Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Outubro 2008 - Ano XI - nº 117


Sumário

Festança
Fandango
José Maria T. de Andrade

Cancioneiro
Um matuto na cidade
João Vicente Emiliano

Imaginário
Quem tem asa para que quer casa

Colher de Pau
Alimentação indígena
Vera Lúcia Mathiasi

Oficina
Paneleiras

Palhoça
Os pés nossos melhores amigos
Gumercindo Saraiva

Panacéia
Das ervas à pemba, os truques de mulher

 

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Fandango

José Maria T. de Andrade

Fandango é um espetáculo folclórico de assunto marítimo, daí ser também chamado: marujada, barca, chegança de marujos, marujos, nau catarineta. Não existe uma unidade. Este folguedo popular resulta da função de vários elementos de nossa literatura oral e também é, além de dança, música e teatro popular. Sua representação faz parte das festividades natalinas. É precedida por um cortejo que leva um barco alegórico para o pátio da festa – geralmente em frente da igreja local – ou lugar da comemoração, onde está armado o tablado que serve de palco para a apresentação. Esta dura cerca de oito horas contando os intervalos, durante os quais atores saem do palco para um pequeno descanso e alimentação. As jornadas (atos) são quase todas cantadas, inclusive diálogos, acompanhados pela bandinha de instrumentos de corda que se coloca ao fundo do tablado. Os atores representam os membros da tripulação de um barco, vestindo-se conforme a patente de cada um. São eles:

Mestre: diretor da companhia e encenador.

Capitão de mar e guerra: pai da Sabóia.

Comandante: um dos oficiais.

Piloto: outro oficial.

Gajeiro: criança, representa o cão (diabo).

Cirurgião-mor: médico da tripulação.

Sabóia: mocinha, filha do capitão, geralmente representada por um homem.

Vassoura: zelador, palhaço.

Ermitão: padre ou frade, capelão da tripulação.

Ração: cozinheiro, palhaço.

Marujos: outros marinheiros que compõem as duas filas colocadas lateralmente no palco.

 

Origem

Sendo o fandango um auto folclórico, não tem princípio absoluto, não tem registro de nascimento nem atestado de casamento dos pais.

Houve antecedentes no Egito, na Grécia e na Europa (principalmente na Península Ibérica). Ignora-se onde e quando representaram primeiro o fandango como auto. Existia na Espanha – em grande voga no século XVIII – um baile popular como este nome; era dança de parelha, acompanhada de guitarra e castanholas, etc...

O auto, como se representa hoje, começou a ser registrado do início do século passado para cá. Primeiramente, Henry Koster que assistiu a este auto no ano de 1814, em Itamaracá, ilha do litoral norte pernambucano, a uma hora do Recife. Depois os jornais, dessa época para cá, começaram a registrá-lo, pelo menos aqui em Pernambuco e Alagoas.

Uma análise dos textos das várias versões do folguedo revela-nos características marcantes de uma época e de um povo. O fandango é incontestavelmente uma herança recebida de Portugal. Resulta de uma coletânea de excertos de velhos romances, canções, lendas e orações, na maioria portuguesas. Notamos a influência portuguesa também na dança e na música do auto.

Enredo

Era uma vez uma nau que vagou errante durante sete anos e um dia. Quando acabou a manutenção, lançaram a sorte "para ver a quem matar" para comer e a sorte caiu no general. Este mandou que o gajeiro subisse ao mastro grande e ele lá de cima diz: "Avisto terra de Espanha e areia de Portugá". O general, porque livrou-se da morte, prometeu dar ao gajeiro, em agradecimento, suas três filhas, muitas coisas, uma casa dourada... ele rejeita, e quer somente a alma do general. Era o cão que estava no couro dele. E o general disse: "Afasta-te de mim, inimigo, meu inimigo infernal, que minha alma é de Deus – ó toulinda, não é para ti dá".

A nau prossegue viagem e chega em terra firme, quando vão agradecer à Nossa Senhora por terem sido salvos da borrasca.

Cantam suas façanhas, perigos, amores, intrigas, louvores aos santos, a Deus e à Virgem e trechos de romances e canções antigas que são anexados sem um encadeamento lógico. Observamos que varia um pouco o enredo em cada versão.

Localização

Encontramos várias versões deste folguedo espalhadas pelo Nordeste, algumas delas já documentadas como: Ceará (Gustavo Barroso); Rio Grande do Norte (Câmara Cascudo); Paraíba: João Pessoa, Areias, Alagoa Grande, Souza (Mário de Andrade, Oneida Alvarenga, Gonçalves Fernandes, Rossini Tavares); Pernambuco: Recife, Nazaré, (Pereira da Costa, Oneida Alvarenga, José M. T. Andrade); Alagoas: (Théo Brandão), Sergipe: (Sílvio Romero).

Muitas destas já desapareceram. Podemos ainda assistir à representação deste folguedo em Maceió (AL), Pitimbu, Carpina e Recife (PE) durante as comemorações natalinas de cada ano.

(Andrade, José Maria T. de. "Fandango". Correio do Povo, 10 de fevereiro de 1968)

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