É ave columbina, perístera ou brava, granívora, menor que a juriti das capoeiras e maior que nossas rolinhas caldo-de-feijão e cascavel. Pelo porte e pela cor lembra a carijó. Tem o dorso pardo acinzentado, o ventre esbranquiçado, peito vináceo, bico preto, pés vermelhos, algumas pintas pretas sobre as asas e junto às olheiras. As extremidades das pernas da cauda são salpicadas de branco. Seu comprimento é de 25 a 30 centímetros. O peso varia entre 110 e 130 gramas. Depois de ressequida, pronta para o enfardamento, pesa apenas a metade. O ovo, completamente branco, pesa 8 gramas. Põe dois em cada postura, talvez mais, conforme a duração do inverno. E é bem possível que filhotes de começo de inverno já sejam pais no fim do mesmo inverno... porquanto são aves muito poedeiras... e o clima é quatorial. A carne é vermelho-escura, muito saborosa. A parte mais apetecida e apreciada é a titela. Aliás o que sobra é tão pouco.
Entremos agora num pombeiro ou pombal, sítio onde fazem a postura. Pode estender-se por léguas e léguas. No Brasil a única região a oferecer todos os requisitos à procriação tão assombrosamente prolífera desses pombos é o Polígono das Secas, quer por seu clima e sua posição topográfica, quer por sua flora variegada. Nidificam no chão, plano, quente e seco, uma chocadeira ideal, gratuita e natural, em que o sol supre eletricidade ou querosene. Prefrem as touceiras de macambiras, bromeliácea aparentada com o ananás e o gravatá (caruá, caraguatá, caruatá), de espinhos recurvados, às vezes em sentido oposto. Basta encostar-se para ficar preso pelos gadanhos aduncos. As folhas longas, estreitas e ensiformes, um tanto arqueadas, oferecem guarida contra o sol, a chuva, as feras e os homens. Servem também de poleiro durante a dormida e o choco.
São abatidas centenas de milhares dessas aves por dia. Num só pombal pode haver uma renda diária de cem a duzentos mil cruzeiros.
Para ninguém se extraviar, cada grupo destaca um coió, isto é, um caboclo, munido de corneta, apito ou chocalho. É o ponto de referência ou orientação. Assobia, guincha, abóia, canta, declama, apita, chocalha para guiar os companheiros; de cada um recebe dez por cento das avoantes apreendidas. Para andar nos carrascais e entrançados de macambira, usam sapatões grotescos, perneiras e gibão de vaqueiro. Quando não é possível tratar logo as que foram abatidas, arrancam-lhe o papo e a cabeça e empilham-nas no bornal. Assim não se deterioram tão cedo nem a carne amarga.
A maneira mais bárbara de pegar avoante é o facheiro, que consiste numa operação realizada em noite sem lua. Munidos de uma piraca ou lamparina a querosene, de palheta em punho, abatem novas e velhas a torto e a direito, em meio a um alarido infernal de gritos, silvos, chocalhadas e quinchos. É antes extermínio que captura. Mais humano é apanhá-las a mão na bebida, aos milhares, ou ainda nas arapucas, sangas.
Aqui no Rio Grande doNorte, máxime na Zona Oeste, os pombeiros mais afamados nos últimos anos foram: Suassuna, Cordão de Pomba, Pinheirinhos, Umbuzeiro, Sorocaba, Serra Dantas, Serra do Carmo, Baraúnas e Bom Sucesso. Neste último penetrei por duas vezes neste ano e colhi as informações in loco. De relógio em punho, contava dois a três disparos por segundo. O pombal estendia-se por duas léguas. Dizem que 1959 foi ano recorde em avoantes. Até fins de junho foram abatidas avoantes com ovos. Nosso maior comprador é a Paraíba.
Vamos ao estaleiro, local onde as tratadeiras consertam as aves e os compradores fazem bons negócios. Barracas às dezenas... umas cobertas de encerado, outras de palha ou ramos. São movediças como os pombais. Ali encontramos bancas, talheres, mesas, balanças, cereais — uma autêntica feira e ambulante no coração da mata. Carros e caminhões vão e voltam. As mercadorias custam os olhos da cara... Água a dez ou vinte cruzeiros a lata. A atmosfera dos estaleiros é pouco convidativa. É um fartum, uma catinga nidorosa, nauseabunda! E em tal ambiente as aves são tratadas, enfardadas e negociadas. O processo é o seguinte: amaciar as penas com água fria, extrair o papo e a cabeça, estripar, salgar, bater ou amassar com garrafa ou cacete, dependurar em cordas aos pares, enfiando asa com asa e deixar secar ao sol e sereno durante dois dias e uma noite. Os corações e as moelas são enfiadas em cordões e semelham rosários em que não oram, mas que devoram. Atinge a casa dos milhões a renda dessa indústria. Não resta dúvida que a carne de arribação é um tanto carregada e provoca erupções cutâneas ou exantemas e eczemas. Seja como for, não só o peixe, senão também o homem morre pela boca.
Raiou o dia da revoada emigratória. O inverno está prestes a findar. Rareiam as chuvas Já emudeceu o ribombo do trovão, apagou-se o clarão dos coriscos. Estão desfeitos todos os pombais e os filhotes voam com desembaraço. Vão arribar! Aguardam apenas uma neblina para lavarem as penas para o grande vôo transoceânico. As aves estão brabas, sem pouso certo, irrequietas. Desapareceram os caçadores.
Um belo dia, à hora do crepúsculo, ressoa um estrépito ensurdecedor e generalizado pela vastidão da caatinga, um bater fragoroso de inúmeras asas. São as avoantes, que, acossadas pelo instinto migratório, em incontáveis bandos se congregam num só bando, voluteando em enormes elipses, como para acordar alguma desavisada, sobrevoam pela derradeira vez a vastidão das planuras nordestinas, vão subindo, subindo sempre, até galgarem altura e, impelidas pelo sentido da orientação, tomam a direção do nascente e cruzam o Atlântico. No dia seguinte... não se avista uma só arribação! Arribam todas! Misteriosamente haviam chegado... misteriosamente se foram...
Nota: Reproduzido de A avoante, Prefeitura Municipal de Mossoró, Diretoria de Divulgação, Ensino e Cultura, Coleção Mossoroense, série B, nº 53, Mossoró, Rio Grande do Norte, 1959.