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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Anatomia popular e pitoresca

Pedro Tupinambá

Em nosso trabalho de hoje apresentamos um estudo dos termos utilizados pelo povo, no Brasil, e empregados em Belém e outras cidades do norte, para designar órgãos, aparelhos, regiões ou pontos anatômicos etc., segundo sua interpretação, compreensão ou analogia, e que a tradição vai consagrando no decorrer dos anos. Não nos ocupamos dos elementos ligados à fisiologia, patologia, clínica médica, nosologia, limitando o nosso escorço à anatomia.

Muitas vezes o vocábulo popular é uma corruptela do científico, como é o caso de figo, em lugar de fígado, ou estamo, por estômago.

As palavras que exibimos no final, provém de duas origens:

1ª) do Aditamento aos esquemas de Anamnese, da 2ª Medicina de Homens, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (U.L.T., chefe), ano de 1957;

2ª) colhidas por nós nas fontes populares, através de interrogatórios e da conversação nos ônibus, feiras, ruas etc.,

Certas locuções do linguajar diário só tem sabor e forma de expressão quando construídas com vocábulos populares. Do contrário perdem toda a graça e ênfase.

Ninguém vai dizer, por exemplo, na pelada da praça: — Dou-te um murro na região mastóidea, que tu cais sentado!

O que o moleque diz para o outro é: — Te dou um tabefe no pé do ouvido, que tu senta, corno!

Queremos chamar a atenção para o uso, pelo vulgo de certas designações anatômicas para denominar outras, como: barriga da perna, boca do estômago, pé do ouvido, Peito do pé. As frases, que expomos a seguir, foram coligidas por nós, diretamente do modo de falar do povo ou extraídas de vários autores, e algumas são rifões que correm de boca em boca:


Barriga

1) "Estar com a barriga no espinhaço: estar muito magro, estar faminto". (H. Lima e G. Barroso, em Pequeno dicionário brasileiro da língua portuguesa, 9ª ed. 1957, Civilização Brasileira).

2) Barriga de lama: indivíduo de ventre volumoso e mole.

3) Dor de barriga: dor ou cólica intestinal

4) Dona Sinhá está de barriga (está grávida).


Beiço

5) Não se pode dizer nada pra essa menina: ela espicha logo o beiço!


Boca do estômago

6) Chico apanhou uma bolada na boca do estômago, com toda a força.


Bola

7) Aquele sujeito gira da bola.


Bucho

8) Mariazinha comeu tanto, que ficou de bucho grande.

9) Doutor: o moleque estava chorando muito e eu taquei o mingau no bucho dele. Não reparei que o mingau estava azedo.

10) "Pobre cheio de luxo fede o bucho".


Branco do olho

11) Faz tempo que eu noto que ele está com o branco do olho amarelo.

12) Naquela escuridão, só se via o branco do olho do nego.


Cachola

13) Esse menino tem boa memória: traz tudo na cachola.


Cadeiras

14) Rebola as cadeiras, mulata!

15) Tenho sentido muita dor nas cadeiras, doutor. Não há sebo de carneiro que dê jeito.

16) "Baiana é aquela
que entra no samba
de qualquer maneira,
oi! que mexe, remexe
dá no nas cadeiras,
deixando a moçada
com água na boca".
(Do samba Falsa baiana, de autoria de Geraldo Pereira).


Calango

17) Deixa eu tirar o teu calango? (brincadeira infantil, que consiste em apertar, com os dedos polegar e indicador, o músculo bíceps, para provocar a sua contração brusca).


Cana (ou Cana do braço)

18) — Quer pegar uma queda de braço comigo? — Na munheca ou na cana?


Canela

19) Diquinho levou um chá de canela, que rabeou.

20) Ah! mana: o "seu" Tutuca espichou a canela "ontonte".


Cangote (ou Cogote)

21) "Ninguém trepa no meu cangote!" (Ninguém me domina!)


Cara

22) Tavico está de "cara cheia" (embriagado).


Caroço do olho

23) Credo! Quase espoca o caroço do olho do garoto.


Caveira

24) Vamos encher a caveira?


Céu da boca

25)Juquinha está com o céu da boca crivado de sapinho.


Cocuruto

26) No meio do chinfrim, o desgraçado levou uma cacetada no cocuruto, que sentou.


Couro

27) Meu filho está com o couro grosso. Tenho para mim que é curuba.

28) "Curo (Couro) dele é mais peló que de jacaré" (Jaques Flores, in Panela de barro, p.33, Rio de Janeiro, Adersen Editores, 1947).


Cruzes

29) Doutor: eu queria bater uma chapa de raio X, porque tenho sentido muita dor nas cruzes.


Dedão do pé

30) Aquele diabo sentou o pisão com toda a força, no meu dedão do pé, que fiquei sem poder calçar sapato, três dias.


Fel

31) Ah! Pra que tu deixaste espocar o fel do bicho?


Figo

32) "Eis a razão porque digo
Dela qual o seu defeito:
Ataca primeiro o cérebro
Come o "figo", acaba o peito,
E depois do mal tá crônico
Não há médico que dê jeito".
(De Francisco Evaristo, citada por Eduardo Campos, in Folclore do Nordeste, p.50. Rio de Janeiro, Ed. O Cruzeiro, 1960).


Gogó

33) "Quem é que vem no meu gogó?"

34) "Dona Guiomar mostrava o gogó". (Nélio Reis, em O rio corre para o mar, p.120. Rio de Janeiro, Editora A Noite, 1941).


Grão

35) Joãozinho está com o grão inchado.


Imbigo

36) Meu filho mais jito tem o imbigo pulado.


Lata

37) Quem amarrotou a lata do Janjão?


Mobília

38) Ih! Minguta está de mobília nova!


Miolo

39) ..."estava como uma pessoa muito velha, de miolo mole, que já não regula". (A figueira, conto de J. Simões Lopes Neto).

40) Falido, sem nenhum amigo a quem recorrer, o comerciante estourou os miolos com uma bala.


Mocotó

41) D. Eulália está com os mocotós opados. (edemas maleolares).


Moleira

42) A moleira dela ainda não fechou.

43) Cuidado! Essa criança ainda está com a moleira mole.

44) "Pôr sal na moleira" - fazer perder a paciência. Também com o significado de amolecer, abrandar a pessoa virada. (Walter Spalding, in "O sal no populário sul-rio-grandense". Diário de Notícias, Porto Alegre, 19 de agosto de 1956).


Munheca

45) Chá de munheca - briga


Nó no dedo

46) Bate com o nó do dedo na porta, devagarinho.

47) Dona Bilu está com os nós dos dedos atacado de reumatismo.


Partes

48) Doutor: há um bom pá de dias, que ela está com uma coceira nas partes.


Passarinha

49) "Não me bate a passarinha", (não desejo tal coisa) dizem as mulheres.

50) "Vai chegar a vez de eu provar passarinha de gente, assada no espeto". (Adalberto Rainero Maroja, em Azar, p.87, Belém, H. Barra Ed., 1955).


Pé de ouvido

51) "Mulher danada,
que duvida do marido
leva a mão no pé do ouvido
pra deixar de duvidá"

(Trova popular, citada por Adelino Brandão, em Recortes de folclore, p.147. Araçatuba, 1956)


Peito

52) Mulher! Dá logo o peito pra essa criança, pra ver se ela se cala.

53) Meu peito está seco, não tem mais leite, disse Cotinha.


Peito do pé

54) João feriu o peito do pé no arame farpado.


Peitos

55) No depoimento disse o acusado: — Ele me chateou tanto, que eu endoidei, larguei-lhe um murro nos peitos.


Pente

56) Doutor, estou urinando pouco e com muita dor na pente. (Temos ouvido a palavra no masculino e no feminino).


Quartos

57) "As mãos vão palpando o balanço dos quartos" (Bruno de Menezes, em Batuque, p.14, 4ª edição, Belém, H. Barra Ed., 1953)


Sola do pé

58) Anastácio meteu um bruto acapu na sola do pé.


Sovaco (ou sovaqueira)

59) Nenê: deixa eu dar um cheiro no sovaco? (familiar).

60) Vai lavar essa sovaqueira com limão!

61) "Eu dei um beijo
no sovaco de uma velha,
minha boca encheu de pelha
quase morro de lança".
(do cancioneiro nordestino)

62) "Nega danada
do sovaco catingoso
nunca vi mulhé danada
prá fazê cume gostoso".
(modinha popular).


Tripa

63) Eu vi o homem esfaqueado: estava com as tripas pra fora.

64) "A fome é tanta
que eu já perdi a bossa
Até a tripa fina
já comeu a tripa grossa".
(modinha carnavalesca)

65) Volta da Tripa é o nome de uma rua tortuosa e ramificada, do bairro do Telégrafo Sem Fio, em Belém do Pará.


Venta

66) "Nega danada
da cabeça de escalope,
meto tua venta no fole
quero ver sangue espirrá".
(Trova popular do norte e nordeste, citada por Adelino Brandão, em Recortes de folclore, p.147, Araçatuba, 1956).


Virilha

67) Ah! comadre Bené, nem lhe conto: sua afilhada está arriada no fundo da rede, com uma baita íngua na virilha.


Glossário

• Aba da costela - rebordo costal
• Aba do peito - rebordo costal
• Anca - quadril
• Apá - omoplata
• Asa - omoplata
• Assento - nádegas
• Bago - testículo
• Bago do olho - globo ocular
• Barriga - ventre, cavidade abdominal, gravidez.
• Barriga da perna - panturrilha
• Batata da perna - panturrilha
• Beiço - lábio
• Bestunto - cabeça, cérebro
• Bobó - pulmão
• Bofe - pulmão
• Bola - cabeça, juízo
• Branco do olho - esclerótica
• Bucho - estômago do homem, ventre, abdômen. Também se aplica ao estômago e intestinos dos animais de corte.
• Cabresto - freio da língua ou do prepúcio
• Cachaço - nuca
• Cachola - cabeça
• Cadeiras - região lombar (e quadris)
• Caixa do peito - tórax
• Calango - músculo bíceps
• Campainha - úvula
• Cana (ou cana de braço) - punho
• Canal - uretra
• Canela - osso da perna, tíbia (e perna)
• Cangote - nuca
• Capa da costela - rebordo costal
• Cara - face
• Carcaça - esqueleto
• Caroço do olho - globo ocular
• Cata-piolhos - dedo polegar
• Caveira - ossos do crânio
• Céu da boca - abóbada palatina
• Coco - cabeça
• Cocuruto - epicrânio
• Cogote - nuca
• Couro - pele
• Cruzes - omoplatas
• Dedão do pé - 1º artelho (ou grande artelho)
• Dente de cachorro - dente canino
• Dente de cavalo - primeiros incisivos da 2ª dentição
• Espinha - coluna vertebral
• Espinhaço - coluna vertebral
• Espinhela - esterno
• Estâmado - estômago
• Estambo - estômago
• Fato - intestino, vísceras
• Fel - vesícula biliar e bílis (conteúdo e continente.)
• Figo - fígado
• Focinho - rosto, face
• Fronte - região parietal
• Fuça - narina, rosto
• Fura-bolos - dedos indicador
• Gargumilo - garganta, glote
• Goela, guela - faringe
• Gogó - saliência da cartilagem tireóide
• Grão - testículo
• Grão do olho - globo ocular
• Grelo - clitóris
• Imbigo - umbigo
• Junta - articulação
• Lata - face
• Lombo - região lombar
• Maçã-de-Adão - saliência da cartilagem tireóide
• Maça do rosto -região malar
• Madre - útero
• Mãe do corpo - útero
• Maior de todos - dedo médio
• Marica - "fina faixa de carne sob o pelo do ventre, formada pelo músculo cuticular" (Pequeno dicionário da língua portuguesa, H. Lima e G. Barroso, 9ª ed., 1957). Também chamada "carne de barriga"
• Meio dos olhos - pupila
• Membro - pênis
• Menina dos olhos - pupila
• Mindinho - dedo mínimo
• Minguinho - dedo mínimo
• Miolo - cérebro
• Mobília - dentadura, dentes
• Mocotó - tornozelo
• Moleira - fontanela
• Munheca - corpo
• Nániga - nádega
• Nervo - tendão, ligamento
• Nó da garganta - saliência da cartilagem tireóide
• Nó da goela - saliência da cartilagem tireóide
• Nó-de-Adão - saliência da cartilagem tireóide
• Nó do dedo - articulação do dedo
• Ovo - testículo
• Pá - omoplata
• Pança - abdômen, ventre volumoso
• Partes - órgãos genitais externos
• Passarinha - baço e partes pudendas da mulher
• Pau da cara - nariz
• Pau da venta - nariz
• Pé da barriga - região hipogástrica
• Pé do ouvido - região mastóidea
• Peito - glândula mamária
• Peito do pé - dorso do pé
• Peitos - tórax
• Pente (dois gêneros) - região pubiana e região hipogástrica
• Pinta do olho - pupila
• Pinto - pênis (familiar)
• Pomo-de-Adão - saliência da cartilagem tireóide
• Ponta da costela - rebordo costal
• Ponta de espinha - sacro
• Quartos - quadris
• Queixal - dente molar
• Rato - músculo bíceps
• Rejeito - jarrete
• Rodela - rótula
• Rosáio - apófises espinhosas
• Saboneteira - fossa supra-clavicular
• Sola do pé - planta do pé
• Sovaco (ou suvaco) - axila
• Sovaqueira - axila
• Tripa - intestino
• Tripa fina - intestino delgado
• Tripa grossa - intestino grosso
• Tutano - medula óssea ou porção central do osso
• Vazio - hipocôndrio e região inguinal
• Venta - narina
• Vergonha - partes pudendas, oógãos genitais
• Virilha - região inguinal


Os vocábulos ou expressões abaixo, consignados no Esquema de Anamnese, a que fazemos referência, não são de uso corrente, ao que nos parece, no extremo norte do Brasil:

• Caixa de comida - barriga
• Caixa de catarro - pulmões
• Cano de esgoto - reto
• Por baixo do inferior - reto
• Suan - extremidade do sacro


São de uso popular, no Nordeste, as palavras:

• Furico - anus
• Sura - panturrilha, barriga da perna
• Gaiola - tórax

Belém, 1960

 

(Tupinambá, Pedro. "Anatomia popular e pitoresca". Amazônia. Belém, março de 1961)

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