Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...

A rivalidade entre as aves

Eurico Santos

É grande o folclore das aves e tão grande que sobre ele se escreveria um livro.

Na impossibilidade de fazê-lo, vamos aludir resumidamente a algumas histórias de aves, cujo motivo é a rivalidade entre elas, por vezes desentendimentos de velhos amigos, desavenças domésticas.

Não há pelas vastas terras do Brasil, onde canta o jaó e alterca a perdiz, caipira, tapiocano, capiau, manojuca, jeca, guasca, que ignore a lendária briga em que se desavieram, faz séculos, aquelas duas boas e velhas amigas.

Reza assim, muito simplesmente, a tal história:

Houve um tempo, quando todos os bichos eram falantes, que o jaó e a perdiz viviam em santa e boa camaradeagem, percorrendo os campos, excursionando na mata como dois irmãos que se quissessem muito.

Motivos decerto respeitáveis, mas desconhecidos, coisas de família, certamente, desataram os laços daquela amizade e os dois não mais se falaram e até, para evitar encontros, um foi viver na mata e outro ficou habitando o campo.

Às vezes, ao cair da tarde, quando a serenidade da antenoite começa a baixar nos campos, anda o jaó reconciliante, pelas orlas da mata, interrogando em voz dorida e plangente:

- "Eu nunca mais!"

Assim interpreta o homem do campo as vozes daquelas aves e, desse modo, explica-lhes a distribuição geográfica, pois o jaó vive somente na mata e a perdiz lá não entra, flanando pelas campinas, aí dormindo, pondo, incubando e criando os filhos.

* * *

Em relação ao curiango, há uma história de desarmonia entre os casais, o macho e a fêmea vivem a resignar e então trocam doestos entre si.

Dizem os nortistas que a esposa do curiango xinga o marido de joão-corta-pau e ele dá-lhe por apelido: maria-angu.

Nas noite, especialmente de luar, lá estão eles na sua altercação:

- João-corta-pau.

- Maria-angu.

- João-corta-pau.

- Maria-angu.


E assim vão eles, pela vida fora, sempre trocando doestos, mas sempre juntos, como certos bípedes implumes.

* * *

Uma lenda muito conhecida no Norte é a do tangurupará e a do japim.

O tangurupará tem mais ou menos o porte de uma sabiá. É, na parte superior do corpo, todo negro e, na inferior, acinzentado. Há, nos encontros, uma mancha branca.

O bico muito contrasta com a plumagem porque é de um vermelho forte.

Isso deu motivo à lenda:

Como todos sabem, o japim tem a faculdade de imitar todos os pássaros, porém jamais imita o canto muito fino do tangurupará.

E nisso se fundamenta o motivo lendário.

Certa vez o japim imitou o canto do avô da tangurupará e esse, iludido, acudindo ao apelo, dá de frente com o burlão do japim que o arremedava.

Irritou-se com a troça e avançou para o japim e matou-o.

O sangue deste assassínio tingiu-lhe para sempre o bico e é por isso que hoje o japim imita todas as aves, porém jamais o tangurupará.

(Santos. Eurico. Histórias, lendas e folclore de nossos bichos)
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