Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Outubro 2008 - Ano XI - nº 117


Sumário

Festança
Fandango
José Maria T. de Andrade

Cancioneiro
Um matuto na cidade
João Vicente Emiliano

Imaginário
Quem tem asa para que quer casa

Colher de Pau
Alimentação indígena
Vera Lúcia Mathiasi

Oficina
Paneleiras

Palhoça
Os pés nossos melhores amigos
Gumercindo Saraiva

Panacéia
Das ervas à pemba, os truques de mulher

 

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Quem tem asa para que quer casa

Era uma vez um tal dom Urubu... E não sei como lhes conte, quando ele ia mais no sereno do vôo, ameaçou uma trabuzana d'água que parecia que o mundo vinha abaixo. O cabeça pelada (urubu) não quis saber de mais conversa, foi avoando como um corisco e sem olhar por aqui nem pra acolá apousou no telhado de uma casa velha e ficou assuntando em como os outros bichos, que avoam tão rasteiro, se arranjariam quando ele, o rei dos ares, não tinha onde se esconder.

Já por ai, umas pombas debandadas vinham também fugindo da tempestade e metiam-se nos pombais como gente que tem de "seu" a pouso certo onde assista.

E vai o Urubu falou assim:

– Deixa vir o sol que eu também vou fazer minha casa.

Depois vieram as andorinhas e se esconderam na beirada das telhas. E dom Urubu tornou a dizer:

– Eu também vou fazer a minha casa.

Depois vieram as cambaxirras e se enfiaram no buraco do muro, mesmo em frente do bicho, para lhe fazer inveja. Ficaram muito quietinhas, muito arrumadinhas no seu canto.

E vai o Urubu, e disse:

– Eu também vou fazer minha casa.

Depois um João de Barro, morador velho de um ipê seco, meteu a cabecinha fora do buraco de sua casa de terra pegou de espiar.

O Urubu tornou a dizer:

– Eu também vou fazer a minha casa.

Chuva caía que não era brinquedo, o vento assobiava, danado de brabo. Os trabalhadores, num átimo, vieram correndo da lavoura e entraram na casa onde o Urubu estava em cima do telhado, molhadinho como um pinto e jurando por Deus Nosso Senhor que quando o sol apontasse ele ia fazer sua casa.

Veio o sol, mais o "bicho" não quis saber de nada. Sacudiu as asas e avoou para esquentar o corpo. Logo se apanhou enxuto e bem lá em cima, não se alembrou mais de fazer a sua casa e muito prosa ia vendo que os outros pássaros não podiam chegar onde ele estava. E vai daí, quando desceu, encontrou com a cambaxirra que estava empezinha cambaxirrando (cantando) em riba de uma taipa, muito concha de sua propriedade. E a bichinha lhe pruguntou, então:

– Dom Urubu, quando é que vossa senhoria dá começo a sua casa.

– Sai daí, cambaxirrinha à toa, respondeu dom Urubu com uma risadinha de pouco caso. Você tem casa, mas não é capaz de ir aonde eu vou. E, arribando vôo, gritou:

– Quem tem asa para que quer casa?...

É por isso que na quadra das chuvas todos têm onde se esconder, menos dom Urubu.

(Gomes, Lindolfo. Contos populares. São Paulo, Companhia Melhoramentos, sd, p.17-19)

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