me toldava a vista desaparecia por instantes. Pus-me a beber grades goles, sem interrupção. Segundo me disse Laruotte devo ter bebido dezesseis pintas.

Pedia-lhe sem cessar um vomitivo; ele procurou em todas as malas, mas, atordoado pelo que se passava não conseguiu encontrar. Estando eu debaixo da carruagem não podia vê-lo, mas parecia estar a enxergá-lo e censurei sua lentidão, sendo essa a única falta que cometi durante tal agonia.

Nesse interim, José Mariano levantou-se sem que eu desse por isso, mas logo meus ouvidos foram atingidos por seus gritos. No momento achava-me melhor; a nuvem que me escurecia os olhos dissipou-se um pouco e nenhum dos movimentos desse criado me escapou. Rasgava as vestes com furor ficando inteiramente nu; tomou uma espingarda e deu um tiro; Matias arrebatou-lhe a arma e ele pôs-se a correr pelo campo, chamando em seu socorro, com todas as forças, por Nossa Senhora da Aparecida, pedindo suas armas, gritando que todo o campo estava incendiado, que as malas iam ficar queimadas e que era preciso fechá-las. O peão índio procurou segurá-lo, mas vendo que não seria bem sucedido o deixou.

Até aqui Matias não tinha cessado de me dispensar cuidados, mas, ele também começou a sentir-se muito mal. Entretanto como conseguira vomitar logo e como era de compleição robusta retomou prontamente suas forças, restabelecendo-se completamente. Laruotte disse-me depois que sua figura estivera horrenda e de extrema palidez. "Irei, disse ele repentinamente, dar aviso à guarda do que se passa aqui". Isso seria uma loucura pois estávamos a 10 léguas da guarda e já era tarde. Montou a cavalo e pôs-se a galopar no campo, mas logo Laruotte viu-o cair, levantar-se e pôr-se de novo a galopar, mas logo tornou a cair e algumas horas depois foi encontrado profundamente adormecido no local onde caíra por último.

Vi-me, ainda semimorto, com um homem furioso e duas crianças a cuidar de mim, pois Firmiano e Laruotte não podem ser considerados como homens. José Mariano deu-me as maiores preocupações. No mesmo instante pensei na possibilidade de sermos atacados pelos espanhóis e essa lembrança transtornou-me as idéias.

Quando estive pior pareceu-me ver o cão do guia que me acompanhou até ontem. Perguntando a Laruotte e Firmiano se isso tinha sido uma visão responderam-me que não, por isso veio-me a esperança do retorno de Joaquim e do novo guia; isso reanimou-me e não cessei de perguntar-lhes se não avistavam alguém chegando.

Entrementes José Mariano veio assentar-de junto de mim. Estava mais calmo e tinha envolvido qualquer coisa ao redor da cintura. "Patrão, disse-me ele, dai-me água, estou numa fogueira".

— Vê-de, meu amigo, como estou doente, mas o regato fica próximo daqui.

— Dai-me o braço, meu patrão; há tanto tempo estou convosco e sempre fui um empregado fiel.

Tomei-lhe a mão e disse-lhe algumas palavras tranqüilizadoras.

Enquanto isso a água quente, que eu tomara em prodigiosa quantidade terminou por fazer efeito. Vomitei, com muita água, os alimentos ingeridos pela manhã. Senti-me muito melhor, distinguindo claramente a carruagem, as pastagens e as árvores; a nuvem não encobria mais os objetos, algumas vezes ela reaparecia, mas sumia logo. Vi que estava quase nu e tive vergonha. Olhei as mãos e vi com satisfação que elas mexiam. O estado em que vi José Mariano tranqüilizou-me apesar de ficar cruelmente atormentado de ver o seu sofrimento e acreditei não poder mais vê-lo bom do juízo.

Um segundo vômito trouxe-me mais alívio que o primeiro. Distingui os objetos mais claramente ainda e pude, com agrado, falar francês e português; minhas idéias tornaram-se mais concisas e indiquei claramente a Laruotte onde se achava o vomitivo. Tomei-o por três vezes e acabei por lançar, em torrente de água, todos os alimentos que ingerira. Até o momento em que deitei fora a terceira porção do vomitivo experimentava uma espécie de prazer em tomar água quente, mas daí por diante ela começou a repugnar-me e deixei de bebê-la.

Durante alguns instantes senti uma dormência nos dedos, mas isso teve cura duração. A nuvem desapareceu completamente, minhas idéias tornaram-se claras e pouco a pouco, senti-me curado. Mandei fazer chá e tomei três xícaras. Levantei-me, passeei, corri e fui o primeiro a rir de tudo o que se passara.

Pouco depois José Mariano melhorou, voltando à razão. Vestiu-se e disse ao peão índio que queria ir à procura de Matias; montou a cavalo e trouxe-o logo.

Creio que eram dez horas da manhã quando comi o mel e só ao pôr-do-sol senti-me perfeitamente bem.

O novo guia e Joaquim chegaram ao cair da noite.

Precisava de repouso. Deitei-me e foi então que vi como se é feliz quando no seio da família. Meus homens sabiam o quanto eu estava doente e era fácil julgar quão eu precisava de repouso. Entretanto não paravam de fazer barulho durante a noite, e os mosquitos, abundantes após as chuvas, incumbiram-se de tirar-me o sono de madrugada.

(Saint-Hilaire, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1974 (Reconquista do Brasil, 10), p.103-105)
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