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Outubro 2009 - Ano XII - nº 129


Sumário

Festança
Dança do tapuio

Cancioneiro
Peleja de José Severino Cristóvão com Maria do Carmo Cristóvão

Imaginário
Nhanduti
Laura Della Monica

Colher de Pau
O alho

Oficina
Vitalino: a arte de enriquecer os outros

Palhoça
Tapa, tapona, tabefe
Luís da Câmara Cascudo

Panacéia
Medicina prodigiosa, interessante e popular
Assis Silva

 

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Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Nhanduti

Laura Della Monica

Diz a lenda, no Paraguai, que nos velhos tempos, havia uma pequena aldeia de guaranis; seu cacique-chefe tinha uma filha de rara beleza e de sorriso encantador. Chamava-se Nimia. Todos a adoravam pela sua bondade e meiguice. Os rapazes queriam-na por esposa. Nimia, no entanto, já havia escolhido aquele que seria o seu amor. O tempo passou. A menina agora era moça e estava mais linda ainda. O velho guerreiro queria dar-lhe um esposo forte, corajoso e respeitável; para isso os pretendentes deveriam se submeter a uma série de tarefas difíceis e perigosas.

Certo dia, volta das lutas aquele a quem Nimia secretamente jurara amor eterno. Não fugiu ele às tarefas impingidas por seu pai. Ficaram noivos e as núpcias seriam após sete luas. Começaram os preparativos. Mas uma guerra começou a deixar triste e enlutada aquela tribo. Gente do mundo civilizado invadira a aldeia de Inha-Verá e levou todos os jovens fortes para engrossar fileiras na luta contra o inimigo. Levou também o jovem noivo que prometera a sua amada a mais breve volta e se alguma coisa acontecesse ela ficaria sabendo.

Passaram-se as luas. Os sobreviventes da aldeia plantaram e colheram várias vezes.

Certo dia uma pomba negra pousou perto de Nimia. Dessa data em diante ninguém mais viu a moça. Conta-se que ela andou pela floresta acompanhando o vôo da pomba durante muito tempo, até que um dia viu o corpo do seu amado estendido no chão. Sofrendo dor profunda pediu aos deuses da floresta que lhe dessem pelo menos, a oportunidade de tecer a mortalha. Os deuses atenderam-na.

Morreu imediatamente, transformando-se numa horripilante aranha negra com veneno terrível. A tarefa começou.

Uma delicada teia foi cobrindo, envolvendo o corpo do moço valente, guerreiro destemido. Ao terminar a tarefa partiu em busca de vingança. Por isso, até hoje, os guaranis e seus descendentes têm medo das aranhas negras que vagueiam pelas florestas. Seu veneno é terrível, assim como a vingança da sua ancestral: Nimia.

O tecido que ela faz passou-se a chamar nhanduti. Trabalho de muita paciência cujo emaranhado traduz certos desenhos que se deseja realizar. Esse trabalho é feito por mulheres não somente no Paraguai e adjacências como nos Estados brasileiros limítrofes, mas no interior de São Paulo também como os municípios de Pirassununga, Ribeirão Bonito e Socorro. Este último foi o maior centro de nhanduti. Era interessante observar as mulheres andando pelas ruas com caixinhas de papelão em cujo interior havia linha para fazer nhanduti. Em todas as casas encontrava-se enfeites dessa arte manual.

(Mônica, Laura Della. "Nhanduti". Folha da Tarde. São Paulo, 30 de janeiro de 1975)

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