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Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

Estórias de Chico Fabiano

Francisco Pereira da Silva

O costume de contar história não desapareceu dos meios populares de São José dos Campos. Será talvez um saldo da instituição dos akapalos. No Alto da Ponte, em agosto de 1966, perante uma interessada assistência de mais de uma dezena de pessoas, ouvi um exímio contador de histórias: Francisco Fabiano, branco de 75 anos. Dentre as que recolhi em fita magnética, reproduzo a seguinte no próprio falar caipira. Não é certamente original. Trata-se de um conto de Grimm alterado na boca do narrador valeparaibano:

Tinha um casar. Uma moça casou cum o rapáis, todos dois meio bobo, né. Então o rapáis, disse assim pra muié:

— Ó muié! Ocê tem duas vacas. Vamo vendê uma para comprá vestido bonito pra ocê? Comprá ané... comprá jóia... comprá todas coisa pra ocê?

Daí a muié disse assim:

— É bom vendê mermo, marido, porque tem duas vaca. Nóis vende uma e ainda fica ôtra pra nói criá. Então amanhã ocê vai vendê, né?

— Vô

E pegou uma corda e amarrou a vaca e foi puxando. Chegô lá encontrô um home com um carnero que vinha vindo vendê. Disse:

— Onde vai indo com o carnero?

— Vô vendê. E ocê?

— Vô vendê a vaca. Ocê não qué a vaca a trôco do carnero? Bamo breganhá pruque a vaca é grande, custa prá andá, e o carnêro é mai pequeno, pra mim puxá é mai fáci.

Daí saiu. Chegô lá adiante incontrô com ôtro home com uma cabrinha, puxando a cabrinha. Disse:

— O senhô vai vendê o carnêro?

— E ocê?

— Vô vendê a cabra.

— Ocê num qué o carnêro a troco da cabra? É mai pequena pra mim levá; o carnêro garra esfregá a cabeça no chão, berra!... e a cabrinha não, a cabrinha anda mió; pudemo trocá.

Breganharo. Foro adiante ôtro home com um peru debá-do-braço.

— Onde vai com o peru?

— Vô vendê.

— E ocê?

— Vô vendê a cabrinha.

— Oi aqui! ocê qué dá a cabrinha a trôco do peru? O peru pesa...

Breganharo. Mais adiante vinha vindo ôtro home trazeno um ganso.

— Quê breganhá?

— Quero.

Breganharo. Logo adiante apareceu ôtro home trazendo um galo debá-do-braço.

— Onde vai?

— Vô vendê o galo.

— Que breganhá c'o ganso?

— Quero. É até bom. Eu queria mermo um ganso.

E fizero a braganha. Mais longe viu um armazém. Chegô lá, e o armazenhêro preguntou:

— Que vendê o galo? Quá é o preço dele?

— Esse galo tá no preço duma vaca.

Aí o armazenhêro disse assim:

— Mai o senhô tava lôco de dá a vaca assim a troco do galo?

— Mai num é a troco do galo, eu venho breganhando, sabe? Eu breganhei cum carnêro, depois o carnêro breganhei cua cabra, depôi a cabra breganhei c'o peru, depoi o peru breganhei c'o ganso depôi o ganso é que breganhei com o galo. E agora vendo o galo por dôi mil réis.

Disse:

— É, mai a vaca era vossa?

— Não, a vaca é de minha muié.

— É... então quando chegá na vossa casa apanha até o céu da boca. Possive uma vaca vendê por dói mil réis, ocê tava lôco? Fazê um negócio desse?

Disse:

— Não, minha muié me qué muito demai, né: minha muié me estima, ela não diz nada, esse negoço quieu fiz.

— Qui não di o que! Só se vossa muié num presta, só se vossa fô uma muié morto na casa pra não dizê nada, quá a muié que vai achá um negôço desse, már feito, o marido fazé, e a muié não dize nada?!

— Pói num di nada. Ocê qué vê que você vai in casa e minha muié não diz uma palavra pra pudé me agravá? Qué apostar qualquer coisa? Pago! O que é qui nói aposta? Eu aposto ôtra vaca qui tenho lá, a trôco do armazém.

E truxero testemunha ali, escrivão e assinário ali pra i os dói junto, o dono da vaca e o armazenhêro, si a muié dixésse uma palavra de ofendê ele, o home ganhava a vaca. E si a muié não dixésse nada também ele ganhava o armazém.

E chegaro lá no trato de i junto e ele conversá ali na sala pra não havê ingano.

Então a muié vêio ali na porta, deu os parabém, tár...

— Como foi de viage, marido?

— Eu fui bem.

— E ocê, como passô por aqui?

— Eu passei bem. Que tár, féis negóço bom da vaca?

— Eu vô contá pra ocê qui a vaca eu non vindi.

— O qui féis da vaca?

— A vaca eu breganhei cum carnêro.

— Carnêro!... ô qui coisa boa marido! Toda vida eu queria um carnêro pra tirá lã, qui buniteza... tirá lã do carnêro para fazê trabicêro, tudo!... Agora ocê qui aceitô de criá um carnero, toda vida eu tava quereno um carnêro em casa.

— Eu vô contá pra ocê qui o carnêro eu também não truze, breganhei cua cabrinha.

— Cabrinha!... marido, pra nói comê leite, qui gostosura! leite de cabra, remédio...

— Eu conto pro ocê qui a cabra eu também não truxe, breganhei cum peru.

— Peru? não fáis má, marido, o peru fáis roda no terrêro, estronda de madrugada... é uma beleza. Toda vida eu quis tê um casár de peru in casa.

— Vou contá pra ocê qui o peru eu também num truxe, breganhei cum ganso.

— Ganso?... Mió, marido, qui ganso berra de noite, marca hora meia-noite, de madrugada, tudo ele dá siná pra gente, mata cobra, tudo, marido!

— Muié, eu vô contá pro ocê qui o ganso também num truche, eu breganhei cum galo.

— Galo!... não fáis má, marido, há muito tempo que nóis não cria franga à falta de galo. E havendo ovo aí nói gasta tudo por farta de galo, e agora sim qui ocê acertô.

— Mal, eu vô contá qui também o galo eu não truche, eu vendi pro armazenhêro, comi um pão lá, bebi um vinho...

— Ah! não fáis már, marido, você não sofreu na viagem, passô bem, comeu, não passô fome... Tem ôtra vaca aí pra nói criá. Dessa nóis principia!...

E ganhou o armazém!...

 

(Silva, Francisco Pereira da. "Estórias de Chico Fabiano". O Vale Paraibano. São José dos Campos, 05 de janeiro de 1967)

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