Cidade de Goiás — Um paulista de 68 de idade, residente em Vila Boa desde os 17. Benedito de Freitas, é quem ainda mantém viva a tradição da dança do tapuio, antigamente obrigatória em todas as grandes festas vila-boenses. Os tapuios saem às ruas nas comemorações em homenagem ao Divino, em maio de cada ano. Caminham em fila indiana sem chamar muito a atenção e só dançam em casas de família onde sua presença tenha sido anteriormente solicitada. Participam adultos e crianças do sexo masculino. O chefe é Itamar de Freitas, neto de Benedito, tendo como capitão Marco Antônio das Graças Leite.
A pesquisadora Marcolina Martins Garcia, do Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás, lamenta que, hoje, os próprios participantes da dança ignorem o significado de alguns atos e letras da música entoada. O "ensinador" tem inclusive dificuldade de relembrar a sequência no desenrolar do drama.
Na ilha
A dança é uma luta entre duas tribos devido ao rapto de um caciquinho por uma ave — um jacu gigante — que o levou para uma ilha. Ali, as duas nações se encontram e lutam corpo a corpo para, ao final, se reconciliar e promover grande festa, sem vencido, nem vencedor.
São dez atos diferentes, com ritmo musical e mímica próprias, já sem uma sequência lógica, confundindo-se em diferentes quadros. O Ari-rê-cum-cum é o desembarque na ilha. O pássaro é encontrado e o caciquinho está morto. A caça ao animal é feitas com flechas e bordunas e, após sua eliminação, segue-se uma dança. Daí a pouco aparece a outra tribo, que também busca seu caciquinho carregado pela ave. Nos combates que se desenrolam um dos caciques mata o outro. O pajé, furioso, levanta-se de um tapete de onde assistia a luta e, com sua magia, consegue trazê-lo novamente à vida. As duas nações dançam alegremente, formando um grande circulo que se fecha e se abre. O cacique ressuscitado é carregado em triunfo, dizendo frases, ininteligíveis. O pajé canta: "compadre já veio, compadre já vai, alegre entrou, saudoso sai". Ao apito dos chefes, os dois grupos se dispõem em fila indianas, entoando o Escundumbará-escundumbará-escundumba, significando o embarque em canoas e imitando o ruído dos remadores descendo o rio de volta à aldeia. Nessa parte, cantam, "jacum já veio, jacum já vai, com duas flechadas jacum não cai" e atiram flechas a esmo, como se procurassem acertar algum jacu, um dos alimentos prediletos dos silvícolas.
Instrumentos
Os tapuios vestem-se de penas da cabeça aos pés, ostentando vistosos cocares com cobre-nuca em fibras de linhagem, tintas em preto, tangas, braceletes e perneiras, colares em penas e contas de lágrima e miçangas. As faces são pintadas e todos empunham arco, flechas e pequenos bastões representando bordunas. Os instrumentos musicais eram, a princípio, cuíca e flauta, agora substituídos pelo tambor e acordeão. O chefe comanda todos os quadros com um apito.
Na cidade de Goiás — antiga capital do Estado e cidade histórica — a dança do tapuio conta com a participação de funcionários públicos e estudantes. A professora Marcolina Martins Garcia, observa:
— A população local não dá a devida atenção a essa manifestação folclórica, mas seus organizadores insistem na preservação da tradição, já um pouco adulterada. Estes lutam com dificuldades financeiras e muito oportuno seria que as autoridades os prestigiassem, para não deixar morrer a dança do tapuio.