Boi-de-mamão é o nome dado em Santa Catarina e, conseqüentemente, também no Paraná ao boi-bumbá do Amazonas ou bumba-meu-boi do Nordeste brasileiro.
A tradição catarinense do boi-de-mamão, tal como é conhecida na Colônia Maria Luísa, determina que o auto seja representado sempre dentro de casa. Em geral os colonos percorrem as casas da vizinhança, onde são bem recebidos e onde lhes é oferecida alguma coisa para comer e beber. Em Paranaguá, porém, o auto é levado nas ruas e praças da cidade, e, além disso, acompanhado do pau-de-fita e das balainhas.
O costume tradicional dos colonos de Maria Luísa é fazer o brinquedo no período entre o Natal e o Carnaval. Em Paranaguá porém o seu uso fica restrito ao Carnaval.
Os participantes são sempre gente de condição social modesta. Em Maria Luísa são todos lavradores. Em Paranaguá, estivadores e operários em geral.
Do boi-de-mamão não participam mulheres nem mesmo nas danças do pau-de-fita e das balainhas. Para formar os pares, são alguns homens vestidos de mulher. As pseudo-mulheres não procuram ridicularizar o papel feminino mas ao contrário, esforçam-se por parecer realmente do sexo que representam de maneira a iludir se possível, o público assistente.
Essa é a tradição dos colonos catarinenses no Paraná. Já em Paranaguá encontramos mulheres dançando tanto no pau-de-fita e nas balainhas.
No boi-de-mamão da Colônia Maria Luísa tomam parte os seguintes personagens: O vaqueiro que é o chefe, o ensaiador do auto. Suas vestes são especiais. Traz um chapéu de pano com fitas vermelhas e brancas. Usa uma bengala com que vai batendo no chão, acompanhando o ritmo da música, enquanto puxa os solos do canto.
O brincador brinca e pula atrás do boi. É uma espécie de palhaço com roupas remendadas e um chapéu grotesco. Usa bengala e máscara e, quando fala, altera a voz para não se dar a conhecer.
O cavaleiro é como o nome indica o que vai montado no cavalinho.
O doutor, a quem cabe a parte cômica do auto, é sempre recebido com risadas. Deve o papel ser desempenhado por um indivíduo que tenha veia humorística.
O boi é assim constituído: a cabeça é uma autêntica caveira de boi, com chifres e tudo. O corpo é formado por um tronco de pano, no lugar da espinha ao qual está presa uma armação de varas. Cobrindo a armação vai um pano branco, que se alonga até o chão. Sobre o pano estão pintadas malhas pretas. No lugar dos olhos, são presos com linha dois vaga-lumes.
O brincador fica escondido dentro do pano e sustentando nas costas toda a armação. O barão é um bicho medonho, sob o qual trabalham dois homens. Tem uma boca descomunal. A armação da boca é de madeira coberta com pano branco, por fora é vermelho por dentro. Os olhos são pintados com tinta preta. O corpo do monstro é de terrível aspecto, pois é coberto de barba-de-pau pregada no pano.
A bernunça é a fêmea do barão. Tem o mesmo aspecto que o barão, mas menor e encobre apenas um homem.
O velho e a velha não desempenham papel especial, acompanham apenas o bloco.
A velha traz uma boneca na mão.
O carneiro é feito igualmente com uma caveira de carneiro e armação semelhante à do boi.
O cavalinho é pequeno, em comparação com o boi.
A Mariola encerra sempre a brincadeira do boi-de-mamão. É um bichinho pequeno delicado, que atrai as simpatias e é acariciado por todos. A cabecinha, é de madeira, com enchimento de pano. Os olhos de vidro. Tem orelhas grandes. O aspecto é o de uma galinha de angola. A cabeça está fixa num pau, que é segurado pelo homem que representa a Mariola, de maneira que a cabeça se move em todos os sentidos.
Os instrumentos são três: violão, cavaquinho e pandeiro.
O auto se divide em cenas cada qual com sua música própria. As cenas são: do boi, do barão, da bernunça, do carneiro e da Mariola.
Quando a música começa a tocar, entra o vaqueiro, seguido do boi, do pai Mateus, do velho e da velha. Todos inclusive o boi, vão dançando ao ritmo da música e dando voltas na sala. O vaqueiro começa a cantar os solos, mais ou menos improvisados no momento.
A certa altura o vaqueiro canta a ordem para o boi investir contra o pai Mateus. Com isso o boi ataca o pai Mateus, dá-lhe uma chifrada e ele cai no chão. Então o vaqueiro dá a ordem para o boi deitar.
Note-se que o boi não está doente.
Ele deita por ordem do vaqueiro.
Nisto o boi-de-mamão da Colônia Maria Luísa difere da tradição da morte e ressurreição do boi. Deitado o boi, o vaqueiro e o bloco deixam de cantar. Os músicos entoam então alguns versos, chamando o cavalinho para trazer o doutor. Enquanto são cantados os versos, entra o cavalinho dá apenas uma volta pela sala, e sai de cena. A música e o canto param. Agora, fala o doutor. Começa, queixando-se do cavalo. Pergunta porque o chamaram e se têm dinheiro para pagar a consulta. Em seguida examina o doente, que continua estendido no chão. Toma o pulso no tornozelo olhando para um pseudorelógio. A cena do doutor é uma cena cômica por excelência e que atrai a atenção de todos. Os assistentes soltam piadas sobre a doença do pai Mateus. O doutor faz apreciações a respeito do doente. Abre um livro que diz trazer as doenças e remédios e lê atentamente.
Depois, de uma série de momices, escreve a receita que o vaqueiro lê. Recomeça então a música e o canto com a ordem para o boi levantar.
Seguem-se outros versos, enquanto o boi se levanta e recomeça todo o movimento da sala. O vaqueiro vai improvisando os solos e o bloco respondendo o estribilho. O boi volta e investe contra os presentes e a dançar em roda na sala, acompanhado por todo o bloco.
Por fim o vaqueiro canta a ordem para o cavalinho entrar e caçar o boi.
O boi é laçado pelo cavaleiro, enquanto o canto prossegue.
Ao mesmo tempo o cavalinho vai puxando o boi para fora da sala e o bloco acompanha até sair.
Com o reinício da música, entra em cena o barão. O barão entra amedrontando todo o mundo. Ameaça com a bocarra, os presentes. Causa gritos e correrias. A certa altura, engole uma criança, que é expelida pelo traseiro. Depois de cada estrofe do vaqueiro o bloco responde.
O barão sai de cena, e segue-se novo intervalo de alguns minutos.
Entra, então, a bernunça. A representação é idêntica à do barão. O marcador canta.
E o bloco responde no fim de cada estrofe.
Novo intervalo. Vem a cena do carneiro.
O marcador canta e logo após, a resposta do bloco.
Após breve pausa para descanso, entra a Mariola para a cena final. O marcador e os componentes do auto calam-se. São agora os músicos que tocam e cantam a Maria Luxosa. Durante o canto, a Mariola vai percorrendo a sala cumprimentando um e outro, sendo afagada, coçando-se catando pulgas nos presentes, sempre dengosa e mimada.
Terminado o canto, a Mariola sai da sala e está encerrado o famoso auto do boi-de-mamão do sul do Brasil.
Ao mesmo tempo o cavalinho vai puxando o boi para fora da sala e o bloco acompanha até sair.
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