Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano IX - Edição 96
Novembro de 2006
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O culto aos mortos, por Adelino Brandão



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O culto aos mortos

Adelino Brandão

"No sertão... o culto aos mortos é impressionador" (...) "Quem vê a família sertaneja, ao cair da noite, ante o oratório tosco ou registro paupérrimo, à meia-luz das candeias de azeite, orando pelas almas dos mortos queridos, ou procurando alento à vida tormentosa, encanta-se." (Os sertões, Euclides da Cunha)

Esse é um aspecto da vida tradicional de todas as sociedades, registrado em todos os folclores: a crença na sobrevivência da alma, reconhecida e tornada plástica, nas cerimônias de culto aos mortos, acusadas em todas as culturas, desde a pré-história. Nela se fundamentam não só algumas religiões, como um sem número de supertições, envolvendo "fantasmas" e "alma-de-outro-mundo", ou lendas sobre pessoas que morreram e voltaram à Terra, como "alma-penada" para purgar os pecados. Tais crenças, diz Fustel de Coulanges, existentes desde as mais remotas idades, deram lugar a normas de conduta, que já existiam "muito antes da existência dos filósofos"... "E estas crenças continuam nos ritos fúnebres sobreviventes."

Desses ritos, sem dúvida o de maior importância é o que se relaciona com o enterro dos mortos. O sertanejo jamais deixava seus mortos insepultos: tampouco privado de oferendas e orações. "Nos lugares remotos, longe dos povoados, inhuman-nos à beira das estradas, para que não fiquem de todos em abandono, para que os rodeie sempre as preces dos viajantes, para que nos ângulos da cruz deponham estes, sempre, uma flor, um ramo, uma recordação fugaz mas renovada sempre. E o vaqueiro que segue arrebatadamente, estaca, prestes o cavalo, ante o humilde monumento — uma cruz sobre as pedras arrumadas — e, a cabeça descoberta, passa vagaroso, rezando pela salvação de quem ele nunca viu, talvez, talvez um inimigo" (id. ibid.).

Deixar os mortos em abandono é também uma falta de piedade, pois implica em castigar-lhe a alma. Nas crenças greco-romanas, por exemplo, admitia-se que a morte era seguida por um estado de repouso e quietude, com a passagem do corpo e da alma, juntos, para o pultos, o que lhes acarretaria sofrimentos eternos. Enquanto o cadáver não fosse enterrado, não terminaria o padecimento... É clássico o episódio de Antígona, que arriscou a própria vida, para dar sepultura ao irmão, Polínice.

Em Canudos, após o combate do Cambaio, os jagunços volveram ao campo de luta e, em procissão. "carregando aos ombros em toscos pálios de giraus roliços, amarrados com cipó, os cadáveres dos mártires da fé". (...) "Gastaram o dia e a noite nessa missão", a que se dedicou a população inteira, "esquadrinhando todos os dédalos resgatados entre as pedras, todas as anfratuosidades, e todos os algares fundos, e todas as taliscas apertadas". (Os sertões)

Muitos lutadores, ao baquearem pelas ladeiras em resvalos, tinham caído em grotas e barrocais, outros, mal seguros pelas arestas pontiagudas das rochas balouçavam-se sobre o abismo. Colhiam-nos os companheiros, no meio de mil ginásticas e sacrifícios, "descendo as grotas profundas e alando-se aos vértices dos fraguedos abruptos"... (Os sertões).

Deixavam de recolher apenas os cadáveres aos quais os soldados haviam deitado fogo. Em contraposição, o cadáver do inimigo era deixado ao relento. O jagunço não enterrava os corpos dos soldados mortos. Castigava-os, duplamente, no corpo e na alma; como os primitivos gregos. Vingança terrível, cujas raízes F. Coulanges coloca nas culturas mais antigas. A crença tradicional é que a alma não abandona logo o corpo, após a morte deste, mas fica por perto, rondando o lugar ou a antiga morada corpórea.

No sertão, vingaram-se os jagunços , espetando o cadáver do coronel Tamarindo num galho seco de angico, onde ficou por longo tempo, até ser resgatado pelas tropas, três meses depois, reduzido a esqueleto.

Costumavam, ainda, os jagunços deceparem a cabeça do adversário, espetando-a em postes, ao longo das estradas, onde ficavam ao léu. Prática que, nas cidades antigas, era considerada a pena máxima para certos crimes, infamantes. Assim foi feito com o Tiradentes, que após enforcado, foi esquartejado, e teve sua cabeça espetada no alto de um poste, a caminho das Gerais, como numa taba de selvagens.

Era milenar tradição:

"Nas cidades antigas, as leis punem os grande culpados com o castigo sempre considerado como terrível: a privação da sepultura; punia-se, assim, a própria alma, ao inflingir-se-lhe castigo quase eterno... Toda essa antigüidade se persuade de que, sem sepultura, a alma vive desgraçada".

Enterro do anjo

Se, para o sertanejo, o morto é sempre um "bem aventurado", esta certeza mais se firma, em se tratando de uma criança. Por isso mesmo "...o falecimento de uma criança é um dia de festa. Ressoam as violas na cabana dos pobres pais, jubilosos entre lágrimas; referve o samba turbulento; vibra nos ares, fortes, as coplas dos desafios; enquanto a uma banda, entre duas velas de carnaúba, cercado de flores, o anjinho exposto espelha, no último sorriso paralisado, a felicidade suprema da volta para os céus, para a felicidade eterna." (Os sertões)

O termo "anjinho", pelo qual se designam as crianças falecidas até os seis ou sete anos, é generalizado não só no Brasil, mas na Espanha, em Portugal e nos países da América Latina (angelito). Aqui, como lá, o falecimento de um inocente é também motivo de festas, no meio do povo rústico, das zonas rurais, como no sertão.

(Brandão, Adelino. Euclides e o folclore.[edição do autor])
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