Eurico Santos
É grande o folclore das aves e tão grande que sobre ele se escreveria um livro.
Na impossibilidade de fazê-lo, vamos aludir resumidamente a algumas histórias de aves, cujo motivo é a rivalidade entre elas, por vezes desentendimentos de velhos amigos, desavenças domésticas.
Não há pelas vastas terras do Brasil, onde canta o jaó e alterca a perdiz, caipira, tapiocano, capiau, manojuca, jeca, guasca, que ignore a lendária briga em que se desavieram, faz séculos, aquelas duas boas e velhas amigas.
Reza assim, muito simplesmente, a tal história:
Houve um tempo, quando todos os bichos eram falantes, que o jaó e a perdiz viviam em santa e boa camaradeagem, percorrendo os campos, excursionando na mata como dois irmãos que se quissessem muito.
Motivos decerto respeitáveis, mas desconhecidos, coisas de família, certamente, desataram os laços daquela amizade e os dois não mais se falaram e até, para evitar encontros, um foi viver na mata e outro ficou habitando o campo.
Às vezes, ao cair da tarde, quando a serenidade da antenoite começa a baixar nos campos, anda o jaó reconciliante, pelas orlas da mata, interrogando em voz dorida e plangente:
- "Eu nunca mais!"
Assim interpreta o homem do campo as vozes daquelas aves e, desse modo, explica-lhes a distribuição geográfica, pois o jaó vive somente na mata e a perdiz lá não entra, flanando pelas campinas, aí dormindo, pondo, incubando e criando os filhos.
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Em relação ao curiango, há uma história de desarmonia entre os casais, o macho e a fêmea vivem a resignar e então trocam doestos entre si.
Dizem os nortistas que a esposa do curiango xinga o marido de joão-corta-pau e ele dá-lhe por apelido: maria-angu.
Nas noite, especialmente de luar, lá estão eles na sua altercação:
- João-corta-pau.
- Maria-angu.
- João-corta-pau.
- Maria-angu.
E assim vão eles, pela vida fora, sempre trocando doestos, mas sempre juntos, como certos bípedes implumes.
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Uma lenda muito conhecida no Norte é a do tangurupará e a do japim.
O tangurupará tem mais ou menos o porte de uma sabiá. É, na parte superior do corpo, todo negro e, na inferior, acinzentado. Há, nos encontros, uma mancha branca.
O bico muito contrasta com a plumagem porque é de um vermelho forte.
Isso deu motivo à lenda:
Como todos sabem, o japim tem a faculdade de imitar todos os pássaros, porém jamais imita o canto muito fino do tangurupará.
E nisso se fundamenta o motivo lendário.
Certa vez o japim imitou o canto do avô da tangurupará e esse, iludido, acudindo ao apelo, dá de frente com o burlão do japim que o arremedava.
Irritou-se com a troça e avançou para o japim e matou-o.
O sangue deste assassínio tingiu-lhe para sempre o bico e é por isso que hoje o japim imita todas as aves, porém jamais o tangurupará.