Era uma vez um tal dom Urubu... E não sei como lhes conte, quando ele ia mais no sereno do vôo, ameaçou uma trabuzana d'água que parecia que o mundo vinha abaixo. O cabeça pelada (urubu) não quis saber de mais conversa, foi avoando como um corisco e sem olhar por aqui nem pra acolá apousou no telhado de uma casa velha e ficou assuntando em como os outros bichos, que avoam tão rasteiro, se arranjariam quando ele, o rei dos ares, não tinha onde se esconder.
Já por ai, umas pombas debandadas vinham também fugindo da tempestade e metiam-se nos pombais como gente que tem de "seu" a pouso certo onde assista.
E vai o Urubu falou assim:
– Deixa vir o sol que eu também vou fazer minha casa.
Depois vieram as andorinhas e se esconderam na beirada das telhas. E dom Urubu tornou a dizer:
– Eu também vou fazer a minha casa.
Depois vieram as cambaxirras e se enfiaram no buraco do muro, mesmo em frente do bicho, para lhe fazer inveja. Ficaram muito quietinhas, muito arrumadinhas no seu canto.
E vai o Urubu, e disse:
– Eu também vou fazer minha casa.
Depois um João de Barro, morador velho de um ipê seco, meteu a cabecinha fora do buraco de sua casa de terra pegou de espiar.
O Urubu tornou a dizer:
– Eu também vou fazer a minha casa.
Chuva caía que não era brinquedo, o vento assobiava, danado de brabo. Os trabalhadores, num átimo, vieram correndo da lavoura e entraram na casa onde o Urubu estava em cima do telhado, molhadinho como um pinto e jurando por Deus Nosso Senhor que quando o sol apontasse ele ia fazer sua casa.
Veio o sol, mais o "bicho" não quis saber de nada. Sacudiu as asas e avoou para esquentar o corpo. Logo se apanhou enxuto e bem lá em cima, não se alembrou mais de fazer a sua casa e muito prosa ia vendo que os outros pássaros não podiam chegar onde ele estava. E vai daí, quando desceu, encontrou com a cambaxirra que estava empezinha cambaxirrando (cantando) em riba de uma taipa, muito concha de sua propriedade. E a bichinha lhe pruguntou, então:
– Dom Urubu, quando é que vossa senhoria dá começo a sua casa.
– Sai daí, cambaxirrinha à toa, respondeu dom Urubu com uma risadinha de pouco caso. Você tem casa, mas não é capaz de ir aonde eu vou. E, arribando vôo, gritou:
– Quem tem asa para que quer casa?...
É por isso que na quadra das chuvas todos têm onde se esconder, menos dom Urubu.