Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Outubro 2004 - nº 71 - Ano VII


Sumário

Festança

Folhas de canela
Mário Sette

Festa de Nossa Senhora do Rosário
Alceu Maynard Araújo

Uma tradição religiosa
histórica e folclórica que Portugal legou ao Brasil

Dulcinéia Paraense

Cancioneiro

Os jangadeiros cantadores
Joaquim Ribeiro

Flor do Dia
versão colhida em Recife
Sílvio Romero

O homem macaco ou o lobisomem do Cabo
José Francisco Soares

Imaginário

Barba-Ruiva
Alfredo do Vale Cabral

O Careca

Os três ladrões da ovelha

Colher de Pau

Avoante
Huberto Bruening
padre

Mel de abelhas
Auguste de Saint-Hilaire

Matadouros
carnes de carneiro e de porco

Robert Walsh

Oficina

Engraxadores
Mário Sette

Da condução das boiadas do sertão do Brasil; preço ordinário do gado que se mata e do que vai para as fábricas
André João Antonil

Garimpeiros
Euclides da Cunha

Palhoça

O cesto
José Alípio Goulart

Teatro no Rio de Janeiro do tempo dos vice-reis

O vestuário feminino
Júlia Lopes de Almeida

Panacéia

A caveira do boi
Joaquim Ribeiro

Oração de Nossa Senhora do Desterro

Um escapulário
Múcio Leão

Veja o que foi publicado em cancioneiro
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

O homem macaco ou o lobisomem do Cabo

José Francisco Soares

Quem for pra feira do Cabo
Amarre a boca do saco
E tenha muito cuidado
Pra não cair no buraco
E leve umas bananinhas
Dê ao homem macaco

Disse Cristovam Pedrosa
Que no Engenho Salgadinho
Foi localizado um homem
Parecendo um macaquinho
Quem vai para aquele engenho
Volta do meio do caminho

Dizem que é um selvagem
Que vive dentro da mata
Só come frutas silvestres
Sapo caçote e largata
Bico doce e lagartixa
Cobra, embuá e barata

Se chama o "Homem macaco"
É alto e só anda nu
Já foi visto muitas vezes
No engenho massauassu
Dormindo tranqüilamente
Debaixo de eu pé de imbu

Lá na vila trez carneiro
Um caçador já viu ele
Fazendo muita careta
Mais correu com medo dele
Dizendo que nunca viu
Um chimpanzé como aquele

A barba do monstro tem
Um metro de comprimento
As pestanas do tamanho
Do rabo d’um papavento
Os pés são arrendodados
Parece os pés d’um jumento

É um animal turbulento
Não tem qualificativo
Os olhos de quem morreu
Mas na verdade está vivo
Chamá-lo de Boko Moko
É um bom adjetivo

Outro dia viram ele
Na estrada de ipojuca
Tangendo um carro de boi
Da usina Cuiambuca
Com os cabelos vermelhos
Branco da cor de Sivuca

Viram ele um dia desse
Passar num corte de cana
Bem perto do barração
Da usina Massangana
Levava na mão direita
Uma penca de banana

Lá em pontes dos carvalho
Antônio Bento da Cruz
Foi buscar uma parteira
Para mulher dar a luz
E viu ele na entrada
Da usina Bom Jesus

O delegado do Cabo
Designou um agente
Para prender esse bicho
Que impreterivelmente
Precisava de um macaco
Para dançar na corrente

Foi quatros policiais
Afim de capturá-lo
Para trazê-lo de carro
De a pé ou a cavalo
Queria o macaco vivo
Não precisava matá-lo

A policia avistou ele
Nas matas de Salgadinho
Debaixo de um alvoredo
Depenando um passarinho
Quando avistou a polícia
Desabalou no caminho

O delegado ordenou
Que fosse com toda pressa
Buscar o homem macaco
Que não queria conversa
Queria saber detalhes
Da sua vida pregressa

Já tinham ido dizer
Ao prefeito Zequinha
Que viram ele de noite
Numa casa de farinha
Querendo pegar mulher
Que passava ali sozinha

As presas dele parece
As presas de um animal
Disseram que ele fugiu
Para o engenho Maraial
Correram todos com medo
Do monstro descomunal

Um caçador que estava
Tirando mel de tubiba
Viu aquele monstro nu
Parecendo uma guariba
Correu e meteu a testa
Num tronco de macaíba

Ele tem a barba grande
Parecendo um ermitão
Mas a polícia do Cabo
Deseja pegá-lo a mão
Porque não criam macaco
Naquela jurisdição

Ele sabe que a polícia
Trabalha e não tem preguiça
Disseram que ele era
Fugitivo da justiça
E nas unhas dos federais
Ela não dá uma missa

E o prefeito Zequinha
Tomou bonita atitude
Vai pegá-lo pra saber
Se tem defeito ou virtude
Porque pretende interná-lo
Numa casa de saúde

Mas o ilustre prefeito
Encontra dificuldade
Porque o homem macaco
Tem muita sagacidade
Parece até um macróbio
Que nunca foi na cidade

O macaco vê o povo
Desaba em toda carreira
Se eu pegasse esse macaco
Botava-lhe uma coleira
Uma corrente na cinta
Pra pedir níquel na feira

FIM

(Soares, José Francisco. O homem macaco ou o lobisomem do Cabo. Recife, 19??)
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